Amigos de pista

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Competir me trouxe muita coisa, inclusive bons amigos. Quando eu era um adolescente, aprendendo a correr no Brasil, meus heróis eram Jim Clark, Graham Hill e Jackie Stewart. Em 1969, com 22 anos, fui para a Inglaterra para competir na Fórmula Ford e depois na Fórmula 3, e já me sentia realizado por finalmente correr na terra dos meus heróis. Nunca conheci Jim Clark, que Jackie Stewart considerava o maior piloto de todos os tempos. Jim faleceu em uma corrida de Fórmula 2 em Hockenheim, na Alemanha, em 1968, um ano antes de eu chegar na Inglaterra. Mas conheci Graham Hill e particularmente Jackie Stewart muito bem.

Tanto que descrevo Jackie Stewart como amigo para a vida toda. Ele foi meu rival mais próximo durante meus primeiros anos de Fórmula 1. Um piloto brilhante, incrivelmente rápido e constante. Era um gentleman, tanto na pista como fora dela. Você podia correr roda a roda com Jackie com total certeza de que ele iria jogar limpo. Quando encontro com Jackie hoje em dia quase não falamos dos velhos tempos. Não precisamos. Compartilhamos tantas experiências durante anos – que de certa forma definiram quem nos tornamos – e penso que reconhecemos tudo isso sem ter de falar.

É um raro privilégio que um dos meus heróis de adolescência tenha se tornado um amigo do peito. Tenho um enorme respeito por Jackie, sempre tive e sempre terei. Também fiquei muito próximo de Ronnie Peterson e fomos parceiros na Lotus durante a temporada de 1973. Ele era inacreditavelmente rápido: ganhei três GPs naquele ano, mas ele ganhou quatro. Ronnie era descomplicado, aberto, genuíno, apolítico e nos demos muitíssimo bem. Cinco anos depois, em 1978, também na Lotus, ele e Mario Andretti tiveram o mesmo tipo de amizade. Era muito fácil gostar de Ronnie. Mario também era, e é, um super cara, e mais tarde o conheci muito bem quando corremos na Fórmula Indy.

Por isso, 1978 foi um ano doce-amargo para Mario, que ganhou o campeonato mundial pela Lotus em Monza, pista que ele e seu irmão gêmeo Aldo frequentavam quando garotos, para ver o grande Alberto Ascari vencer pela Ferrari. No final daquele ano, no GP da Itália, seu colega de equipe Ronnie Peterson se envolveu em um acidente na largada. Ele foi para o hospital e acreditávamos que tinha apenas quebrado as pernas. Mas algo deu errado e soubemos que Ronnie tinha falecido pela manhã. Fiquei entorpecido. Naquele dia, no hospital, Mario Andretti me disse algo simples e sábio: “Infelizmente, isso também faz parte das corridas”. Senti muito a perda de meu amigo da Lotus, mas Mario estava certo.

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