Uma nova Dodge Dakota era tudo o que faltava na linha da Ram (há anos uma marca independente dentro da organização do grupo Stellantis). Posicionada entre a compacta Rampage, que é uma Fiat Toro melhorada, e a 1500, que já é uma legítima Ram grandalhona, sentíamos a ausência de uma picape média, do porte de Hilux, S10, Ranger e Cia.

Agora, com a chegada da Ram Dakota, essa lacuna na linha finalmente foi preenchida. A nova picape tem quatro versões, com preços entre R$ 285.990 (R$ 250 mil em venda direta) e R$ 329.990, e veio com a missão de reviver e honrar no Brasil o legado da Dodge Dakota do século passado. Será que honra?

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O legado da Dodge Dakota

Entre 1998 e 2001, tivemos neste nicho de mercado a Dodge Dakota. Tinha plataforma americana, 5,46 metros de comprimento, 3,32 metros de entre-eixos e opções com motores 2.5 de 121 cv e V6 de 177, ambas a gasolina, com cabine simples ou estendida e câmbio sempre manual; depois, ganhou versões 2.5 a diesel de 115 cv e uma configuração V8 automática de 232 cv, mas nunca foi 4×4.

Propaganda Dodge Dakota - Foto: divulgação
Propaganda Dodge Dakota – Foto: divulgação

Já a nova Ram Dakota, que chegou no ano passado, tem 5,35 metros de comprimento, 3,18 metros de entre-eixos e tração sempre 4×4. Seu motor é italiano, a produção é argentina e ela foi calibrada por franceses e brasileiros. Porém, o mais chocante para os fãs mais “raiz” da marca é o fato de que a nova Dakota tem plataforma chinesa.

A China venceu?

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: Flávio Silveira)

Sim, agora, a receita é bem inusitada. Uma das marcas-símbolo americanas tem DNA chinês da Changan? Sim, como mostrei em minha análise há alguns meses, na disputa pelo mercado global, a China está vencendo (leia aqui).

(Ainda dentro do segmento, teremos a nova Amarok “brasileira”, uma “alemã” com base chinesa, bem diferente da Amarok com arquitetura de Ford Ranger hoje feita na África do Sul e vendida na Europa.)

Ram Dakota Laramie 2026 lateral
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: Flávio Silveira)

A Dakota ter base chinesa não é necessariamente um problema, pois os chineses estão fazendo carros excelentes, muito melhores que os de pouquíssimo tempo atrás — embora não fosse o caso da picape que deu origem à Dakota, como pudemos ver na primeira Titano, que era bem ruim e exigiu um trabalho profundo de engenharia.

Ram Dakota Laramie 2026 farol
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

Então eles melhoraram, aprimoraram, reestilizaram e reempacotaram a Fiat Titano — e ela ficou tão boa que acharam que merecia até virar uma Ram Dakota, a exemplo do que já havia sido feito com Fiat Toro-Ram Rampage.

Uma Fiat Titano de (quase) luxo

A primeira coisa que me agradou nesta experiência de uma semana com a Dakota foi a profusão de botões: para todas as principais configurações do ar-condicionado, tração, auxílio de descida, controle de estabilidade, retrovisor, altura do farol, modo de direção, auxílio de manutenção em faixa…

Ram Dakota Laramie 2026 painel
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

Tudo fica muito mais fácil, principalmente quando estamos chacoalhando em uma estrada de terra — mas vale aqui deixar uma leve crítica ao design dos botões de assistente de faixa e de bloqueio do diferencial, que embora bonitos, ficam expostos e sujeitos a esbarrões.

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: Flávio Silveira)

Outro problema, mas nada grave, é que o passageiro tem certa dificuldade quando quer interferir no volume: precisa sair do Android Auto, clicar no canto direito da tela, e só aí ajustá-lo. Ou pedir para o motorista.

A Ram ainda merece um puxão de orelha pelo quadro de instrumentos que destoa do pacote, com design simples demais e bastante limitado nas opções de visualização, embora traga todas as informações necessárias e seja fácil de operar.

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

Do lado positivo, a Ram Dakota avaliada, a Laramie de R$ 322.990, ainda traz em sua lista de equipamentos itens como acendimento automático dos faróis, diversos ADAS, retrovisores externos com desembaçador, faróis full-LED com duplo projetor, freio de mão eletrônico, ACC, porta-luvas refrigerado, seis airbags, rodas aro 18, carregador por indução com ventilação, sistema de navegação nativo e muito mais.

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

Para quem viaja no banco traseiro, a situação também é ruim como em quase todas as picapes, com o encosto muito vertical e um espaço para as pernas que não é nenhuma maravilha. Por fim, a tampa da caçamba não despenca ao ser aberta e tem travamento elétrico central, um item importante para a segurança da carga e que nem sempre está presente.

