Avaliação: Ford Ranger Limited 2017 tem novas virtudes e velhos defeitos

Com a chegada da nova geração da Toyota Hilux, no fim do ano passado, a Ford se apressou em fazer na Argentina e trazer ao Brasil a mais recente atualização da sua picape Ranger. Já na linha 2017, ela começa a ser vendida em maio, mas já pudemos avaliar sua versão topo de linha Limited, a primeira revelada à imprensa. Entre 7 e 9 de abril, a marca vai apresentar as versões flex (com cabine simples deve partir de R$ 82.000, como hoje) e as movidas a diesel, com cabine dupla e agora sempre com diferencial traseiro blocante – seja com o motor 2.2 da versão básica (que, a partir de R$ 130.000, será mais completa que a Hilux equivalente), seja com o 3.2 das demais configurações. (conheça aqui as versões e preços do restante da linha)

Como no setor de agronegócio não há a crise, a Ranger topo de linha fica mais sofisticada e cara. Dos R$ 163.990 atuais, passa a R$ 179.900. Esse aumento não vem só da atualização visual da dianteira, que ganhou grade mais invocada e faróis com projetores – mas ainda sem LED ou xenônio. É justificado pela adição de tecnologias até agora inéditas no segmento, além de aprimoramentos na mecânica e no interior. Considerando os preços e equipamentos das concorrentes – principalmente a Hilux SRX (R$ 188.120) – o valor é atraente, ainda mais considerando que a Ranger Limited já vem com santantônio, capota marítima e protetor de caçamba, itens que na rival são vendidos como acessórios na concessionária (na edição de abril da revista MOTOR SHOW você confere um comparativo completo com a Hilux).

Se as mudanças externas são marcantes, porém nada radicais, no interior são ainda maiores. Seguindo a moda do segmento, a nova Ranger tem um interior mais próximo do encontrado em um sedã. No caso, a inspiração vem do Fusion, claro. O painel de instrumentos é todo novo e, como no sedã, tem telas laterais configuráveis. A da esquerda exibe informações do computador de bordo ou do conta-giros (que é pequeno demais e tem a desvantagem de desaparecer quando ser opta por outras informações). Já a da direita mostra informações do GPS, do sistema de som ou de telefonia. Interessante é que o uso delas é facilitado pelos botões no volante multifuncional – também novo e igual ao do Fusion – distribuídos da mesma forma que as funções do painel.

Ainda dentro da cabine, há acabamentos aprimorados, embora ainda não muito sofisticados, comandos do ar-condicionado digital bizone redesenhados e sistema multimídia SYNC com tela de 8” mais completo – com comandos de voz em português para quase todas as funções – e bem integrado visualmente ao painel. O banco do motorista tem comandos elétricos (oito direções) e os traseiros, como em quase todas as picapes, tem o encosto vertical demais e o assento muito baixo, cansando rapidamente os adultos que ali viajam.

A mecânica teve discretas mudanças. O motor turbodiesel de 3,2 litros recebeu melhorias para redução de consumo. Com 200 cv e 47,9 kgfm, é um dos mais potentes da categoria e garante um desempenho acima da média, trabalhando bem em conjunto com a boa caixa automática sequencial de seis marchas. Outra novidade está na direção, agora elétrica. Ficou levíssima nas manobras, o que é bom, principalmente considerando o porte da picape. Já o pacote para o uso off-road continua bom, com assistências em subida e descida, bloqueio do diferencial traseiro e seletor de tração por botão (mudanças a até 120 km/h).

Completam a boa lista das novas virtudes da Ranger o pacote de tecnologia inédito no segmento. O alerta de mudança de faixa lê as faixas da estrada (mesmo as fracas) e, em caso de distração do motorista treme o volante e até interfere na direção para colocar o carro de volta na pista. O monitor de pressão dos pneus avisa em caso de perda de carga, a caçamba ganhou iluminação e o farol alto agora é automático: você seleciona a luz alta e em caso de aparecerem carros (no mesmo sentido ou no contrário) a Ranger passa à luz baixa automaticamente. Há ainda o útil piloto automático adaptativo, que freia e reacelera sozinho, conforme o fluxo do trânsito, além de ser combinado com o alerta de colisão, que além de emitir um aviso luminoso, pré-ativa os freios em caso de colisão iminente.

Outras boas novas estão no pós-venda. As revisões obrigatórias agora ocorrem a cada 10.000 quilômetros ou um ano – e não mais seis meses. Tudo bem que as picapes costumam rodar bastante, e isso talvez faça mais diferença nos carros de passeio (que também terão essa novidade em suas linhas 2017), mas de qualquer forma é uma boa medida. A garantia também aumentou, passando de três anos para cinco – algo inédito na categoria.

A todas essa novas virtudes, unem-se alguns velhos defeitos. O motor, embora com vibração reduzida em marcha lenta, ainda é bem ruidoso em retomadas e até mesmo em velocidade de cruzeiro, e seu consumo continua um pouco acima da média (marcamos 8 km/l na cidade, sem trânsito, e não mais que 10,5 km/l na estrada, números próximos dos oficiais). E se a valentia no off-road e grande, falta sutileza na entrega de força em um uso mais “familiar”: mesmo dosando bem o acelerador, às vezes a Ranger responde meio malcriada, despejando mais potência que o desejado. As suspensões também continuam duras demais, tornando a condução em ruas esburacadas ou pisos irregulares um tanto desconfortáveis para os passageiros.

Pode-se argumentar, porém, que algumas dessas características que classifiquei aqui como demasiadamente brutas são até desejadas pelo seu consumidor. Afinal, a Ranger nunca foi uma picape “soft” – e parte de seu sucesso vem justamente delas (a tal “Raça Forte”). Dependendo de onde você circula e para que usa a picape, podem até nem incomodar. Para quem busca uma picape média que não decepciona no trabalho pesado entregando mais conforto nas demais situações, porém, há opções mais interessantes – porém mais caras e/ou menos equipadas.

FICHA TÉCNICA
FORD RANGER 2017
Preço básico (diesel): R$ 130.000 (estimado)
Carro avaliado (Limited): R$ 179.900

Ford Ranger Limited
Motor: 5 cilindros em linha 3.2, 20V, turbo commonrail
Cilindrada: 3198 cm3
Combustível: diesel
Potência: 200 cv a 3.000 rpm
Torque: 47,9 kgfm de 1.750 a 2.500 rpm
Câmbio: automático sequencial, seis marchas
Direção: elétrica
Suspensão: duplo triângulo (d) e eixo rígido com feixe de molas (t)
Freios: disco ventilado (d) e tambor (t)
Tração: 4×2 ou 4×4, com reduzida e bloqueio eletrônico do diferencial
Dimensões: 5,354 m (c), 1,860 m (l), 1,848 m (a)
Entre-eixos: 3,220 m
Pneus: 265/60 R18
Caçamba: 1.009 kg / 1.180 litros
Tanque: 80 litros
Peso: 2.261 kg
0-100 km/h: 10s6
Velocidade máxima: 180 km/h (limitada)
Consumo cidade: 8,5 km/l
Consumo estrada: 10,1 km/l
Emissão de CO2: 219 g/km
Nota do Inmetro: E
Classificação na categoria: C (Picape)

*dados de consumo incluídos com a divulgação do PBEV 2016 em 29/04/16