Enquanto acusar a “indústria da multa” é quase sempre uma falácia, a indústria tapa-buraco é um mal real, que destrói seu carro e torra dinheiro de impostos e pedágios. Por que ela existe e a quem poderiam interessar um asfalto ruim e as intermináveis operações tapa-buraco?

Enquanto muitos motoristas, na grande maioria mal educados, reclamam da suposta “indústria da multa” (na maior parte das vezes uma falácia; leia aqui o que escrevi a respeito) –, outra indústria, essa verdadeira e mais perversa, afeta diretamente seu carro e seu bolso, seja você educado ou não, seja você multado ou não. Eu a chamo de indústria tapa-buraco ou indústria do buraco.

Sabe aquela rua ou estrada que pouco depois de pavimentada já está esburacada, estragando o seu carro e até causando acidentes? Logo vem uma “operação tapa-buraco” e os remenda. Meses depois, esse mesmos buracos (e outros novos) serão novamente remendados. É um ciclo interminável, garantindo sempre não apenas buracos, prejuízos e obras no seu caminho, mas também o uso eleitoral dessas obras – além de altos lucros para as empreiteiras, e provavelmente políticos, envolvidos nelas.

Em 2013, um relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) analisou algumas de nossas estradas e mostrou que tinham afundamentos, trincas e buracos em média apenas sete meses após sua pavimentação – quando os contratos diziam que teriam que durar oito ou dez anos (um bom asfalto dura bem mais). Exemplo: em 2012 a BR-312, no Maranhão, teve 320 quilômetros recapeados ao custo de R$ 107 milhões. Três meses depois da conclusão da obra, se abriu concorrência – de R$ 72 milhões! – para tapar buracos no mesmo trecho.

Essa “indústria” opera vorazmente não só nas estradas federais, estaduais e municipais brasileiras, e também na maioria das cidades. Por que não pavimentam ruas e estradas com asfalto decente, para durar décadas? Há casos de “economia porca”: a via é construída sem seguir as regulamentações. O maior problema está na economia ao fazer o sub-leito, a base do asfalto, lá no fundo, feita de terra e solo compactado. Seja por falta de dinheiro do poder público (que pede para o fazer mais fino para reduzir o custo) ou para aumentar o lucro da empreiteira (que cobra o valor normal, mas economiza no material para maximizar seu lucro), ele acaba gerando problemas frequentes nas camadas superficiais do asfalto, que não dura nada. E, no fim, vêm os tais  remendos, nas intermináveis operações tapa-buraco.

O curioso é que esse “asfalto de curta-duração” serve muito bem também aos interesses eleitorais. Sempre dá pra deixar o asfalto desmanchar e depois tapar buracos em época de eleição para mostrar serviço. De quatro em quatro anos, as estradas ficam boas, o político ganha em cima, e depois deixa o ciclo recomeçar. E não importa qual é a administração: entra governador, sai governador, entra prefeito, sai prefeito e os buracos e operações tapa-buraco continuam a aparecer.

Considerando as revelações recentes sobre nossos políticos e empreiteiras, entretanto, talvez haja grande interesse em justamente em não deixar esse ciclo terminar, nunca acabar com a indústria tapa-buraco. Porque enquanto se tapa buracos, se recapeia mal e se tapa mais buracos, as empreiteiras continuam superfaturando e lucrando, e os políticos, provavelmente, levando propina. E você que troque mais frequentemente amortecedores, buchas e bandejas de seu carro, remende os pneus… e pague seus impostos em dia!

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