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

O fator Ram — aos olhos e ao volante

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: Flávio Silveira)

Tudo muito bonito e confortável por dentro, mas, acima de tudo, o que essa Ram Dakota entrega, por meio do design, é um visual que chama muita atenção, com carroceria grande e encorpada e capô alto, garantindo um status que só as picapes da Ram têm. Na rua, ouvi muitos elogios à caminhonete — a bela cor “Vermelho Sunrise” ajudou.

Esse é o “fator Ram” visual, construído pela marca com suas picapes grandes e poderosas, que sempre se destacaram em meio à concorrência. Uma imagem que já está “pregada” à marca de modo quase definitivo.

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

Entretanto, o fator Ram não aparece tanto ao volante: enquanto a Rampage se diferenciou da Toro, entre outros motivos, e talvez principalmente, pela mecânica exclusiva e mais poderosa (2.0 turbo de 272 cv), no caso Titano-Dakota o 2.2 turbodiesel é o mesmo, assim como a transmissão automática de oito marchas.

No modo “Sport” e com a tração 4×2 (traseira), o ESP da Ram Dakota atua de forma incisiva, permitindo dirigir de modo agressivo no cascalho sem deixar a traseira desgarrar muito. Há também o modo integral sob demanda, quando a Dakota traciona as rodas dianteiras apenas se necessário, com intervenções imediatas. E, no uso off-road, caso o terreno seja mais complicado, ela ainda tem 4×4 Low (com reduzida) e bloqueio mecânico do diferencial traseiro.

Ram Dakota Laramie 2026
Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

Em termos de conforto ao rodar, as suspensões (independente duplo A na dianteira e eixo rígido com feixe de molas na traseira) pareceram sutilmente mais macias que as da Titano, para maior conforto. A distância do solo é de 22,9 cm.

Já o sistema de direção é sempre meio pesado demais, mesmo quando se ajusta para o modo mais leve. Vai agradar ao consumidor tradicional de picapes, mas cansa um pouco no uso mais urbano para quem espera um ajuste mais “chinês”. 

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Por fim, o consumo da Ram Dakota: o PBEV-Inmetro aponta para 9,7 km/l na cidade e 10,8 na estrada oficiais; durante o teste, consegui números similares na cidade (9,2 km/l), mas, na estrada, ela se saiu até melhor: foram 13 km/l andando a uma média de 110-120 km/h e 11 km/l a 130-140 km/h, enquanto em cerca de 30 quilômetros em estradas de terra, subindo e descendo morros, a Ram Dakota marcou entre 9,5 e 10 km/l.

Conclusão: não se engane (ou sim, mas conscientemente)

A Ram Dakota é uma picape média com mecânica e medidas clássicas, que não tem nada de muito especial fora o acabamento e a montagem excelentes, bem melhorados em relação à irmã Fiat Titano, e uma boa lista de equipamentos.

No fim, de modo geral, ela é uma picape média dentro da média (desculpem o trocadilho), mas que vale a pena pelo que parece ser — para muita gente, ela tem tudo o que se deseja: a cara invocada, com um capô alto e uma grade dianteira avantajada com o logotipo Ram. Para muitos, isso vale mais que qualquer outra coisa, pois garante um status que talvez nenhuma outra picape média propicie.

PS: a linha 2027 da RAM 1500 estreou com a versão Big Horn de R$ 350 mil; é uma diferença pequena, mas você leva uma Ram legítima e com motor poderoso. Já a Ram Dakota também tem a Big Horn 2027, mas os demais modelos são 2026 — ou seja, pode haver em breve pequenas mudanças. Vale pedir um desconto na 2026.

Ram Dakota Laramie 2026 (foto: divulgação)

FICHA TÉCNICA

Ram Dakota 2.2 Turbodiesel

Preço básico: R$ 285.990 (Big Horn)
Carro avaliado: R$ 322.990 (Laramie)

Outras versões:
Dakota Warlock 2026: R$ 299.990,00
Dakota Laramie Night Edition 2026: R$ 329.990,00

Motor: dianteiro, longitudinal, quatro cilindros em linha, 16V, turbo, injeção direta Cilindrada: 2.184 cm³ Combustível: diesel Potência: 200 cv a 3.500 rpm Torque: 450 Nm a 1.500 rpm Câmbio: automático, oito marchas Direção: elétrica Suspensão: duplo A (d) e eixo rígido com feixe de molas semielípticas (t) Freios: discos ventilados (d/t) Tração: 4×4 automática, modos 4×2, 4×4 e reduzida Dimensões: 5,357 m (c), 1,965 m (l), 1,823 m (a) Entre-eixos: 3,180 m Pneus: 265/60 R18 Caçamba: 1.210 litros ou 1.020 kg Tanque: 80 litros Peso: 2.150 kg 0-100 km/h: 9,9 s Velocidade máxima: 180 km/h Consumo cidade: 9,7 km/l Consumo estrada: 10,8 km/l NOTA GERAL: 8,2

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