02/03/2026 - 8:00
Os preços da GWM Poer P30 são muito bons, e isso ninguém nega. Sem falar na pechincha da versão Trail por R$ 220 mil, vamos focar nessa Exclusive de R$ 240 mil: pelo valor de uma Ford Maverick a gasolina ou Fiat Toro topo de linha, ela é maior, tem caçamba mais generosa, acabamentos mais refinados, uma lista mais completa de itens de série, consegue uma capacidade de reboque superior, e ainda aposta na robustez do feixe de molas traseiro, como manda uma picape média desse naipe.
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Na balança, temos uma picape chinesa (que já é montada no Brasil) com boas dimensões, design que agrada no segmento, acabamento refinado, uma concepção mecânica sem segredos, várias tecnologias a bordo e um bom pacote de série, tudo isso pelo preço de modelos menores e mais simples. Fórmula das boas para um produto da GWM, lembrando que a marca é uma das chinesas mais tradicionais por aqui, com bom estoque de peças, fábrica nacional (e outra nos planos), e vendas em alta. Não é daquelas que chegaram ontem, e podem sumir amanhã.

Passei sete dias e rodei 600 km com a Poer P30 Exclusive sempre com uma dúvida na cabeça: por que ela não vende bem a ponto de incomodar as tradicionais do segmento? Falo de Ranger, Hilux, S10, Triton e por aí vai. No pelotão, ela ainda fica lá para trás, em que pese os quase seis meses de lançamento no Brasil.

Dirigindo (e entendendo)
A Poer não é a picape mais moderna do mercado nacional. Seu projeto remete ao finalzinho da década passada na China, e, com a velocidade de evolução dos carros chineses, esses sete ou oito anos equivalem a bastante tempo de aprendizado. Não só pelo tamanho avantajado, ao volante ela é um tanto desengonçada, pulando mais do que devia (frente a outras picapes rivais), enquanto seu econômico motor 2.4 turbodiesel mostrou-se um pouco áspero na operação. Ela não perfeita, longe disso.
Mas, compensa isso com várias qualidades, como a já citada economia de diesel. Pelo seu porte e peso, surpreenderam médias acima de 15 km/l na estrada, enquanto no uso urbano os números rondaram os 9,5 km/l, fazendo valer das vezes que seu sistema Start & Stop funcionava como deveria. De qualquer forma, ótimos números, que levaram a uma ótima autonomia quando multiplicados pelo tamanho do tanque (78l).

Na boleia da Poer P30, o condutor vai numa posição elevada, melhorando a visibilidade externa, que já é boa graças as janelas grandes. Pecado não ter teto-solar no pacote, nem dessa Exclusive. Apesar do banco do motorista com assento plano demais, a coluna de direção permite ajustes amplos, e achar o posto de condução correto é tarefa fácil. Nessa versão, os bancos dianteiros são elétricos, com aquecimento e ventilação (no assento, apenas). Bacana.
Powertrain sem pressa
Sentado no banco confortável, com volante e outros comandos à mão, cercado pelas janelas grandes. Hora de dirigir. Logo na saída, percebe-se a relação curta das primeiras marchas da sua caixa automática (nove velocidades), justamente para dar maior agilidade na hora de ganhar velocidade, já que o 2.4 turbodiesel, apesar de econômico e ter torque prematuro, não prioriza a performance (são 184 cv de potência e 49 mkgf de torque, já aos 1.500 giros).
Picapeiro entende que caminhonete não precisa ser imbatível no 0 a 100 km/h ou atingir a melhor velocidade máxima: tendo força bruta o suficiente para carregar mais de 1 tonelada de carga, ou rebocar mais de 3.000 kg, ou então para encarar um lamaçal tracionando as quatro rodas, já está ótimo, cumprindo seu papel. Justamente esse é o lema da Poer P30: não espere o melhor desempenho nas acelerações (ela se vira, mas sem surpresas), mas pode contar com o alto torque, que ele está lá.
Mesmo sem seletor de modos de condução, a transmissão de nove marchas vai dançando conforme a música de quem dirige: com pé leve no acelerador, adianta as trocas e evita reduções, aproveitando a força prematura do 2.4. Vez ou outra, porém, os dois acabam desconversando, e podem ocorrer reduções sem necessidade (subindo o giro, e aumentando o barulho a bordo), ou mesmo o ato de segurar uma marcha alta em subidas, mesmo que fique clara a necessidade de redução. Sem problemas maiores, já que há modo manual por paddle-shifts atrás do volante.
Um toquinho na aleta, e logo o 2.4 volta pra faixa dos 2 mil giros que costuma operar em condição normal. Nessa faixa ela consegue as melhores médias de consumo, enquanto trepidação e ruído do motor turbodiesel não chegam a incomodar muito os ocupantes. No geral, é um conjunto que agrada, apesar das pequenas mancadas.

