Por que a Fórmula 1 se tornou o programa mais chato do mundo

Nos últimos 10 anos a TV Globo perdeu 50% da audiência da Fórmula 1. Em 2005, quando Alonso foi campeão, a média de audiência foi de 15,8 pontos, com 49,3% de participação de mercado no horário das corridas. Em 2016, essa média foi de 7,7 pontos e 23,9% de “share”

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Lewis Hamilton e Valteri Bottas, da equipe Mercedes: orçamento superior a 460 milhões de euros.

Desde que 22 carros largaram no GP da Inglaterra de 1950, em Silverstone, a Fórmula 1 passou a ser uma referência em termos de heróis esportivos, carros sublimes, engenharia de ponta e emoção. Desde a virada do século XX para o XXI, entretanto, a Fórmula 1 vem deteriorando sua fama e atualmente só fanáticos estoicos conseguem assistir uma prova do começo ao fim. Na corrida do último fim de semana, na Rússia, até Lenin deve ter bocejado no mausoléu do Kremlin. A única ultrapassagem importante aconteceu na largada, quando Valteri Bottas superou as duas Ferrari. Se teve outra, não vi.

Mas a falta de ultrapassagens não é o maior problema da Fórmula 1. Na verdade, nos últimos anos, a categoria incentivou os “fake pass” ao permitir que o piloto que estava atrás abrisse a asa traseira, ganhando muito mais velocidade e impossibilitando a defesa de quem estava na frente. Não colou.

Agora sob nova direção, a F1 deu uma melhorada no aspecto dos carros, alargando os pneus e baixando o aerofólio traseiro. Mesmo assim, os bólidos estão longe de serem os mais bonitos da história. O grande problema da Fórmula 1 é a previsibilidade. Até a aviação – que preza a previsibilidade por questão de segurança – é menos previsível do que a F1. E por que isso acontece? Basicamente, porque os carros não quebram e por causa do excesso de proteção aos pilotos que cometem erros.

O fato de a Mercedes ou a Ferrari dominarem amplamente a categoria não é grave. Sempre houve uma equipe dominante em quase todas as temporadas da Fórmula 1. Já tivemos o domínio da Lotus, da Tyrrell, da Williams, da Renault, da Benetton e da McLaren. Normal. Mas antes os carros quebravam durante a prova e os pilotos estavam mais sujeitos a erros. Havia imprevisibilidade.

Os carros atuais não quebram porque, ao contrário do que acontecia no passado, os times não são mais coordenados por chefes de equipe visionários, que vez ou outra fazia algum acordo de fornecimento de motores com uma grande montadora. Ou um acordo com um fabricante de pneus. Aos poucos, nomes como Colin Chapman, Ken Tyrrell, Frank Williams, Jack Brabham, Bruce McLaren e John Cooper foram sendo substituídos por marcas multinacionais, como Mercedes, Renault, Honda, Toyota, BMW e Red Bull.

E para os homens de marketing dessas empresas – que investem milhões de dólares nas corridas – não é um grande negócio ver um de seus carros abandonar a prova por causa de um erro do piloto ou por uma escolha errada de pneus. Em 2015, a Red Bull, a Mercedes e a McLaren Honda investiram 465 milhões de euros cada uma na F1. O orçamento da Ferrari foi de 418 milhões de euros.

Dessa forma, os carros têm um monitoramento eletrônico tão grande que os pilotos são praticamente orientados via rádio até sobre a marcha que devem utilizar, em alguns casos. Os pneus, que antigamente eram só dois (slick para pista seca e biscoito para pista molhada) agora têm sete tipos e cores correspondentes: ultramacio (roxo), supermacio (vermelho), macio (amarelo), médio (branco), duro (laranja), intermediário (verde) e chuva (azul). A superproteção aos pilotos é constante: numa corrida com chuva, é a direção de prova quem decide que tipo de pneu deve ser usado e não o piloto. E muitas vezes a largada é dada em fila indiana, para que nenhum carro se acidente na primeira volta.

As regras são tão rígidas que simplesmente sumiram os carros diferentes. Antigamente, algum projetista poderia surpreender com um Tyrrell de seis rodas, com um Lotus asa, um Ligier com motor de 12 cilindros e enorme entrada de ar, um Brabham com exaustor, um BRM com motor de 16 cilindros, um Renault turbo, um Williams com suspensão ativa ou com uma Ferrari de câmbio transversal. Hoje todos os projetos são iguais.

Na antiga F1, quando alguém criava uma novidade, muitos copiavam, mas levava um tempo para se igualar ao projeto original. Numa corruptela da máxima de Lavoisier (“na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”), dizia-se que “na Fórmula 1 nada se cria, tudo se copia”.

Excesso de pit stops, que se transformaram no principal fator de decisão das corridas, circuitos sem graça, pequenos, em detrimento aos tradicionais, excesso de GPs e, principalmente, carros “aeronáuticos” também contribuem para a mesmice, pois dificultam demais as ultrapassagens. Os carros são tão dependentes da aerodinâmica que se transformaram numa flecha com quatro rodas, um piloto (magro e espremido no cockpit) e um motor. A asa dianteira de um carro de Fórmula 1 é tão complexa que deixaria Newton de boca aberta. Assim, toda a contribuição científica da Fórmula 1 fica restrita a ela mesma.

Nunca mais se viu um piloto perder a corrida porque não soube poupar combustível, pois agora tudo é calculado para que os carros cheguem inteiros até a última volta. Sem contar que os circuitos ficaram feios, pois ao lado da pista existe uma enorme área de escape de asfalto (também para manter qualquer trapalhão na pista), quando antes havia uma grama natural ou uma caixa de brita (que representava o fim da prova para quem caísse nela).

Se a Fórmula 1 não fizer um recuo em termos aerodinâmicos, nos pneus e principalmente na enorme proteção que existe para que os pilotos não saiam da corrida, o público aficionado vai continuar diminuindo. Quanto aos jovens, nem se interessam pelo evento. Alguns não entendem a paixão de seus pais por aquele trenzinho de carros que largam e chegam na mesma posição.

Em qual esporte o campeão da temporada abandona a carreira logo depois do título? Em qual esporte um dos melhores talentos (no caso, Fernando Alonso) troca um dos eventos mais importantes da temporada (GP de Mônaco) por uma corrida de categoria concorrente (Indianápolis)?

Segundo reportagem publicada por Ricardo Feltrin no UOL, nos últimos 10 anos a TV Globo perdeu 50% da audiência da Fórmula 1, tanto em pontos no ibope quanto em aparelhos de tv ligados. Em 2005, quando Alonso foi campeão, a média de audiência foi de 15,8 pontos, com 49,3% de participação de mercado no horário das corridas. Em 2016, essa média foi de 7,7 pontos e 23,9% de “share”.

Finalmente, mas não menos importante, o acesso dos pilotos à Fórmula 1 está acontecendo muito cedo. Pilotos que mal saíram do kart estão sentando em um carro de F1 pouquíssimo tempo depois. Portanto, tornam-se famosos e importantes muito antes de construírem uma carreira no automobilismo. Muitas vezes são grossos e antipáticos com os fãs. Antigamente, a Fórmula 1 era o ápice. E os fãs viam na categoria os pilotos que mais se destacaram nas categorias anteriores. Hoje, se o menino for arrojado e tiver dinheiro, certamente terá um carro de Fórmula 1 para guiar.

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