A Volkswagen sem Schmall


Existe um tabu na Volkswagen do Brasil. Sempre que algum executivo importante é deslocado para outro posto, a pergunta que se faz é: “Foi para a Alemanha?” Ir para a terra pátria da Volks significa subir na escala da empresa; ir para outro país, especialmente para um mercado menor do que o brasileiro, significa descer no ranking profissional.

Mas a transferência de Thomas Schmall, 50 anos, para um assento no conselho de administração da marca Volkswagen, responsável pelo fornecimento de componentes para a produção dos carros, parecia ser uma exceção a essa regra. Afinal, não seria possível que um executivo com o dinamismo de Schmall pudesse ficar feliz em trocar a posição de presidente da Volkswagen do Brasil, com toda a riqueza e complexidade da operação, por um posto burocrático na Alemanha, para cuidar de componentes. Mas, na verdade, seu cargo não será apenas decorativo, pois nesse posto ele será o responsável pela liberação de recursos para todas as fábricas da Volkswagen no mundo. Segundo a assessoria de imprensa da Volkswagen, ele vai cuidar de 50 fábricas em todo o mundo. É um jovem executivo em alta na empresa alemã.

Schmall, um executivo apaixonado por produtos de alta qualidade, promoveu a maior renovação de produtos da história da Volkswagen do Brasil enquanto esteve comandando a subsidiária brasileira, de 2007 a 2014. Ele liderou a substituição do Gol G4 pelo Gol G5, que é muito superior estética e mecanicamente, atualizou toda a linha Fox – outra criação brasileira bem-sucedida –, relançou o Golf depois de três gerações perdidas, confirmou sua fabricação no Brasil juntamente com o sedã Jetta, dotou a picape Saveiro de cabine dupla, trocou motores antigos e que consumiam bastante combustível por unidades mais potentes e econômicas, introduziu o motor 3 cilindros no portfólio, atuou pessoalmente na fabricação do Up no Brasil e decretou o fim da Kombi, um veículo que mantinha praticamente a mesma engenharia desde 1957.

Não por vontade própria (pelo menos não oficialmente), mas pelas dificuldades técnicas e alto custo de introduzir airbags no Gol G4 e na Kombi, Schmall teve que descontinuar dois modelos que, embora tecnologicamente ultrapassados, ainda vendiam muito bem – eram, como se diz no jargão do marketing, duas “vacas leiteiras” da companhia. No início deste ano, Schmall anunciou um investimento de R$ 10 bilhões até 2018. Portanto, a maior parte desse dinheiro não foi usada. A Volkswagen estava planejando a nacionalização do Golf, uma nova geração para o Gol, a fabricação de um crossover compacto (T-Roc ou Taigun) e outras novidades na linha de produtos.

Mas o lançamento do Up pode ter contreibuído para essa mudança de comando em São Bernardo do Campo. A Volkswagen investiu R$ 1,2 bilhão somente no lançamento do Up, que, embora seja um ótimo carro, vende menos do que o Gol G4. Essa informação é contestada pela Volks (veja abaixo). Com nove meses de mercado, ele somou 47.910 emplacamentos e não alcançou a casa das 7.000 unidades vendidas por mês. Para efeito de comparação, a Ford, em poucos meses, já está vendendo quase 10.000 Ka por mês.

Assim, com a vaga aberta no conselho da Volks, a matriz trás para perto de si um executivo jovem, dinâmico e com visão estratégica, e ao mesmo tempo coloca no Brasil um executivo que tem um perfil mais administrativo, pois a revolução já foi feita.

Aliás, é bom que se diga, Schmall tomou todas as previdências para que o Up não seja um fracasso no Brasil. Alertou a matriz de que o brasileiro não compraria um carro sem porta-malas e sem espaço para cinco pessoas. Convenceu Wolfsburg a liberar a fabricação de um Up maior para o Brasil, com bagageiro com a mesma capacidade do Gol, quatro portas e janelas que abrem verticalmente. Mas, ainda assim, talvez tenha subestimado a aversão que o brasileiro demonstra por carros subcompactos. O próprio Ka da primeira geração foi um grande exemplo disso, pois nunca teve vendas no nível da expectativa criada por seus projetistas.

A partir de primeiro de janeiro, a presidência da Volkswagen do Brasil será exercida por David Powels, 52 anos, atual diretor geral da Volkswagen da África do Sul (cargo equivalente a presidente). Powels, que é formado em gerência contábil no British Institute, já trabalhou no Brasil como vice-presidente de finanças e estratégia corporativa, no início da década passada, e dará à empresa um perfil muito mais financeiro do que tecnológico. Alguns meses atrás uma pessoa de dentro da Volkswagen confidenciou que “todos os projetos foram suspensos”, menos o do novo Gol. Diante dessa mudança de perfil na presidência, não sabemos sequer se os R$ 10 bilhões que seriam investidos até 2018 continuam de pé. Mas, segundo informações da assessoria de imprensa da Volkswagen, Schmall garantiu que esse investimento será mantido. Entretanto, pelo andar da carruagem, não devemos esperar muitas novidades da Volkswagen nos próximos dois anos, no que diz respeito a novos produtos.

Nota do Redator –– depois da publicação desse artigo, recebi um e-mail da assessoria de imprensa da Volkswagen, dizendo o seguinte:

O Gol G4, de janeiro a novembro de 2013, teve 52.090 unidades emplacadas. Já o Up, que foi lançado no final de fevereiro e teve seu primeiro mês “cheio” em março/abril, registrou até novembro 53.197 unidades emplacadas. Em menos meses superou as vendas do G4. A Volkswagen do Brasil já exportou 2.000 unidades do Up para a Argentina. Ele também será exportado para Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Paraguai até o fim do ano.