Avaliação: O charme discreto do novo Honda Accord

A Honda pretende vender só 130 unidades do Accord em 2019. O sedã é talhado para quem deseja unir luxo e segurança mas dispensa ostentação

Título de um filme de 1972 dirigido pelo espanhol Luis Buñuel, “O discreto charme da burguesia” tornou-se um clássico cultuado por cinéfilos ainda hoje, embora já soe um tanto fora de moda. Adaptado aos tempos atuais, serviria de slogan para o novo Honda Accord: um carro charmoso, desenhado para o consumidor que valoriza o conforto e a segurança, pode pagar R$ 200 mil para ostentar o status de um alemão premium, mas prefere a discrição. A esse perfil de executivo, que décadas atrás seria quase pejorativamente chamado de burguês, o modelo que a marca trata por “flagship” (emblemático, em português) se ajusta como uma luva de pelica.

Em classe e elegância, a décima geração do Accord supera de longe as anteriores (a primeira chegou ao Brasil ainda em 1992). Mas é na combinação de conforto e segurança que ele diz a que veio. O motor 2.0 Turbo VTEC, com injeção direta, entrega 256 cv a 6.500 rpm e 37,7 kgfm de torque entre 1.500 e 4.000 rpm – o maior já oferecido pelo Accord e acima do antigo V6, que tinha 34,6 kgfm em rotação mais alta. Bem dimensionado ao peso do carro, esse motor tira ótimo proveito da transmissão automática de dez velocidades, que pode realizar reduções diretas em saltos de até quatro marchas: 10ª para 6ª, 7ª para 3ª e assim por diante. Na cidade, a combinação se traduz na esportividade que sempre faltava ao Accord.

Com um aproveitamento bem dosado das qualidades aerodinâmicas e estéticas do Civic, do qual empresta a plataforma, esse irmão maior e bem mais refinado não decepciona quem se acomoda para dirigi-lo. A qualidade tátil dos materiais revela a preocupação dos projetistas com o conforto. No verão tropical, bancos dianteiros ventilados não são apenas frescura. A central multimídia, item que sempre deixou a desejar nos modelos Honda, agora tem oito polegadas e ficou mais intuitiva e elegante. O console recarrega celulares por indução e o head-up display projeta no para-brisa dados de velocidade, giros do motor e navegação.

Há ainda os alertas disparados pelo pacote de segurança que o modelo inaugura no Brasil, chamado Honda Sensing. Ele usa uma câmera e um radar que coletam dados de tráfego para auxiliar as ações do motorista. Inclui piloto automático adaptativo, frenagem automática de emergência e assistente de manutenção na faixa. Na estrada, a sensação é de que tudo estará sempre sob total controle. E é mais ou menos essa a impressão final que o Accord passa. Com ele, charmoso e discreto, não há muito com o que se preocupar.


Contraponto

Por Evandro Enoshita

Como já disse aqui em outras ocasiões, não tenho nenhuma necessidade de um carro com quase cinco metros de comprimento, já que a minha vaga no prédio comporta, no máximo, um sedã médio. Mas, mesmo deixando essa questão puramente prática de lado, não acho que o Accord seja o carro certo para mim. Apesar de ter adotado um potente motor 2.0 turbo e a plataforma do Civic — que contribuíram para deixar o novo sedã bem mais esportivo que seu antecessor — o modelo da Honda ainda traz mais atributos para agradar aos fãs dos grandes e espaçosos sedãs de luxo (como é o caso do Celso) do que àqueles
que curtem uma direção mais esportiva. Com os quase R$ 200 mil pedidos pelo Accord, eu optaria por um hatch mais empolgante – como o BMW 125iM Sport, que acelera de 0-100 km/h em 6,1 segundos. Ou, para ficar na mesma marca, economizaria uns bons trocados (cerca de R$ 40 mil) e levaria para casa um Civic Si. Apesar do motor 1.5 turbo de só 208 cv e de ser bem menos espaçoso que o Accord, garante uma dose bem maior de satisfação ao volante.

COMPRE SE…
Sua aspiração é ter um carro grande que não decepcione em conforto e muito menos em desempenho.
Você pode pagar quase R$ 200 mil por um sedã que oferece itens de ponta em se tratando de sistemas de segurança ativa.

NÃO COMPRE SE…
Mais que um carro de luxo, o que você busca é realizar o sonho de ter um sedã de luxo europeu de uma marca premium tradicional.
A garagem do seu prédio não comporta um carro com medidas externas bastante avantajadas: 4,889 m x 1,862 m.

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Ficha técnica:

Honda Accord Touring

Preço básico: R$ 198.500
Carro avaliado: R$ 198.500
Motor: 4 cilindros em linha 2.0, 16V, duplo comando continuamente variável, turbo, injeção direta
Cilindrada: 1998 cm³
Combustível: gasolina
Potência: 256 cv a 6.500 rpm
Torque: 37,7 kgfm de 1.500 a 4.000 rpm
Câmbio: automático sequencial, dez marchas
Direção: elétrica
Suspensões: MacPherson (d) e multilink (t)
Freios: disco ventilado (d) e disco sólido (t)
Tração: dianteira
Dimensões: 4,889 m (c), 1,862 m (l), 1,460 m (a)
Entre-eixos: 2,830 m
Pneus: 235/45 R18
Porta-malas: 574 litros
Tanque: 56 litros
Peso: 1.547 kg
0-100 km/h: não divulgado
Velocidade máxima: 220 km/h (estimada)
Consumo cidade: 9 km/l
Consumo estrada: 12,3 km/l
Emissão de CO²: 133 g/km
Nota do Inmetro: C
Classificação na categoria: B (Extra-Grande)