ARI ANTÔNIO DA ROCHA

“A maior frustração da minha vida foi não ter conseguido fabricar o Aruanda”

Ele nega o rótulo de visionário. Mas é difícil encontrar outra palavra que resuma o trabalho de Ari Antônio da Rocha. Arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), foi o criador, nos anos 60, do Aruanda, um pequeno carro urbano que tinha tudo para revolucionar a indústria nacional, mas nunca foi produzido em série. “Certa vez, em visita à Mercedes, escutei que o Aruanda era o avô do smart”, relembra.

Tudo começou depois de uma palestra com os designers Pininfarina, Ghia e Fissore. O estudante foi desafiado pelo professor Lauro Birkholz. “Teria que encontrar um meio para que nossas vias comportassem o número cada vez maior de automóveis, sem desapropriações para alargar as ruas e avenidas”, relembra. Foi a campo pesquisar. Rocha percebeu que a maioria dos carros levava apenas uma pessoa a bordo e, em visita ao Hospital das Clínicas, constatou que, na maioria das colisões laterais, os ocupantes sofriam lesões na bacia. “Ninguém tinha feito esse estudo. Então, o Aruanda foi o primeiro carro com para-choque lateral, inspirado nos carrinhos de bate-bate”, explica.

“Não sou visionário. Apenas reuni os elementos que tinha na época e fiz o trabalho proposto”, pondera modestamente sobre seu carro que, de tão revolucionário, foi até mesmo exposto na Bienal de Design.

O Aruanda exposto na I Bienal Internacional de Design, no MAM-RJ, em 1968

Em 1964, Ari “automovinho”, um apelido dado na época da faculdade, inscreveu o seu projeto no prêmio Lúcio Meira “A maioria das ideias era de carros esportivos e o Aruanda era o único fora do padrão. O desenho dele até parecia uma estufa de ores. Ganhei só por causa do júri bastante especializado”, conta. Mario Fissore se interessou em fabricar o protótipo. Eles já haviam trabalhado juntos na época da DKW, quando Rocha era estagiário e colaborou na criação do departamento de estilo da marca. Chegava a hora de concretizar seu sonho.

Rocha embarcou para a Itália para iniciar a construção do protótipo. Antes de chegar a Turim, um estágio na Chevrolet, em 1965, o ajudou a conseguir o dinheiro necessário para se manter. A plataforma escolhida foi a do Fiat 500 Giardineira. A carroceria em aço era moldada à mão. Em dois meses, o protótipo estava pronto para ser apresentado no Salão de Turim de 1965. O motor era um bicilíndrico de 380 cm³ da MV Agusta, que tinha entre 28 cv e 30 cv. O câmbio era manual de três marchas.

O carro foi premiado em Turim e estampou a capa da revista Il Carrozziere Italiano. “O Bertone brincou que o nome da revista deveria ser mudado para Il Carrozziere Brasiliano”. Conheceu Pininfarina e Enzo Ferrari e, em 1966, concluiu seu doutorado em design, na Itália. “Sempre tive muita sorte. Você tem que estar nos lugares certos nas horas certas”, fala.

Acima, Pininfarina durante a palestra na FAU, em 1962; o primeiro esboço do Aruanda; e o protótipo finalizado com chassi do Fiat 500 e motor MV Agusta

Rocha também conheceu Soichiro Honda. A ideia era fazer uma parceria. A Honda iria fornecer o conjunto mecânico em troca de participação no projeto, o que não foi aprovado pelo governo brasileiro. A FNM e a Gurgel também tiveram interesse em produzir o carro. “A maior frustração da minha vida foi não ter conseguido fabricar o Aruanda”, completa.

A revista Il Carrozziere Italiano, que fez uma reportagem de capa com o modelo depois do Salão de Turim de 1965

De volta ao Brasil após dois anos na Itália, Rocha estava desempregado. “As pessoas achavam que caria caro me contratar”, diz. Foi então que começou a desenhar prédios, móveis e colaborou no desenho dos vagões de metrô.

Em 1978, o Aruanda, que estava em uma oficina, foi levado por uma enxurrada e desapareceu. Quase 30 anos depois, um telefonema mudou a história. “Uma pessoa ligou em casa e disse que tinha encontrado o Aruanda. Achei que era trote”, conta. Rocha foi à Itatinga (SP) e logo reconheceu o carro. “Foi como encontrar um lho. Pagaria qualquer preço para tê-lo de volta.” Mas o dono do modelo, arrematado em um leilão, não quis dinheiro algum pelo protótipo e simplesmente doou o carro ao seu criador. “Essa atitude mexeu muito comigo. Não estava acostumado com a dignidade humana”, relembra.

Hoje, o carro participa de eventos e Ari Rocha é uma daquelas figuras que sempre terão lugar na história da indústria automobilística nacional. Aos novatos, a dica: “Tem que ter paixão, ser marcante e decisivo”, alerta. “Se eu não tivesse ‘metido as caras’ e convidando Pininfarina, Ghia e Fissore para uma palestra na FAU, nada disso teria acontecido.”