Avaliação: Audi RS7 Sportback Performance e a busca pelo carro perfeito

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O carro perfeito seria um SUV? Se você gosta ou precisa de um, pode ser. Mas, pensando em prazer ao dirigir e dinâmica, não: teria centro de gravidade baixo, para andar colado ao chão. E pensando em levar a família e os amigos – ou objetos grandes como uma bike –, não sendo um SUV teria que ser espaçoso e versátil, cinco portas, como uma perua ou hatch. Já pensando em design, a última moda são os cupês – então teria que ser um deles, mas com quatro portas para mais praticidade. E teria, claro, que ser também luxuoso, seguro e conectado.

Bem, esse Audi RS7 Sportback Performance é tudo isso. Mas na hora de botar o último ingrediente – uma boa mecânica – parece ter surgido a dúvida entre priorizar economia ou consumo. O ideal seria equilibrar os dois. Mas, em se tratando de um RS, optou-se pela ignorância: essa versão Performance tira a “normal” de linha e tem absurdos 605 cv de potência (45 mais que antes) e força que passa dos 70 “quilos” de torque. Um exagero!

Na cabine, os 5 metros de carroceria garantem muito espaço, o acabamento é em fibra de carbono, o ar-condicionado tem quatro zonas e os bancos esportivos combinam perfeitamente conforto e suporte (o pacote RS Design, opcional de R$ 12.000, os traz em couro/alcantara com apoios de cabeça integrados e ajuste de comprimento do assento). Para completar, a central multimídia com enorme tela retrátil é impecável, e seus alto-falantes da Bang&Olufsen dispensam apresentações. Já o porta-malas não tem a forma ideal, por culpa das linhas, mas é generoso e tem tampa motorizada.

Entro no carro, pressiono o botão de partida do motor e então o banco e o volante – que haviam se deslocado para facilitar o acesso – voltam à posição memorizada. Logo surge a dúvida: qual seria a estrada perfeita para esse carro? Bem, o que pude improvisar nos arredores de São Paulo foram trechos de pista lisinha com retas e curvas longas na condição “perfeita” – a Rodovia dos Bandeirantes, eleita a melhor do Brasil, e na Castello Branco – interrompidos por uma divertida e interminável sequência de curvas da sinuosa Estrada dos Romeiros, que margeia o Rio Tietê entre as cidades de Itu e São Paulo.

Um dos botões no volante seleciona o modo de condução. Bom, pois deve ser usado com frequência – afinal nenhum outro Audi tem um contraste tão radical entre “Comfort” e “Dynamic”. No começo da Bandeirantes, o RS 7 “flutua” sobre os defeitos da pista no Comfort, desligando 4 dos 8 cilindros sempre que pode, seguindo manso, a 120 km/h e 1.900 rpm em oitava marcha. A qualquer acelerada reduz para sétima e vai a 160 km/h em instantes, silencioso, quase sem notar.

No Dynamic, por outro lado, a 120 km/h está em quarta. E se você afunda o pé direito, gruda no banco e vai a velocidades absurdas em instantes, como se saísse da imobilidade rumo à máxima de 305 km/h. As longas retas – planas, subidas, descidas, tanto faz – ficam pequenas, devoradas em segundos. Em meio a outros carros, faz falta o alerta de ponto-cego (a visibilidade não é boa, mais uma vez culpa do design). Tampouco há alerta de colisão, ACC e outros itens semi-autônomos; por R$ 728.990 iniciais, deveria tê-los.

De lá a SP-300 leva à sinuosa Estrada dos Romeiros, muito mais divertida e adequada ao RS 7. Sigo no modo Dynamic, que “solta” os 45 cv adicionais, e mesmo em suas faixas pequenas e estreitas o gigante tem desenvoltura impressionante. Nem parece ser tão grande assim, graças ao centro de gravidade baixo e à suspensão com cinco braços na dianteira e braços trapezoidais na traseira, às molas de aço e aos amortecedores ajustáveis.

A direção com relação variável conforme a velocidade não exige que se tire as mãos das “9h15” (posição no volante), e o head-up display ajuda a não tirar os olhos da estrada. Reduzidas nas generosas borboletas junto ao volante ativam o modo manual do câmbio, extremamente rápido – e para desativar, basta puxar a alavanca para trás. Nem é preciso trabalhar o motor acima de 5.000 rpm, pois a 1.700 rpm os 71,4 kgfm (76,4 a 2.500 no overboost) já estão disponíveis. Mas grande parte do prazer aqui está justamente em fazer o V8 urrar.

Provocado por uma curva mal projetada, e para o lado oposto logo na sequência, ele responde com equilíbrio quase irritante, mérito também da tração integral. E assim segue por muitos quilômetros. Não ousei desligar o controle de estabilidade, e até vi sua luz se acender por instantes, mas ele atua de forma imperceptível ao pretenso piloto. Como deve ser. O ronco das aceleradas e as pipocadas nas reduzidas alertavam os ciclistas que se aventuravam por lá sobre nossa presença. Mal notei, já estava em casa. Foi rápido.

No fim, dois problemas separam o RS 7 da perfeição: gastar muito e não encarar o off-road. O primeiro, bem, para quem paga R$ 740.000 em um carro não é problema, só se por pura consciência ecológica (quem sabe se fosse híbrido). Quanto ao segundo, bem, você precisa mesmo? Porque se fosse off-road, o RS 7 seria apenas mais um SUV-Coupé, e sua dinâmica estaria arruinada. Questão de prioridades.


Ficha técnica:

Audi RS 7 Sportback Performance

Preço básico: R$ 728.990
Carro avaliado: R$ 740.990
Motor: 8 cilindros em V, 32V, comando continuamente variável, injeção direta, turbo com dupla voluta (twinscroll), start-stop, desligamento de cilindros
Cilindrada: 3993 cm3
Combustível: gasolina
Potência: 605 cv de 6.100 a 6.800 rpm
Torque: 71,3 kgfm de 1.750 a 6.000 rpm (boost de 76,4 kfgm de 2.500 a 5.500 rpm)
Câmbio: automático sequencial, oito marchas
Direção: elétrica
Suspensões: five-link (d) e four-link (t), amortecedores ajustáveis
Freios: discos de cerâmica (d/t)
Tração: integral, diferencial autoblocante
Dimensões: 5,012 m (c), 1,911 m (l), 1,419 m (a)
Entre-eixos: 2,915 m
Pneus: 275/30 R21
Porta-malas: 535 a 1.390 litros
Tanque: 75 litros
Peso: 2.005 kg
0-100 km/h: 3s7
Velocidade máxima: 305 km/h
Consumo cidade: 6,3 km/l
Consumo estrada: 8,9 km/l
Emissão de CO2: 190 g/km
Nota do Inmetro: E
Classificação na categoria: D (esportivo)


OS RIVAIS DO RS7 PERFORMANCE

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