A arte de correr nas ruas


De todos os GPs que eu sonhei vencer, dois eram especiais: GP do Brasil, minha casa, e GP de Mônaco. Ganhei no Brasil duas vezes – em 1973 com Lotus e em 1974 com McLaren –, mas a vitória em Mônaco sempre me escapou. Mesmo agora, aos 68 anos, me sinto um pouco triste por isso. Adorava Mônaco, circuito de rua que é um desafio único para qualquer piloto. Não há espaço e você precisa ser muito preciso e agressivo, uma mistura difícil. Agressividade e precisão não são companheiros naturais, mas se não conseguir esta união, não vai ser rápido.

Você também precisa de freios poderosos e muita tração, assim como uma direção rápida e um chassi acertado para a rua. Com tudo isso, é possível enfrentar as esquinas de forma diferente, única em Mônaco. Quando se freia para cada curva, você deve provocar o carro para sair de traseira de forma controlada e começar a fazer a curva antes da curva. Se fizer tudo certo – e estiver no centro da curva com um drift bem controlado – as rodas traseiras fazem um arco um pouco maior que as dianteiras. A modulação do acelerador mantém a derrapagem progressiva e o carro sai da curva com perfeição, suave e rápido.

Mas isso não é tudo em Mônaco. A pista é tão estreita e os muros tão próximos que é necessário “lamber” o guard-rail com cuidado em cada saída de curva. Você sabe que fez uma boa volta de classificação quando as laterais dos pneus ficam brancas. Também é necessário estar atento com a aderência dos pneus, já que Mônaco é cheio de ondulações, subidas e descidas. Hoje, com os carros de F1 com tanta downforce, as rodas ficam plantadas no asfalto de Mônaco. No meu tempo era diferente e Graham Hill usava as barras estabilizadoras traseiras muito duras.

Ele ganhou o GP de Mônaco cinco vezes. Não acho que foi coincidência. E tem mais: é preciso condicionamento físico. Os F1 tinham câmbio manual e se trocava de marcha a cada 2 segundos, um total 3.600 trocas nas 78 voltas. Minha primeira vez em Mônaco foi em 1971. Classifiquei em 17º e minha embreagem pifou na largada. Mesmo assim, cheguei em quinto e, quando tirei minha luva direita, ela estava cheia de sangue por ter de trocar marchas com muita força devido à embreagem pifada. Em 1972, larguei na pole com a Lotus. Começou a chover forte.

Quando saí do túnel na primeira volta, atrás de Clay Regazzoni e sua Ferrari, ele perdeu o ponto de frenagem e saiu para a área de escape. Eu estava no spray dos pneus da Ferrari e também perdi a frenagem e fui para a área de escape. Clay era pé no fundo o tempo todo. Tivemos de esperar todos passarem para voltar à pista e ainda cheguei em terceiro. Fui segundo em 1973 e 1975. Meus últimos cinco GPs em Mônaco não foram tão agradáveis, porque estava com o nosso Copersucar-Fittipaldi, que nunca foi capaz de ganhar um GP. O melhor que consegui foi a sexta colocação em 1976 e 1980. Nunca venci em Mônaco.