Lembra das ótimas médias de consumo na estrada? Pois é. Até a quinta marcha, o câmbio é escalonado para relações mais curtas, dando desenvoltura para a Poer P30 no uso urbano. Dali em diante, as marchas finais (sexta, sétima, oitava e nona) se tornam longas, especialmente as últimas: a 120 km/h, o conta-giros aponta para cerca de 2.200 rpm em 9ª. Ótimo.
Acertos gerais

Voltamos para outros parâmetros de condução da Poer P30. Como já dito, é um tanto desengonçada e desajeitada, características comuns para caminhonetes do porte dela. Porém, em contrapartida, surpreende sua estabilidade direcional mesmo nas altas velocidades: transmite segurança, mostra comportamento preciso da direção, freios responsivos e, mesmo próxima da velocidade máxima, anda em linha reta. Em curvas, também agradou positivamente, considerando as limitações típicas de picapes. Mas, nada tira o fato que, com a caçamba vazia, o pula-pula é constante.
Para o uso urbano, há um bom raio de giro (nada além), e câmeras e sensores, apesar de um tanto confusos, ajudam em balizas ou manobras apertadas. Falando em confuso, esse é um adjetivo que, em partes, cabe para sua central multimídia: grande e bonita, ela peca pelos vários submenus encavalados e, às vezes, até redundantes. O aparelho não trava, nem é tão lento, porém merecia layout e operação mais práticos.
Interior caprichado e espaçoso
A telona central combina com o painel de instrumentos digital, valorizando a cabine da Poer P30. Não que isso seja necessário: há um ótimo nível de acabamento e bons materiais que revestem bancos, console, apliques do painel e laterais das portas. É comum, nos carros chineses, esse esmero, que melhora bastante o bem-estar a bordo. Faz até esquecer, por exemplo, o fraco sistema de som que a GWM instalou nessa sua picape.

Como é grandalhona perante outras rivais, como a Toyota Hilux, a P30 acaba tendo sobras boas no espaço interno: cinco se acomodam com relativo conforto a bordo dela, contando com luzes de leitura, apoio de braço, saídas de ar e portas USB, todos luxos dedicados à segunda fileira. Lá atrás, na caçamba, há revestimento do compartimento, quatro pontos de amarração de carga e tampa com dois amortecedores. Capota marítima e santantônio são acessórios.
Por que a Poer P30 não é líder de vendas?
Conservadorismo do mercado é a resposta. Ok, vá-lá: liderança é pedir muito. Mas, ao menos, entrar no top 5 já seria um mérito digno para essa picape. O problema é que o processo de convencer um picapeiro, que já tem ou teve Ranger, Hilux, S10, L200, Frontier e afins, a encarar um produto recente de uma marca chinesa, é longo e demorado. Pura desconfiança, desconhecimento, e até certo preconceito. A GWM tem lá suas armas, caso da garantia de 10 anos ou 250 mil km para boa parte dos componentes, que praticamente nenhuma rival oferece. Mas, como produto, ela merece mais atenção…










































