Avaliação: Ford Ka Trail não tem medo de se aventurar

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Quase tudo vai de mal a pior no mercado automotivo. Mas existem exceções. E o Ford Ka é uma delas. Líder de vendas entre os veículos de entrada, com 12.843 emplacamentos no primeiro bimestre, o Ka está dando uma surra em modelos muito mais badalados, nessa ordem: Volkswagen Gol (9.637 vendas), Fiat Palio (6.253), Fiat Mobi (6.218), Toyota Etios (5.674), Volkswagen Up (5.421) e Fiat Uno (4.152). Mas a Ford quer mais. Por isso, apresentou ao mercado e já começou a vender o Ka Trail.

Mais uma versão aventureira? Sim. Mas o Ka Trail traz alguns atributos que surpreendem, num nicho que prima em valorizar os enfeites estéticos e esquecer os quesitos técnicos. Para começo de conversa, o Ka Trail, começou a ser pensado a partir dos pneus. Os engenheiros da Ford trocaram os pneus 175/65 R14 da versão SE pelos Scorpion ATR 185/65 R15 da Pirelli (única fornecedora do Ka Trail). Além de terem perfil mais alto, o que ajudou a elevar o carro em 31 mm, esses pneus são de uso misto (50% estrada e 50% off road).

Só esse detalhe já mostra o caráter do Ka Trail. Com a experiência de quem lançou o conceito de crossover no Brasil, com o EcoSport (derivado do antigo Fiesta), a Ford fez um carro aventureiro para encarar não apenas os buracos e alagamentos das cidades, mas também as irregularidades das estradas mal conservadas e os terrenos arenosos ou enlameados de um público ativo, que gosta de escapar para a praia, para a fazenda ou para a montanha no fim de semana.

Mais alto e 26 kg mais pesado, o Ka Trail precisou de várias modificações técnicas para passar pelo crivo do duro teste de estabilidade da Ford em Dearborn (EUA). As molas das suspensões foram endurecidas, os amortecedores são maiores e mais fortes, a barra estabilizadora tem um diâmetro maior, o eixo traseiro ficou mais rígido e os coxins do motor ganharam amortecimento hidráulico. Além disso, a direção elétrica e o sistema antitravamento dos freios (ABS) foram recalibrados.

A Ford estava ciente de que o peso extra e uma perda de 11% na fluidez aerodinâmica representariam um consumo maior. Mas, ainda assim, conseguiu manter sua nota A de consumo na classificação geral do Inmetro. O desempenho, evidentemente, foi prejudicado. Na versão 1.0, que avaliamos, o Ka Trail leva mais de 15 segundos para ir de 0-100 km/h. O carro está disponível também com motor 1.5 (faz 0-100 em 10,7 segundos).

Visualmente, o Ka Trail é equilibrado. A supervisora de design da Ford, Adília Afonso, disse que “a ideia foi não exagerar nos plásticos externos sem função e também não deixar o carro pelado demais”. O resultado foi muito bom. Vendido somente nas cores prata (metálica), vermelha, branca e preta, o Ka Trail traz uma faixa preta nas laterais e na tampa do porta-malas. As faixas ajudaram a dar uma sensação de que o carro é ainda mais alto. Molduras nas caixas de rodas, rack no teto, lanternas fumê, proteção preta nos faróis auxiliares e apliques de plástico prata na parte inferior dos para-choques foram muito bem resolvidos. As rodas também são muito bonitas, com desenho exclusivo, na cor cinza.

Por dentro, o Ka Trail tem bancos que misturam couro com tecido e acabamento com repelente de sujeira (não é impermeável). Todos os detalhes usam as cores verde militar, verde sálvia e laranja, que são as mais fáceis de encontrar na natureza e no dia-a-dia das pessoas aventureiras. Soleiras com assinatura nas portas e pedaleiras com alumínio escovado e borracha completam o visual. De resto, é o mesmo Ka SE, com todas as suas vantagens e desvantagens. Uma das vantagens (mantida brilhantemente nessa versão) é a boa dirigibilidade, com ótima posição de dirigir e câmbio eficiente. A grande desvantagem é a central multimídia, que ainda é confusa, difícil de usar e ultrapassada perante a concorrência.

“O Ka Trail é um carro para comunicar atitude e não para comunicar imagem”, diz o gerente de produto e marketing da Ford, Fernando Pfeiffer. Por isso, ele aposta mais nos atributos técnicos do que em um visual exagerado, que se vê em rivais como o Chevrolet Onix Activ, o Renault Sandero Stepway e principalmente o Toyota Etios Cross. Para ganhar a guerra contra esses concorrentes e, quem sabe, beliscar a liderança de um nicho que já ocupa 16% das vendas dos modelos com esse tipo de versão, a Ford aposta no preço.

O Ka Trail 1.0, com motor 3 cilindros TiVCT de 80/85 cv, custa R$ 47.690 (ou R$ 3.930 a mais que a versão SE). Quem quiser um desempenho superior poderá optar pelo Ka Trail 1.5, com motor 4 cilindros Sigma de 105/110 cv, por R$ 51.990 (ou R$ 4.300 a mais que o 1.0). Para se ter uma ideia do potencial de vendas do Ka Trail, basta ver o preço das versões mais baratas dos aventureiros que a Ford pretende atacar: Onix Activ 1.4 (R$ 58.490), Hyundai HB20X 1.6 (R$ 59.645), Sandero Stepway 1.6 (R$ 60.700) e Etios Cross 1.5 (R$ 64.290). Além de ser o único dos citados com motor 1.0, o Ka Trail é também o único que oferece banco traseiro bipartido (aumentando a versatilidade do carro) e o único com pneu de uso misto (opcional no HB20X). Tudo isso faz dele um carro sem medo de se aventurar.

FICHA TÉCNICA

Ford Ka Trail

Preço básico: R$ 47.690
Carro avaliado: R$ 47.690
Motor: 3 cilindros em linha 1.0, 12V, duplo comando variável
Cilindrada: 997 cm3
Combustível: flex
Potência: 80 cv de 6.300 a 6.500 rpm (g) e 85 cv de 6.300 a 6.500 rpm (e)
Torque: 10,2 kgfm a 3.500 rpm (g) e 10,7 kgfm a 3.500 rpm (e)
Câmbio: manual, cinco marchas
Direção: elétrica
Suspensões: McPherson (d) e eixo de torção (t)
Freios: disco ventilado (d) e tambor (t)
Tração: dianteira
Dimensões: 3,886 m (c), 1,695 m (l), 1,525 m (a)
Entre-eixos: 2,491 m
Pneus: 185/65 R15
Porta-malas: 257 litros
Tanque: 51 litros
Peso: 1.052 kg
0-100 km/h: 15s3 (g) e 15s1 (e)
Velocidade máxima: 156 km/h (g) e 160 km/h (e)
Consumo cidade: 12,5 km/l (g) e 8,8 km/l (e)
Consumo estrada: 14,3 km/l (g) e 9,9 km/l (g)
Emissão de CO2: 93 g/km
Nota do Inmetro: A
Classificação na categoria: A (Utilitário Esportivo Compacto)

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