10/08/2026 - 7:30
O Nissan Kicks acaba de completar dez anos no papel de agente duplo — e muito bem disfarçado. Lançado em 2016 com uma trajetória de muito sucesso, embora nunca tenha sido o mais rápido, o maior ou o mais barato, ele sempre teve um consumidor fiel, em busca de segurança e custo-benefício.
No ano passado, a tradicional marca japonesa introduziu o “Novo Kicks” sem aposentar totalmente o antigo: ciente de que o novo SUV seria maior, mais global e mais caro, a marca se preparou de modo exemplar para a mudança.
A decisão foi fazer o velho Kicks se transformor em Kait, ciente de que o “Novo” Kicks brigaria em outro patamar — afinal, a segunda geração tem entre-eixos maior do que o do Jeep Compass e quase o mesmo comprimento, além de um porta-malas enorme.
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Nos últimos dias, a marca anunciou a chegada da linha 2027 do Kicks com redução de preços em até R$ 10 mil — agora são quatro opções entre R$ 159.990 e R$ 189.990. Os comentaristas de internet se apressaram a dizer que é desespero da Nissan e que o carro é um fracasso e não vende nada.
Mas não é isso que mostram os números do mercado, e a redução no valor teve mais a ver com consolidação do modelo e questões industriais do que com dificuldade para vender carros, como mostram os dados de emplacamentos.
O fato é que a estratégia Novo Kicks + Kait deu certo. A marca fez migrarem as vendas do antigo Kicks para o Kait, e ainda ganhou, com ele, clientes vindos de outras marcas até, pois o SUV oferece mais por menos: tem preço de subcompacto — com valores entre R$ 117.990 e R$ 152.990 — mas porte e porta-malas de compacto.
Esse custo-benefício atraente é de praxe em modelos que se eternizaram e conviveram com seus substitutos ou sucessores, como Chevrolet Classic e Spin, Fiat Palio e Hyundai Creta, entre outros, cada um à sua época e em seu segmento.
Estratégia perfeita
Mas a jogada de mestre da Nissan foi manter um carro “velho” sem deixar que parecesse velho. O Kait mantém o motor 1.6 robusto e econômico, o câmbio CVT suave e as suspensões extremamente bem tropicalizadas que fizeram do Kicks nascido em 2016 — sob medida para os brasileiros, vale dizer — um sucesso, e ganha uma roupagem mais moderna, que o faz parecer, de fato, um carro novo.
Quanto ao Novo Kicks, crítica quem não dirigiu. Tem bom torque, viajei de carro cheio com família e malas sem sofrimento. Não é um primor de potência, mas é bem econômico, tem revisões baratas e a confiabilidade típica dos carros japoneses. Uma segurança que, para muita gente, vale mais do que muita coisa que os chineses oferecem. Leia aqui a avaliação.

O resultado, de novo, foi o esperado. A Nissan aproveitou a linha de montagem e o parque de fornecedores consolidado, perdeu muito menos participação no segmento do que a enorme maioria dos rivais na tempestade perfeita, e chegou a um ótimo resultado.
No segmento, metade das vendas da Nissan agora é de Kicks, metade é de Kait. O cliente conservador e fiel que comprava os Kicks de entrada ou tem medo de turbo e dupla embreagem migra para o Kait, enquanto o adepto de novas tecnologias e que comprava as versões mais caras — ou outros modelos, inclusive compacto-médios como o Compass —, passou a comprar o novo Kicks “americano”.

Os números não mentem
Olhando para a evolução do mercado de SUVs compactos e compacto-médios, fica claro que a Nissan não errou — inclusive perdeu menos participação de mercado nos últimos anos, com a “invasão chinesa”, do que quase todos os rivais, com exceção do “fenômeno” VW T-Cross. Não é opinião, são dados concretos da Fenabrave.
Modelos que historicamente dominavam o segmento de SUVs apresentaram uma queda significativa na participação de mercado ao longo dos anos, refletindo o aumento da concorrência e o ciclo de vida dos produtos.
O Jeep Compass — só 4 cm mais longo que o novo Kicks e com menos espaço interno que ele — iniciou o período como líder com 11,87% em 2017, mas sofreu uma redução contínua sendo um dos maiores prejudicados pelo ataque chinês, atingindo 4,30% no primeiro semestre de 2026 (queda de 63,77% em comparação a 2017).

Já o Honda HR-V tem tradicionalmente um consumidor mais fiel, e, ainda assim, apresentou uma das maiores retrações do grupo, caindo de 11,52% em 2017 para 3,58% em 2026, representando uma variação negativa de -68,92%.
O Jeep Renegade, por sua vez, após atingir seu pico de participação em 2019 com 11,45%, perdeu espaço consecutivamente, registrando apenas 3,34% no primeiro semestre de 2026 (queda de 63,89% em relação a 2017).

Mesmo o Hyundai Creta — que também usou por um tempo a estratégia de “agente duplo” — manteve-se competitivo ao longo de quase todo o período, oscilando entre 8% e 9% de share (com pico de 9,69% em 2021), mas recuou para 5,71% este ano (queda de 29,2% em relação a 2017 e de 37% em relação a 2022, pré-invasão chinesa)
A exceção foi o VW T-Cross, que demonstrou trajetória de forte consolidação, tornando-se referência de estabilidade. Ele começou a registrar participação expressiva em 2019, quando lançado, com 6,18%, e atingiu seu ápice logo no ano seguinte, 2020, com 11,38%.

No primeiro semestre de 2026, o Volks lidera o grupo com 7,63% de share, mostrando-se o mais resiliente frente à diluição do mercado (não estava à venda em 2017, mas perdeu apenas 19,26% de participação de 2022 até agora).
Essa perda de participação dos líderes históricos, cada um em sua escala, abriu espaço para os novos modelos chineses, que batem recordes de vendas, em uma pulverização geral do mercado, com a introdução de alguns novos produtos para sustentar o volume das marcas.
É aí que entra o Nissan Kait: lançado em dezembro de 2025, ele aparece no ranking do primeiro semestre deste ano com 2,41% de participação, mostrando, de fato, que ele veio em uma sábia estratégia para também substituir o Kicks antigo, somando-se ao Novo Kicks nas vendas da marca, que sabia muito bem que o novo modelo, mais caro, não atingiria os mesmos volumes de venda.

Assim, considerando o velho Nissan Kicks com nova cara (Kait) e o “Novo Kicks” que tem 2,64% de share, vemos que a soma deles (linha azul) atinge 5,05% das vendas de SUVs em 2026, o que os coloca em terceiro lugar, atrás só do VW T-Cross (7,63% de share) e do Hyundai Creta (5,71%) — não considerei aqui o bem menor Tera, com 6,58% de share.
Tudo isso evidencia como os novos lançamentos são cruciais para a manutenção do market share. Que me desculpem os haters, com resultados positivos, a Nissan não está ligando para as críticas em relação aos preços ou à mecânica do novo Kicks — na maioria vindas de quem não dirigiu o carro.
Preços do Nissan Kait 2027
Active R$ 117.990
Sense R$ 136.990
Sense Plus R$ 139.590
Advance R$ 146.990
Advance Plus R$ 149.890
Exclusive R$ 152.990
Preços do Nissan Kicks 2027
Sense R$ 159.990 (era R$ 168.690)
Advance R$ 169.990 (era R$ 179.990)
Exclusive R$ 179.990 (era R$ 187.190)
Platinum R$ 189.990 (era R$ 199.000)
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