50 Anos do Fusca no Brasil

O primeiro Fusca nacional, chamado na época de Volkswagen Sedan, saiu das linhas de montagem da fábrica (ainda um galpão alugado no bairro do Ipiranga, em São Paulo) no início de janeiro de 1959. O carro já vinha sendo montado ali desde 1951, quando era trazido da Alemanha totalmente desmontado. Aos poucos, suas peças foram sendo nacionalizadas até que o modelo obtivesse o status de genuinamente brasileiro ao atingir o índice de nacionalização previsto pela lei.

A partir desse momento, o Fusca passou a ser considerado nacional, um privilégio no cenário da jovem indústria automobilística brasileira. Nessa época, o VW tinha um motor de quatro cilindros refrigerado a ar de pouco menos que 1,2 litro que desenvolvia modestos 36 cv e um câmbio de quatro marchas em que a primeira não era sincronizada: só podia ser engatada com o carro parado. Levando a família, no trânsito urbano, a primeira era a marcha mais usada: qualquer pequeno aclive exigia a primeira marcha para ser vencido. E os motoristas, em sua maioria iniciantes, sofriam para dirigir o velho Fusquinha.

No interior, o New Beetle guarda pouca semelhança com seu antecessor. Os desenhistas do centro de estilo da Volkswagen na Califórnia deixaram ao velocímetro circular central a missão de fazer uma ligação emotiva com o carrinho dos anos 50. Mas a alavanca do câmbio automático de seis marchas, no lugar do mecânico de quatro marchas (com a primeira não-sincronizada), não deixa espaço para dúvidas: esse não é mais um Fusca

Em um período em que os carrões americanos dos anos 40 e 50 dominavam a paisagem de nossas ruas e estradas, o arredondado Fusca despontava como um ser estranho dentre os enormes monstros de linhas retas. Com seus parachoques exagerados e reluzentes e motores beberrões de seis ou oito cilindros, esses automóveis só serviam à parcela financeiramente abastada da sociedade. O Fusca surgiu como opção mais viável para a classe média, que começava a se fortalecer. O surgimento do Fusca nacional coincidiu com o processo de motorização em massa da sociedade brasileira, no início dos anos 60. Quem com mais de 40 anos de idade não tem boas histórias protagonizadas dentro de um Fusca? O carrinho passou a fazer parte da história da grande maioria das famílias brasileiras. Por isso esse carinho especial que, principalmente, os mais velhos ainda têm por ele. Algo estranho aos mais jovens.

Provavelmente bem poucas pessoas neste País com mais de 40 anos não tenham uma boa história de familia protagonizada a bordo de um Fusquinha

Além de custar barato, gastar pouco combustível e adequar- se ao estado lastimável de nossas ruas e estradas da época (graças ao seu peso reduzido, tração traseira e assoalho plano, conseguia chegar onde carros maiores e mais potentes, nem sequer sonhavam…) o Fusca mostrava outras qualidades inestimáveis: manutenção fácil e barata, além de uma mecânica robusta e durável. O carrinho veio ao encontro das necessidades de quem comprava seu primeiro carro e não dispunha de muitos recursos financeiros. As autoescolas, em sua totalidade, utilizavam o Fusca para treinar os novos motoristas, na maioria das vezes nem tão jovens assim. Os carros de patrulhamento da polícia eram Fusca, frotas de empresas passaram a ser compostas por Fusca e depois dos anos 70 até os táxis viraram Fusca. O sedanzinho da Volks liderou o mercado nacional por 24 anos como o carro mais vendido, de 1959 até 1982. O fenômeno Fusca foi mundial e o carrinho foi a alavanca que colocou a marca como uma das maiores do mundo.

Fabricado no México até os anos 90 com sua configuração original (motor traseiro refrigerado a ar, assoalho plano com túnel central onde se ancora toda a mecânica, tanque dianteiro, suspensões feitas por meio de barras de torção e formato arredondado da carroceria), o Fusca voltou à cena em 1998 totalmente reformulado, com o pomposo nome de New Beetle. Os estúdios da Volkswagen na Califórnia, nos Estados Unidos, apresentaram em meados dos anos 90 um concept car que utilizava as linhas básicas do velho Fusquinha, mas com a moderna mecânica do Golf. O sucesso da novidade foi tão grande que em pouco tempo o carro virou modelo de produção. O New Beetle tem o mérito de seu predecessor original: em produção há dez anos, o novo Fusca passou por leves e sutis alterações ao longo desse período, uma clara indicação do sucesso de suas modernas e arrojadas linhas que causam empatia imediata.

Acima, o New Beetle, construído sobre a plataforma do Golf. Ele tem motor dianteiro 2.0 de 116 cv e porta-malas traseiro. Abaixo, a primeira versão do Fusca: motor traseiro 1,2 litro refrigerado a ar

Cinquenta anos depois do lançamento do primeiro Fusca brasileiro, o modelo continua sendo comercializado em nosso mercado. O novo agora é produzido no México, tem motor dianteiro transversal 2.0 de 116 cv, o porta-malas é traseiro e pode ser adquirido com transmissão manual de cinco marchas ou automática de seis marchas com tração dianteira, exatamente como um Golf.

Como item opcional pode ter bancos forrados de couro e teto solar, tornando-o ainda mais sofisticado. O Fusca moderno deixou de ser carro popular ou de quem está começando a dirigir e passou a ser o que os especialistas da indústria chamam de “carro de nicho”, ou seja, um produto vendido em pequena escala para quem quer um modelo fora do comum.

Quando se transformou em New Beetle, o Fusca deixou de lado sua principal característica: ser um carro acessível, que qualquer família poderia ter

O Fusca é hoje um carro para poucos, exatamente o contrário de seu conceito original: o próprio nome Volkswagen, traduzindo do alemão, significa “carro do povo”, um modelo que, em tese, todos poderiam comprar. E o New Beetle não tem nada de popular. Muito pelo contrário. Mas nós não resistimos e pusemos ambos lado a lado nesta reportagem para que ficasse claro, em cada detalhe como o Fusca evoluiu nos últimos 50 anos. Do Fusquinha de 1959 não ficou nada, nem o nome. No New Beetle, apenas as linhas básicas arredondas são do velho Fusquinha. É como a semelhança entre pai e filho: pessoas totalmente diferentes, mas que guardam em suas formas e expressões a identidade um do outro. Não há quem olhe para o New Beetle e não reconheça o velho Fusquinha. Como um velho pai que olha e se reconhece naquele jovem filho.

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