Renault Duster Oroch enfrenta as picapinhas

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Em 1978, a Fiat inventou as picapinhas derivadas de automóveis com a 147 Pick-Up. O consumidor aprovou, a concorrência copiou. Em 1999, a Strada foi a primeira picapinha de cabine estendida. O consumidor aprovou, a concorrência copiou. Em 2009, a Strada ganhou cabine dupla. O consumidor aprovou, a concorrência copiou. E quando todos esperavam outra cartada de mestre da Fiat, quem surpreendeu foi a Renault, com sua Duster Oroch (uma nova jogada da Fiat vai ocorrer, de fato, na forma da Toro, similar à Oroch e capa de nossa última edição; mas o fato é que a Renault chegou antes).

De olho no sucesso de Strada e Saveiro com cabine dupla, a Renault em vez de copiá-las resolveu ir além, com uma fórmula inovadora. Derivada do crossover médio Duster, a Oroch de cara provoca impacto: é maior (18 a 20 cm), mais alta (8 a 10 cm) e mais imponente que as rivais. E não cobra mais por isso. A Oroch parte de R$ 62.290 na versão básica Expression, não muito equipada. Por R$ 66.790, é vendida na Dynamique avaliada (com bancos de couro, sobe para R$ 68.490; com eles e a capota marítima, para R$ 69.390).

É verdade que Strada e Saveiro até têm versões mais baratas para brigar com a Oroch básica, mas vêm com motores mais fracos. Olhando os preços, as verdadeiras rivais da Oroch Dynamique são Saveiro Cross e Strada Adventure, que, com cabine dupla, partem de preços quase iguais: R$ 68.290 e R$ 67.110, respectivamente. Quem busca uma cabine dupla é porque precisa levar pessoas e se dispõe a sacrificar a caçamba.

Ciente disso, a Renault fez na Oroch uma caçamba igual à da Strada, com capacidade de idênticos 650 kg ou 683 litros (3 a mais), mas com a vantagem de não acomodar ali o estepe, que na Strada rouba espaço na caçamba (o pneu reserva da Oroch fica debaixo dela, e só pode ser acessado usando a chave). Na Saveiro, a caçamba é menor (580 litros), mas também sem estepe. Nesse ponto, portanto, a vitória não é folgada, mas é da Oroch.

Voltando às pessoas, é nesse ponto que a Oroch humilha as rivais. Se é para levar passageiros, que seja com conforto. Strada e Saveiro são projetos que foram adaptados para ter uma segunda fileira de bancos. Na Fiat, ela acomoda só duas pessoas, e mal: o espaço é limitado, o banco é baixo e a janela lateral não abre (só a traseira). O acesso até é facilitado pela terceira porta – que não deixa, porém, de ser uma certa “gambiarra”. Ela abre ao contrário e requer que a da frente esteja aberta e que o cinto dianteiro esteja solto (e ele ainda fica na passagem).

Na Saveiro, não há a conveniência dessa terceira porta, mas há lugar para três atrás (embora apertados), o banco é mais alto (dando menos claustrofobia) e as janelas são basculantes. Mas o fato é que sair de qualquer uma das duas e entrar na Oroch é um enorme choque – e positivo. Há quatro portas de verdade, janelas que se abrem (com vidros elétricos, inclusive) e muito mais espaço, tanto lateral quanto para os joelhos. É como estar no Duster. Além de mais confortável e espaçosa, a Oroch é bem equipada – ganha da Strada e empata com a Saveiro (veja mais detalhes na tabela de equipamentos).

É a única com central multimídia, navegador por GPS (com informação de trânsito) e piloto automático de série. Só peca pela má localização do controle dos retrovisores (debaixo do freio de mão), por ter vidros “um toque” só para o motorista e por eles não se fecharem ao se trancar as portas, como nas rivais. Já Saveiro e Strada têm opcionais exclusivos, como retrovisor anti-ofuscante e sensores de chuva e de luminosidade, além de câmbio automatizado e, no Fiat, teto solar e Locker (para ajudar em atoleiros). Mas adicionar esses itens as tornam caras – pode não valer a pena.

