Os verdadeiros heróis da F1

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Várias pistas são muito quentes durante a temporada de Fórmula 1: Hockenheim, Budapeste, Interlagos… mais de 30ºC todos os dias. Os boxes estarão ainda mais quentes. Para os engenheiros e, em particular, para os mecânicos, enrolados em quatro camadas de material à prova de fogo, imagine quanto estarão superaquecidos. E mesmo assim eles têm de trabalhar não só extremamente duro, mas também por longas horas e sempre com precisão.

Sempre digo que o trabalho de um mecânico de Fórmula 1 é dos mais duros no mundo. Pense um pouco e você vai concordar comigo. Além disso, quando um mecânico comete um engano, esse erro vai ser mostrado ao vivo na televisão para 100 milhões de espectadores no mundo todo. E quase sempre ele vai ser castigado por comentaristas, sentados em cabines com ar-condicionado, bebendo sua água mineral gelada. Muitos deles não têm a menor noção do estresse que pode ter contribuído para aquele erro.

Digo isso porque os melhores pilotos de F1 – os campeões mundiais – sabem muito bem disso e respeitam o trabalho dos mecânicos. Um dos meus maiores heróis, o grande Juan Manuel Fangio, estudou para ser mecânico depois de deixar a escola aos 13 anos. Depois tentou ser um jogador profissional de futebol, fez seu serviço militar no exército argentino e daí continuou a trabalhar como mecânico. Finalmente estreou nas competições com 27 anos, em 1938, na categoria Turismo Carretera argentina com um Ford Sedan V8.

Quando surgiu o Campeonato Mundial de Fórmula 1, com o GP britânico em Silverstone, em 1950, Fangio tinha 38 anos. Ele não ganhou aquela corrida, pois seu Alfa Romeo 158 teve de sair da pista com vazamento de óleo na 63ª das 70 voltas da corrida. Mas, nos 50 GPs que se seguiram, Fangio ganhou 24 deles. Claro, ele ganhou cinco campeonatos mundiais de Fórmula 1.

Óbvio que Juan Manuel era um talento fabuloso – naturalmente rápido e um com cérebro que era uma verdadeira calculadora para competições. Mas suas qualidades merecem atenção inclusive na maneira que ele usou seu conhecimento mecânico para o sucesso. Fangio corria em tempos que os carros de F1 eram extremamente menos confiáveis que atualmente. Mesmo assim, seus carros sempre pareciam mais robustos que os outros, de sua equipe ou dos rivais.

Qual a razão? Fangio sempre foi educado e amigo de seus mecânicos, falava com eles como igual e dividia suas vitórias com eles. Ele fazia isso por duas razões: além de ser um cara legal e atencioso, ele sabia que os mecânicos fariam um esforço extra por ele e que seu carro sempre estaria o melhor possível. Não é exagero sugerir que esta atitude pode ter salvado sua vida, pois naqueles dias um acidente podia ser muito mais fatal.

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