Avaliação: Lamborghini Huracán Performante bate recorde na pista da Quattroruote

Depois de três anos de domínio incontestável, o Porsche 918 Spyder perde o título da volta mais rápida. Por apenas um décimo, ficou atrás dessa incrível Lamborghini Huracán Performante

Mais um mês e seriam três anos. Três anos de reinado na pista da nossa parceira italiana Quattroruote, Vairano. Não faltaram candidatos, mas desde 2014 o Porsche 918 Spyder estava no topo do ranking. Porém, seus 887 cv e R$ 3.300.000 (na Europa) o tiravam do clube dos superesportivos e o elevavam ao exclusivo mundo dos hiperesportivos, junto com LaFerrari e McLaren P1. E mesmo esportivos de grande valor, como a Ferrari 488 GTB, ou feitos para as pistas, como o McLaren 675 Long Tail, devem aceitar com fair play a derrota para esses modelos.

Superaram qualquer outro rival, mas permaneceram distantes do Porsche. Uma questão de um segundo ou pouco mais, mas nesse nível de carro, mesmo um décimo significa muito. Por isso mesmo a Performante, versão mais extrema do Lamborghini Huracán, chegou com cautela, apesar das belas credenciais – entre elas, percorrer Nürburgring em menos de 7 minutos. É bom enfatizar isso, pois mostra que ele é forte. Muito forte. Para ser preciso, o Lambo fechou sua volta no “Inferno Verde” em 6min52s01 – ótimos 5 segundos menos que o 918, e mais rápido que qualquer carro autorizado a circular nas ruas.

De qualquer modo, cada pista tem suas peculiaridades e o acerto ideal do carro para garantir o melhor tempo. O que é bom em Nürburgring pode não quer ser o ideal em Vairano. E aqui o Performante promete. Versões extremas costumam perder parte da afabilidade, mas não este Lambo. O Huracán instila confiança no piloto, e após duas voltas você já aproveita 80 a 90% de seu potencial. Não significa que é um carro fácil: com tanto desempenho, as reações devem ser imediatas.

Além disso, versões assim tão esportivas não costumam ser muito “comunicativas”. Para encontrar o limite, o piloto deve usar toda sua perícia e experiência. É como correr ao longo de um precipício cuja borda nem sempre está visível. Mas o Huracán Performante não é tão misterioso. Nota-se isso na parte rápida de Vairano, onde acerto e aerodinâmica entregam grande satisfação: você sai da curva Norte com discreto sobresterço que ajuda na trajetória. O V10 sobe de giro com voracidade sem igual e você de repente está na sequência de três curvas.

A primeira, em carros menos potentes, pode-se fazer sem aliviar o pé direito. Não é o caso. Com o Lambo, precisamos entrar já estabilizados e sentir o carro. Os largos eixos parecem ter nascido um para o outro, como se confirma nas próximas curvas: raio e velocidade diminuem e o empenho do chassi e do piloto “cresce”. Especialmente no trecho final, o “rali misto”, onde freios e transmissões devem mostrar do que são capazes. O pedal não tem a comunicabilidade de uma 675LT, mas não significa que os freios sejam exagerados e cansativos. O mesmo vale para o câmbio, com trocas precisas e pontuais como a pista exige.

Até então, o Lambo já tirou dois décimos do 918 Spyder. E chega a tal parte mais difícil da pista. O rali misto é reino do equilíbrio e da tração integral, com mudanças de direção súbitas e violentas. O seletor de modo de condução está em Corsa (corrida), o que em termos de tração faz o Huracán andar mais do que no Sport: o sobresterço garante a previsibilidade necessária para o considerarmos um aliado, permitindo voltar a acelerar mais cedo. Não muito, porém, pois transferir a carga para as rodas traseiras aliviará a dianteira, arriscando alargar muito a trajetória. Mesmo assim, nunca passei tão rápido por esse trecho.

Saindo da parte sinuosa, o Lamborghini já meteu outro décimo no Porsche –
ser 150 quilos mais leve ajudou muito – e o motor passa a ser o protagonista. Com o escape redesenhado, o maravilhoso V10 central traseiro garante uma trilha arrebatadora. Mais impressionante, porém, é a rapidez com que sobe de giro. Se bobear, passa do limite e ela corta os giros – aliás, falta uma shift-light para ajudar a evitar que isso aconteça.