Ao volante, as experiências são distintas, com pontos altos e baixos em cada picapinha. A Strada é a mais potente com seu 1.8 de até 132 cv, mas não é a melhor de guiar. A força do motor demora a surgir e os engates do câmbio não são precisos. Além disso, o consumo é alto e a posição de dirigir é ruim, pois o banco do motorista é muito elevado para livrar espaço atrás e não há ajuste de altura (você fica “jogado” para a frente). Para completar, a direção é lenta e a suspensão traseira com eixo rígido, embora robusta, é dura (diminuindo o conforto dos passageiros) e não ajuda nas curvas. Resultados de uma plataforma que não é atualizada desde 1998.

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Já a Saveiro tem o melhor conjunto motriz. Seu 1.6 tem 120 cv (etanol) e comando variável, garantindo elasticidade e um desempenho similar ao da Strada, com 0-100 km/h na faixa de 10 segundos. O consumo é moderado, a direção é mais precisa e as suspensões, mais macias (a traseira tem eixo de torção, como no Gol). Além de ter a melhor posição de dirigir (há ajuste de altura e profundidade do volante), a Saveiro é a única com controle de tração e estabilidade, assistente de saída em rampas e diferencial XDS, que ajuda em atoleiros. Na terra, porém, não transmite a mesma sensação de robustez. É mais para o asfalto.

A Oroch, por sua vez, agrada de cara pela tão cobiçada posição de dirigir mais elevada – mas que não chega a ser igual à de uma picape média. Embora falte ajuste de profundidade do volante, há no banco. A direção é hidráulica, como nas rivais, mas não é lá essas coisas: é precisa e boa na estrada, mas um pouco pesada no uso urbano, principalmente em manobras. É na dinâmica, porém, que está o maior destaque para o motorista. Independentes nas quatro rodas, as suspensões da Oroch garantem muito mais conforto que nas pequeninas, além de curvas sem inclinação excessiva da carroceria e uma sensação de controle incomparável.

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Nas estradas de terra, a novidade se mostrou muito robusta e “na mão”. Não há buraco que a incomode, não há curva que a tire dos trilhos. Mas há também um lado negativo: o motor 1.6 de até 115 cv não é muito forte e garante um desempenho bem modesto, de carro “mil”: 0-100 na faixa de 13/14 segundos e máxima de 164 km/h. Sem carga ou pessoas, até que a Oroch vai bem; carregada, exige paciência e reduções constantes. Mantenha o pé leve e espere; não afunde o acelerador que ficará irritado, não exagere nos giros.

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Falando em giros, as marchas reduzidas para melhorar o desempenho fazem o motor girar a altas 3.500 rpm a 110 km/h, a 120 km/h chega a 3.800 rpm e o ruído já começa a incomodar. O consumo, por outro lado, é moderado, bem similar ao da Saveiro (também nota C). No fim, a conclusão é que a Renault fez a jogada certa, e acertou em cheio no alvo. Ao menos até a chegada da Fiat Toro, a Oroch é a melhor picape cabine dupla nessa faixa de preço. É mais alta e imponente, mais robusta e trata os passageiros muito melhor do que suas rivais.

Só peca pelo desempenho limitado, mas por apenas R$ 4.000 extras – totalizando R$ 70.790, pouco mais que essas Saveiro e Strada com um par de opcionais – dá para trocar o 1.6 pelo 2.0 flex de 148 cv/20,9 kgfm e ainda ganhar de lambuja o câmbio manual de seis marchas (aí a transmissão compensa o motor maior e o consumo quase não aumenta). Então a Oroch soluciona seu maior problema: fica mais rápida (com 0-100 km/h em 9,6 segundos) e mais prazerosa de dirigir. De qualquer modo, seja com o motor 1.6 ou o 2.0, a Duster Oroch é a escolha certa.

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