Alternativas clássicas

Roberto Assunção

Entre o já nacional BMW 320i e o novíssimo Mercedes-Benz C 180, que também será brasileiro, qual a melhor opção?

Hatches anabolizados ou sedãs re nados? Tração no eixo dianteiro ou traseiro? Novidades para os mais jovens ou luxo clássico? Pelo preço dos SUVs urbanos e “moderninhos” que você acaba de ver, temos aqui duas receitas clássicas dos tradicionais sedãs de luxo alemães – Mercedes-Benz Classe C e BMW Série 3. Poderíamos até incluir nessa briga o Audi A4, rival costumeiro da dupla, mas preferimos nos ater aos modelos com tração traseira e, mais importante, com produção nacional con rmada: enquanto o BMW já começou este mês a ser montado na fábrica de Araquari, Santa Catarina, o Mercedes-Benz sairá das linhas de Iracemápolis, São Paulo, ainda no primeiro semestre de 2016.

Apesar de a produção nacional isentar a BMW dos 35% de Imposto de Importação, a marca (a princípio) não reduzirá o preço do 320i, que continua com valor de importado. Seguirá cobrando o que se paga pelos rivais e, quando a concorrência apertar, terá margem para reagir. Hoje, se o Mercedes-Benz C 180 parte de R$ 138.900, o BMW 320i ActiveFlex começa em R$ 134.950. Ambos representam um salto em relação aos sedãs médios tradicionais – mas não custam tão mais que um Ford Fusion Titanium ou um Honda Accord. 

Voltando um pouco à comparação com os crossovers/SUVs, o fato é que esses dois sedãs são produzidos sobre plataformas maiores e mais re nadas. Além de terem maior entreeixos e uma dinâmica mais apurada, estão um degrau acima em qualidade construtiva, conforto e tecnologia embarcada. Agora, na disputa entre esses arquirrivais, apesar das inúmeras semelhanças, que vão muito além da produção nacional, também há importantes diferenças. E elas começam antes mesmo de o motorista dar a partida em seus motores. 

As listas de equipamentos de ambos são boas, apesar de algumas falhas graves. O C 180, por exemplo, embora ofereça itens como faróis de LEDs, controle de chassi, central multimídia com navegador por GPS e sistema de recuperação de energia de frenagem, peca por ter só o banco do motorista semielétrico (ajustes apenas de altura e encosto) e ca devendo teto solar, retrovisor interno eletrocrômico (antiofuscante), chave presencial e até mesmo um simples sensor de estacionamento traseiro! Não é, porém, um problema exclusivo dele: o 320i básico tem ajustes elétricos completos nos dois bancos dianteiros e faróis bixenônio, mas não vem com itens básicos como piloto automático e navegador por GPS. Na con guração GP, quando soma esses dois itens, sobe para R$ 143.950, mas, na topo de linha com o mesmo motor de 184 cv (Sport GP), salta a R$ 164.950 – e aí dá para pensar em optar pelo Mercedes C 200 (R$ 154.950). Além de mais luxuoso e equipado que o BMW Sport GP, inclusive com sistema de estacionamento totalmente automático, seu motor passa a ser o novo 2.0, com potência e torque idênticos aos do rival (assim como o desempenho). Assim, nos itens de série eles se equivalem na faixa abaixo dos R$ 140.000, mas o Classe C passa a levar vantagem conforme o preço vai subindo – no espaço, no luxo e no acabamento interno, o BMW ca (como já é de costume) atrás do concorrente. 

Na parte mecânica, porém, o 320i tenta virar o jogo. Em comum, ambos têm unidades 4 cilindros turbinadas com injeção direta e tecnologias de última geração. Mas, enquanto o Série 3 tem um 2.0 de 184 cv ex, o C 180 vem com um 1.6 de 156 cv apenas a gasolina; enquanto o BMW tem uma rapidíssima caixa automática ZF de oito marchas, o Mercedes tem a 7G-tronic de sete velocidades que não permite xar as borboletas no modo manual – e para quem gosta de guiar esportivamente, isso faz muita falta. Dirigindo a 120 km/h, o 1.6 do Mercedes gira a discretas 2.200 rpm e o computador de bordo marca mais de 15 km/l de autonomia. Nessa situação, as marcas do BMW são bastante parecidas (graças também à banguela automática). As diferenças marcantes, porém, aparecem ao andar forte, em ultrapassagens e retomadas – quando o motor do C 180 precisa se esforçar mais e, mesmo assim, responde com menos vigor. Para completar, a turbina tipo twin-scroll do BMW tem menos retardo de resposta. 

Outro problema é que a boa impressão dinâmica causada pelo C 250 Sport, que dirigi no mês passado, cai por terra aqui. As suspensões “conforto” do C 180 têm um acerto mais macio, que coloca o Classe C onde ele sempre esteve (e de onde não deveria sair, a não ser nas versões AMG): o mundo do conforto e da suavidade. Nas frenagens fortes, a carroceria se desequilibra; nas curvas feitas com abuso, inclina além do ponto. Nessas situações, a interferência do sistema de vetorização de torque que atua nos freios é sutil, mas perceptível, como um controle de estabilidade atuando de modo “não emergencial”.

Já guiar o BMW é uma experiência, como de costume, muito prazerosa. Além das respostas mais imediatas e vigorosas do motor, tem freios e direção mais precisos e um comportamento das suspensões invejável, com um equilíbrio impecável da carroceria – à custa de um pouco mais de ruído e um pouco menos de conforto, como é inevitável. 

No m, a conclusão aqui não é muito diferente da de outros comparativos entre gerações anteriores desses ícones. É verdade que a Mercedes-Benz aprimorou a dirigibilidade do Classe C, mas, para quem gosta de dirigir, o BMW ainda garante mais prazer ao volante. Por outro lado, o C180 é bem mais luxuoso: seu interior está um nível acima do encontrado no rival, e os mais desavisados, ao passarem de um modelo para o outro, poderiam até achar que são de categorias diferentes. Assim, as duas qualidades normalmente associadas aos sedãs alemães – luxo a bordo e dirigibilidade superior – aparecem nesses dois com força. Enquanto o Classe C honra com maestria o primeiro ponto, o Série 3 leva vantagem no segundo. Mas é bom deixar bastante claro que, mesmo nos itens em que não são os melhores,  estão muito longe de decepcionar.

Na faixa dos R$ 140.000, o BMW 320i é o vencedor, a opção mais sensata. Anda mais, gasta o mesmo, é igualmente equipado e melhor de dirigir – além de já ser ex e nacionalizado, o que pode em breve baixar o custo de algumas peças (já mais baratas que as do rival). Mas é bom notar que ele tem revisões com frequência maior e custo consideravelmente mais alto (leia tabela). Já acima dos R$ 150.000, o Mercedes-Benz (C 200) ganha motor 2.0, iguala-se ao rival em desempenho – apesar de não ter a mesma esportividade – e o supera em equipamentos. Passa a ser a melhor escolha, apesar das peças mais caras. De qualquer modo, seja qual for o preço, você vai ter que decidir entre priorizar o luxo e o maior status do Mercedes-Benz ou a dirigibilidade mais esportiva do BMW. A decisão final é sua. 

VALOR DE CONSUMO RODOVIÁRIO DO C180 CORRIGIDO PELA MARCA EM 2015: 13,6 km/l (NOTA A CATEGORIA EXTRA GRANDE)

VALORES BMW DIVULGADOS EM 2015: ETANOL: cidade 6,5 km/l – estrada 9,3 km/l — GASOLINA: estrada 9,4 km/l – estrada 13,3 km/l