O Performante é um carro refinado, que se distancia da tradicional brutalidade da marca. Seu V10, no entanto, interpreta o grande espírito de Ferruccio Lamborghini, que queria que todos seus carros soassem como os animais – touros – de quem emprestam os nomes. A ferocidade com que o motor sobe de giro garante uma força que aparenta ser inesgotável – mas é preciso lembrar que o rival alemão tem uns 250 cv a mais. E eles serviram bem para recuperar dois daqueles décimos que o Performante abrira de vantagem. Mas a aritmética é simples e implacável. E assim, por apenas um décimo, Vairano tem um novo rei.


RAIO-X da volta

Após a largada (bandeira), o desvio da chicane é superado sem a carroceria rolar. Depois, é preciso frear dentro da curva (abaixo) e voltar a acelerar na saída (A), onde suspensões e freios mostram seu valor. Então o Lambo atinge a máxima da pista e engole três curvas longas até chegar ao início do “rali misto” (B). No “rali misto” (do ponto B ao C), o trecho mais difícil da pista, a traseira escapa discretamente nas curvas, de forma a ajudar a direcionar o carro. Na última curva antes da chegada, um discreto contra-esterço corrige a trajetória, mas é preciso perícia para não “perder” o carro.


Aerodinamica: gestão ativa

Gerenciar o relacionamento dos carros com o ar é crucial. Mas na Lamborghini, com o Huracán Performante, inventaram um sistema diferente e peculiar. Eles chamam de ALA, sigla para Aerodinâmica Lamborghini Ativa, e consiste em três elementos: um grande divisor (splitter) no centro da dianteira, um extrator de tamanho maior do que o usado no Huracán “normal” e um enorme aerofólio traseiro. Até aí, nada de novo. A novidade é que este último é dotado de um sistema de gerenciamento ativo do fluxo de ar.

Quando se trata de aderência, o aerofólio funciona do modo tradicional. A força que “gruda” o carro ao chão e melhora a dirigibilidade reduz a capacidade para “furar” o ar, afetando o desempenho. E é nesse momento que entra em cena a ALA. Atuadores elétricos acionam aberturas de ventilação na base da “asa”, permitindo que o fluxo de ar seja canalizado para os montantes e para o próprio aerofólio. O ar, então, sai por trás da asa por uma grade. Na prática, rompe o fluxo aerodinâmico para o qual ela foi desenhada: ela fica parada, perde sua função básica de colar o carro ao solo (pois a eletrônica decidiu que naquele momento não é a maior prioridade) e a resistência aerodinâmica diminui.

E isso não é tudo: o Performante tem também o que a Lambo batizou de Aerovectoring: em curvas de alta velocidade, a asa é acionada só do lado de fora do carro. Assim, apenas as rodas internas são “esmagadas” contra o chão, contrabalanceando a força centrífuga e aumentando a aderência.


Ficha técnica:

Lamborghini Huracán Performante

Preço na Europa: R$ 890.000 (€ 237.948)
Preço no Brasil (estimado): R$ 3.600.000
Motor: 10 cilindros em V 5.2, 40V, duplo comando continuamente variável, injeção direta e indireta
Cilindrada: 5204 cm3
Combustível: gasolina
Potência: 640 cv a 8.000 rpm
Torque: 61,2 kgfm a 6.500 rpm
Câmbio: automatizado, dupla embreagem, sete marchas
Direção: elétrica
Suspensões: duplo quadrilátero (d/t), amortecedores com controle eletrônico
Freios: disco ventilado de cerâmica (d/t)
Tração: integral, diferencial traseiro autoblocante
Dimensões: 4,51 m (c), 1,92 m (l), 1,17 m (a)
Entre-eixos: 2,62 m
Pneus: 245/30 ZR20 (d) e 305/30 ZR20 (t))
Porta-malas: 100 litros
Tanque: 83 litros
Peso: 1.457 kg
0-100 km/h: 2s8*
Velocidade máxima: 327 km/h*
Consumo cidade: 5,4 km/l**
Consumo estrada: 7,1 km/l**
Emissão de CO2: 234 g/km **
Nota do Inmetro: E
Classificação na categoria: E (Esportivo)

*Teste Quattroruote
**Huracán “normal” 5.0

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