Avaliação: Mercedes GLC Coupé é mistura estranha, mas com resultado feliz

A insólita combinação de SUV com cupê já foi considerada bizarra por muitos, mas acabou sendo aprimorada e enfim nos acostumamos a ela. A mais recente novidade no Brasil é o Mercedes-Benz GLC Coupé, que mira bem no BMW X4

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Roberto Assunção

“O pior mal é aquele ao qual nos acostumamos”, disse o filósofo francês Jean Paul Sartre. E parece que de fato somos capazes de nos acostumar a tudo – até mesmo à insólita mistura de SUV com cupê. Quando, ainda em 2005, a coreana Ssangyong apresentou o Actyon, primeiro SUV-cupê do mundo, as reações foram de puro horror. Já em 2008, quando a BMW lançou o X6, a aprovação foi maior. O consumidor comprou a ideia e a moda pegou. Para brigar com o X6, a Mercedes fez o GLE Coupé. E a BMW fez o irmão menor do X6, o X4 – que esse Mercedes-Benz GLC Coupé chega para combater. Pelos mesmos R$ 300.000 do BMW, o Mercedes tem porte um pouco maior e desempenho ligeiramente inferior.

Não se trata de cópia, mas de tendência de estilo, diz Robert Lesnik, diretor de design da marca. E de fato todo mundo hoje quer ter um SUV-cupê (o Honda HR-V, por exemplo, esconde as maçanetas traseiras para imitar um, embora ter duas portas não seja obrigação). Em relação ao X4, o design do GLC Coupé é mais harmônico, graças às linhas mais suaves e – principalmente – às rodas maiores (aro 20, contra 18 do rival). O problema é que a esportividade das linhas não se reflete tão bem ao volante. O desempenho surpreende, considerando o peso elevado e o fato de ter sob o capô um 2.0 de “apenas” 211 cv. Mas, por ser turbinado, o torque é de ótimos 35,7 kgfm – e disponível já a 1.200 rpm!

O câmbio de nove velocidades também ajuda a aproveitar melhor o motor pequeno, e se o GLC não chega a colar o motorista no banco, está sempre disposto (0-100 km/h em 7s3) e atinge velocidades proibidas facilmente. É carro de autobahn, pois com tanta marcha a 120 km/h raramente engata a nona. A posição dos pedais (com acelerador pivotado no chão) é excelente, e há diferentes modos de condução. No modo mais esportivo, o motor fica sempre entre 3.000 e 4000 rpm e o turbo lag some. Para completar, a tração integral ajuda a “colar” o carro nas curvas.

Apesar da boa mecânica, paga-se um preço pela carroceria alta, rodas enormes (AMG) e pneus largos. E por causa da aerodinâmica ruim, é preciso recorrer a um sistema de compensação de vento lateral. Para completar, mesmo no modo Eco (“banguela” automática) e andando a 120 km/h em nona marcha (1.800 rpm), é difícil superar os 11 km/l (o sedã C 250, irmão de plataforma, faz 17 km/l). Além disso, embora em estradas lisas as suspensões sejam confortáveis, na cidade são duras e em buracos e lombadas a frente pesa demais. No mais, a cabine tem um acabamento impecável, misturando couro, alumínio e “black piano”, e o banco traseiro tripartido e com rebatimento elétrico amplia o já enorme porta-malas de 645 litros para 1.785.

Outro destaque positivo é o assistente de estacionamento, o melhor do mercado: não é preciso ativá-lo; quando você acha a vaga e engata a ré, ele simplesmente oferece a ajuda. Do lado negativo, é inaceitável que um SUV desse valor não tenha piloto automático adaptativo ou outros recursos semi-autônomos. E a central multimídia sem Android Auto tem interface péssima, além de redundante (dois tipos de controle para a mesma coisa). Enfim acostumado ao design exótico de SUV-cupê, a grande dúvida que aparece é: por que não gastar mais R$ 10.000 ou R$ 20.000 e levar o sedã E 250, mais espaçoso e mais refinado, e ainda com dinâmica mais apurada? Questão de gosto, pois a moda hoje é ter carro alto…


Ficha técnica:

Mercedes-Benz GLC 250 4MATIC Coupé

Preço básico: R$ 299.000
Carro avaliado: R$ 299.000
Motor: 4 cilindros em linha 2.0, 16V, duplo comando variável, turbo, injeção direta, start-stop
Cilindrada: 1991 cm3
Combustível: gasolina
Potência: 211 cv a 5.500 rpm
Torque: 35,7 kgfm de 1.200 a 4.000 rpm
Câmbio: automático sequencial, nove marchas
Direção: elétrica
Suspensões: four-link (d) e five-link (t)
Freios: discos ventilados (d/t)
Tração: integral (4MATIC)
Dimensões: 4,732 m (c), 1,890 m (l), 1,602 m (a)
Entre-eixos: 2,873 m
Pneus: 255/45 R20 (d) – 285/40 R20 (t)
Porta-malas: 645 litros (1.785 litros com o banco rebatido)
Tanque: 66 litros
Peso: 1.735 kg
0-100 km/h:7s3
Velocidade máxima: 222 km/h
Emissão de CO2: 145 g/km
Consumo cidade: 8,7 km/l*
Consumo estrada: 10,3 km/l*
Nota do Inmetro: D*
Classificação na categoria: A* (Utilitário Esportivo Grande)
*dados da versão SUV

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