Avaliação: Audi RS 3 Sportback é exagero em forma de carro familiar

No mundo dos hot hatches, potência nunca é demais. Com 400 cv, o Audi RS 3 Sportback desbanca os rivais alemães e encanta – ou então assusta – quem tenta usar todo seu potencial. Precisamos de tanto?

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Esportivos “de volume” como Golf GTI (confira aqui a avaliação) e Civic Si (confira aqui a avaliação), comparados na edição passada, têm pouco mais de 200 cv e já garantem muita adrenalina ao volante. O Toyota GT86 (gêmeo do Subaru BRZ), com “apenas” 200 cv (aspirados) e tração traseira, então, foi um dos esportivos mais divertidos que já “pilotamos”. Então o que dizer da experiência ao volante nos “ignorantes” hot hatches alemães – cuja potência cresce a cada geração, atingindo impressionantes 400 cv no 2.5 turbo desse novo Audi RS 3 Sportback?

A novidade chega por R$ 329.990 para enfrentar principalmente o Mercedes-AMG A 45 (381 cv, R$ 324.900), mas também o mais barato (e fraco) BMW 140i (340 cv, R$ 269.950) Mudando de carroceria – e de preço –, outra opção é o BMW M2 (R$ 377.950).

Porém, mesmo com um 6 cilindros 3.0 mais potente (410 cv e 56,1 kgfm), não tem tração integral e perde no 0-100 km/h (4s2 vs. 4s1). Além disso, por ser cupê, perde em praticidade (nesse caso, a Audi tem o TT RS: com o mesmo 2.5, faz 0-100 km/h em 3s7 e custa R$ 424.990). Tem só dois lugares, mas é mais “na mão” que o malcriado BMW – o que leva à questão: potência pode ser demais?

Sim, um motor exagerado pode sacrificar sua diversão. Quando a potência é muita e você não sabe controlar, a eletrônica interfere demais (mesmo nos modos permissivos) e corta o barato – e se a desligar pode acabar fora da estrada. Aqui, são 400 cv e 48,9 kgfm em uma carroceria pequena e leve, porém há muito mais recursos para mantê-lo “no chão” que no imprevisível M2.

Vão da tração Quattro – dianteira com acoplamento do eixo traseiro por embreagem multidisco – aos pneus mais largos na dianteira do que na traseira, passado pelo diferencial eletrônico, pela direção progressiva e pelas suspensões mais esportivas e rebaixadas (que, mesmo sem ajuste de rigidez, não sacrificam tanto assim o conforto).

Não entendam mal, o clássico hot hatch da Audi – que, por ser espichado, é apto ao uso familiar e chamado de “peruinha” – é absurdamente divertido de guiar, principalmente para quem pode levá-lo a uma pista adequada e tem competência e disposição para “domar” 400 cv. Esse exagero de potência do único 5 cilindros do mundo vem de uma turbina grande, que tem um lag considerável – algo de certa forma frustrante. Outra vez, pra extrair o máximo é preciso saber “tocar”, adiantando acelerações, segurando marchas (há aletas no volante e uma bela e bem posicionada alavanca metálica), fazendo punta-tacco… A “diversão máxima” ele é capaz de proporcionar a poucos. Muito poucos.

Mas tudo bem, ainda que os motoristas menos habilidosos e/ou experientes e/ou ousados e/ou imprudentes sub-utilizem o brilhante motor, não serão menos felizes nesse RS 3. Seu ronco inconfundível é grave e invocado, reforçado (mecanicamente) nos modos Dynamic ou Individual – com a família, colocava tudo no Comfort e só o escape no Dynamic: é música para os ouvidos (o caríssimo som da dinamarquesa Bang&Olufsen acabei mal usando). Assim, o esportivo fez marcas de consumo excelentes, considerando sua potência: 7 km/l na cidade e 11 na estrada.

Quando você afunda o pé direito, ele dá uma “engasgada” e arranca com um estouro triplo, as trocas de marcha da caixa de dupla embreagem vem acompanhadas de “explosões” intimidadoras e retomadas acontecem com rapidez – depois do lag – que prega um sorriso no rosto. Nas curvas fechadas, usando o modo Dynamic para a tração ficar mais traseira, a traseira faz uma menção (intencional) a escapar, a aderência é impressionante e o comportamento é absolutamente neutro… mas tudo tem limite, claro, e, com tanta fúria, o melhor é não encontrá-lo.

Para ver o quanto está usando do motor, basta ativar no painel digital os indicadores de desempenho – que mostram a porcentagem de potência e torque usados, a força G e pressão do turbo, entre outros. Mas cuidado com as multas, pois ganha-se velocidade sem perceber e o velocímetro não distingue bem 100/120 km/h – melhor usar o modo com conta-giros central e velocímetro digital. Na lista de equipamentos, há faróis full-LED com assistente de luz alta, teto panorâmico, sensores de luz e chuva e muito mais. Faltam só mais alguns sistemas semi-autônomos (só há o ACC, e ele é opcional).

Tanto o visual externo, com saídas de escape enormes, rodas 19 e acabamento em preto brilhante, quanto o interno casam com a “ignorância” mecânica. O acabamento em carbono chama a atenção, assim como o volante com base chata que mescla alcântara e couro e tem pegada irrepreensível. Mas o melhor são os bancos esportivos inteiriços: não têm ajuste elétrico, mas há um milimétrico de altura (partes dianteira e traseira do assento independentes), suporte lombar impecável e abas generosas, com o suporte necessário.

Então temos aqui, portanto, uma prova definitiva de que potência pode, sim, ser demais. Na maioria dos “cenários” reais, você vai explorar mais o carro e provavelmente se divertir mais ao volante em esportivos menos potentes, seja Civic Si, Golf GTI ou, ainda, um Audi S3 ou um TT básico, todos na faixa de 200 cv. Já esse RS 3, seja Sportback ou o novo Sedan (mesmo preço, porta-malas menor), é um exagero desnecessário, mesmo sendo dos mais fáceis de domar com tanta potência. Mas não deixa de ser absurdamente divertido – para quem tiver lugar, coragem e capacidade para explorar seu potencial. E o ronco desse 5 cilindros…


Ficha técnica:

Audi RS 3 Sportback

Preço básico: R$ 329.990
Carro avaliado: R$ 329.990
Motor: 5 cilindros em linha 2.5, 20V, duplo comando variável, válvulas com abertura e tempo variáveis (Valvelift), injeção direta e indireta, turbo, start-stop
Cilindrada: 2480 cm³
Combustível: gasolina
Potência: 400 cv de 5.850 a 7.000 rpm
Torque: 48,9 kgfm de 1.700 a 5.850 rpm
Câmbio: automatizado, dupla embreagem, sete marchas
Direção: elétrica
Suspensões: MacPherson (d) e four-link (t)
Freios: discos perfurados e ventilados (d/t)
Tração: integral (quattro) com controle eletrônico e embreagem multidiscos, diferencial eletrônico EDS
Dimensões: 4,435 m (c), 1,800 m (l), 1,411 m (a)
Entre-eixos: 2,631 m
Pneus: 255/30 R19 (d) e 235/35 R19 (t)
Porta-malas: 335 a 1.175 litros
Tanque: 55 litros
Peso: 1.585 kg
0-100 km/h: 4s1
Vel. máxima: 250 km/h (opção 280)
Consumo cidade: 7,6 km/l
Consumo estrada: 9,9 km/l
Emissão de CO²: 122 g/km
Nota do Inmetro: D
Classificação na categoria: E (Médio)

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