Audi RS3 vs. BMW M2: monstro caçando monstro

Enquanto as ruas andam lotadas de gente caçando Pokémons, aqui decidimos caçar um tipo diferente de monstro: o superesportivo Audi RS3. E, para caçar um monstro desses, nada melhor do que outro monstro: o também superesportivo BMW M2. Embora sejam de espécies distintas – o Audi fica entre um hatch e uma perua, o BMW é um legítimo cupê –, eles costumam fazer as mesmas vítimas: motoristas fanáticos por esportivos, em busca de velocidade e fortes emoções ao volante e sem limitações financeiras.

Considerando apenas os números básicos de desempenho, essa disputa se resolveria rapidamente. Ambos atingem 100 km/h em incríveis 4,3 segundos, mas o BMW levaria vantagem por chegar a 270 km/h, enquanto o Audi fica nos 250 km/h – ambos limitados eletronicamente, pois livres das amarras seriam capazes de ir mais rápido (vale frisar que o M2 só é liberado para 270 km/h na revisão de dois anos ou 24.000 km; antes disso tem o mesmo limite do rival). Mas esportivos não se limitam a números absolutos. Longe disso.

Para alguns, o visual pode ser um fator decisivo. E nesse ponto eles não têm nada de monstruosos. Muito pelo contrário. O design do RS3 pode ser belo e bastante intimidador, mas o do M2 é simplesmente matador, com para-choque exclusivo com tomadas de ar enormes, uma arrasadora pintura azul e – talvez seu ponto mais marcante – bitolas alargadas que criaram caixas de roda exageradas, extremamente musculosas, sem igual. Isso sem falar no interior, que no BMW também é mais agressivo, com detalhes em fibra de carbono “crua”, bancos e volante com costura azul e indicadores de uso de potência e torque em tempo real.

Julgando pela aparência, portanto, o BMW seria nossa escolha (e a de 10 entre 10 pessoas que viram os carros juntos). Alguns também se importam com equipamentos, e aí novamente a vantagem é do M2. De itens de segurança como alerta de colisão frontal a de conforto como bancos totalmente elétricos, passando por serviços de concierge e informação de trânsito online, o BMW oferece mais que o rival. E também há quem ligue para praticidade e versatilidade.

Nesse ponto o RS3 tem a vantagem das quatro portas, facilitando a vida de quem viaja atrás e, embora tenha porta-malas menor, com o banco rebatido leva objetos maiores. Além disso, tem central multimídia mais simples de usar. Mas para quê perder tempo falando de futilidades? Em esportivos de verdade, muito mais do que visual, equipamentos ou espaço e praticidade, o que importa são sensações ao volante. Ronco, equilíbrio dinâmico, reações dos sistemas de direção, suspensões e freios, respostas ao acelerador, posição ao volante… Na essência, é disso que se tratam carros como esses, não? Na hora de acelerar, com seu 5 cilindros 2.5, o Audi RS3 é um verdadeiro monstro.

São 367 cv e 47,4 kgfm de força entregues a precoces 1.625 rpm e levados às quatro rodas por uma rapidíssima transmissão de dupla embreagem e sete velocidades. Pena que o turbo lag seja bastante sensível: você pisa e o Audi hesita por um instante antes de te grudar no banco. Em certos momentos, isso é bastante frustrante. E essa frustração não ocorre no M2, que, com seu 6 cilindros 3.0 pode usar uma turbina menor (e que ainda tem duas entradas, uma para bancada de cilindros) e ainda aposta em um interessante recurso que (no modo Sport Plus) mantém os gases circulando, justamente para eliminar o lag).

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Sua força máxima é ainda maior – embora no uso comum seja igual, atinge 50,9 kgfm com o overboost em carga total – e entregue ainda antes, a 1.400 rpm. Já a transmissão é igual à do rival, mas toda sua força é despejada apenas traseira no eixo traseiro. Na prática, ao volante o RS3 se revela um monstro um pouco menos assustador. Tem uma fúria bem mais controlada, exagerada só na precisão dos comandos do volante e na aderência ao solo. Cirúrgico, anda nos trilhos e mais dificilmente pregará sustos no motorista, por mais inexperiente e imprudente que seja.

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Com o controle de chassi no modo confortável (que também reduz a rigidez da suspensões), quase dá para conviver bem com ele no dia a dia. Já o M2 é muito mais selvagem, visceral, rebelde e duro de domar. Exagera na largura dos pneus (ainda mais largos na traseira), nas bitolas alargadas, na rigidez das suspensões (não ajustáveis). Tem trocas de marcha malcriadas, um ronco agudo e rasgante (desnecessariamente reforçado na cabine pelos alto-falantes) e adora pregar sustos no motorista com seu eixo traseiro inquieto. Mesmo com os controles eletrônicos ligados, dá escapadas de traseira e destraciona quando o pé direito exagera.

Exige mais prudência – ou braço – do motorista. Principalmente no modo Sport Plus, com menor interferência da eletrônica. Se essa caçada ao RS3 ocorresse em uma estrada sinuosa e o M2 fosse comandado por um motorista comum, ele provavelmente não alcançaria sua presa. Destracionando quando o rival cola ao chão, mesmo o menor retardo nas respostas não adiantaria, nem a velocidade máxima superior. Provavelmente o Audi escaparia. Mas o motorista do BMW ficaria mais feliz. E no fim das contas, pode-se até argumentar que os R$ 88.960 extras cobrados pelo M2 não teriam justificativa racional. Mas a razão está longe de ser a questão aqui. Vá de M2. E prepare o coração.

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