A invasão dos crossovers


A vitamina que o EcoSport e o Duster representaram para o fortalecimento da Ford e da Renault no mercado brasileiro não é novidade para ninguém. Mas até agora esses dois modelos praticamente não tiveram concorrentes diretos. Apesar das boas vendas, nem o Hyundai Tucson ameaçou a liderança da dupla. O Chevrolet Tracker (importado) também teve uma estreia positiva, porém discreta, e carros como Citroën Aircross e Volkswagen CrossFox nem sequer são crossovers. Mas neste primeiro quadrimestre de 2015 o cenário dos crossovers nacionais de entrada muda completamente.

Ainda chamados de SUVs (Sport Utilities Vehicles) por boa parte do mercado e do público, esses carros estão absurdamente agrupados em uma única categoria no ranking da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), como se um Ford EcoSport pudesse ser considerado concorrente de um BMW X5. Mas, pelo menos, a Fenabrave passou a classificar os SUVs como automóveis de passeio e não mais como comerciais leves.

Mas vamos ao que interessa. Os novíssimos Honda HR-V, Peugeot 2008 e Jeep Renegade inauguram um subsegmento no nicho dos crossovers de entrada. Não necessariamente em preço, mas sim em porte. Chamamos de crossovers porque são automóveis normais, com carroceria monobloco, apenas com o diferencial de serem mais altos e terem versões 4×4. SUVs, na verdade, são os velhos jipões, que usam carroceria sobre chassi, como as picapes. Portanto, poucos carros chamados de SUVs ainda são utilitários. Voltando aos crossovers de entrada (compactos e médios), além do HR-V, do 2008 e do Renegade, que chegam às concessionárias nas próximas semanas, a Renault apresentará o Duster remodelado (um face-lift enquanto não chega a nova geração, daqui a uns três anos). O EcoSport foi lançado há pouco tempo e a Ford deve esperar a reação do mercado para introduzir alguma novidade no líder de mercado.

Dessa forma, os três recém-chegados vão disputar um mercado anual de 152.883 veículos, conforme o ranking final de 2014: Ford EcoSport (54.263), Renault Duster (48.866), Hyundai Tucson (18.176), Chevrolet Tracker (14.170), Citroën Aircross (7.294), Lifan X60 (4.586), Suzuki Grand Vitara (3.012) e Chery Tiggo (2.516). Esse número com certeza vai quase dobrar, pois a expectativa da Honda, da Jeep e da Peugeot são de vender pelo menos uns 40.000 carros/ano com esses novos modelos. Claro que isso levará um tempo para acontecer. Pelos números de vendas, portanto, só o EcoSport (4.500 carros/mês) e o Duster (4.000 carros/mês) poderão enfrentar a concorrência dos “new comers”. Mas talvez nem o EcoSport nem o Duster percam vendas, tampouco a turma da parte de baixo do ranking. Na realidade, os modelos mais ameaçados podem ser alguns sedãs e hatches médios, pois as pessoas estão alucinadas pelos crossovers compactos ou médios.

Os cerca de 153.000 carros/ano dos crossovers de entrada significam 51% do total de “SUVs” vendidos no ano passado. Por sua vez, o segmento inteiro desses carros 4×4 representou cerca de 11% do volume de automóveis de passeio vendidos em janeiro de 2015. Por isso, também não pode ser desconsiderada a possibilidade de crossovers mais caros, como o Hyundai ix35, Kia Sportage e Toyota RAV4 perderem vendas para esses novos veículos que estão chegando ao mercado e devem começar na faixa de R$ 70.000, talvez um pouco menos.

É esperar para ver quem perderá com a invasão dos crossovers, que passam um momento parecido com o dos áureos tempos do carro a álcool: você ainda vai ter um.