Março é um mês famoso pelas chuvas de verão, e com frequência as ruas e estradas brasileiras alagam sem aviso, colocando os motoristas em situação de risco. Caso você se veja em uma situação assim, a regra de ouro é simples: se puder evitar, não tente atravessar alagamentos. Espere a água baixar ou procure uma rota alternativa. Se a travessia for inevitável, confira as diretrizes técnicas para proteger seu patrimônio e sua segurança.

Recentemente, publicamos uma reportagem explicando o que acontece especificamente com carros elétricos e híbridos em situações de enchente, mas agora vamos explicar como proceder em carros a combustão tradicionais caso a travessia do trecho alagado seja realmente inevitável.

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A primeira coisa a considerar é: antes de avançar, observe o nível da água. O limite máximo de segurança é a metade da roda. Se a água estiver acima do centro da calota, o risco de o motor aspirar líquido e sofrer um calço hidráulico é altíssimo. Use outros carros do mesmo porte como referência antes de colocar o seu na água.

Alagamento – Foto: Divulgação/Eduardo Saraiva/A2IMG

A técnica da travessia

Para atravessar alagamentos com sucesso, o segredo não está na velocidade, mas na constância: engate a primeira marcha e mantenha a velocidade baixa (cerca de 10 km/h). Mantenha o giro do motor constante em torno de 2.500 rpm. Rotações muito altas aumentam a força de sucção na admissão, podendo puxar água para dentro dos cilindros.

Como dirigir em alagamentos
Como dirigir em alagamentos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Distância e “vácuo”

Seguir o rastro de um veículo maior é tentador, pois caminhões e ônibus “empurram” a água, abrindo um corredor seco momentâneo. Porém, o risco é proporcional: a onda gerada por eles pode retornar com força e encobrir o seu capô. Mantenha distância e espere o carro da frente concluir a manobra antes de começar a sua.

Ondas contrárias

Se você notar que um veículo grande vem na direção contrária, pare o carro (se a profundidade permitir e sem desligar o motor) ou reduza ao máximo. A “marola” que ele cria pode subir pelo seu capô e entrar na entrada de ar, mesmo que o nível da rua esteja baixo para você. É o calço hidráulico causado pelo vizinho.

Ar-condicionado: desligar ou manter?

Desligar o compressor do ar-condicionado ao atravessar alagamentos garante que toda a força do motor (especialmente em modelos com motor mais fraco, como os 1.0) seja direcionada às rodas. Desligar o ar também protege a ventoinha de quebrar ao bater na água em alta rotação. Mas não considere isso como algo essencial: se você começar a embaçar o para-brisa, ligue-o imediatamente no desembaçador. Ver para onde você está indo é a prioridade máxima.

Troca de marchas ao atravessar alagamentos

O recomendado é não trocar de marcha durante a travessia. Se você estiver em segunda marcha, reduza para a primeira antes de entrar na água. Trocar de marcha no meio do alagamento pode causar danos no disco de embreagem e no platô por causa da entrada de detritos e resíduos no conjunto.

“Morreu” no meio? Não insista!

Se o carro apagar dentro d’água ao atravessar alagamentos, jamais tente dar a partida novamente. Isso pode forçar a entrada de água nos cilindros e causar o temido calço hidráulico (empenamento de biela e destruição do motor). A tentativa de partida também pode provocar pane elétrica grave em sensores e cabos.

Carro automático?

Se o seu carro for automático, evite que o sistema troque as marchas sozinho ao atravessar alagamentos. Dependendo do modelo, use o modo manual (M) ou sequencial (trocas de marcha manuais). Em modelos sem esta opção, use a posição L (Low) ou a S (Sport), que mantêm o carro em marchas baixas e o giro do motor constante na faixa ideal.

Depois da travessia

Muita gente acha que o perigo acaba quando as rodas saem da água. Mas o carro perde eficiência de frenagem logo após o alagamento porque as pastilhas e discos estão molhados e lubrificados pela sujeira. Então, assim que sair da água, dê leves pisadas no freio enquanto dirige devagar. O atrito gera calor, que evapora a água e devolve a pressão e a segurança ao sistema.

Higiene e revisão

Água de enchente é contaminada e ácida, e entra em lugares que a gente não vê. Mesmo que o motor não tenha morrido, após atravessar alagamentos vale checar o filtro de ar depois. Se ele estiver úmido, precisa ser trocado imediatamente, pois bloqueia a passagem de ar e pode se despedaçar para dentro do motor.

Além disso, é recomendável checar o óleo do motor e da transmissão (especialmente em manuais) após um evento desses. Se o óleo estiver com aspecto ‘leitoso” ou de “maionese”, significa que entrou água pelo respiro e o lubrificante perdeu a validade.