11/08/2026 - 7:30
Quando o primeiro Ford Territory foi lançado no Brasil, em 2020, não enganou ninguém: ele não passava de um SUV chinês da então desconhecida Jiangling Motors com o oval da marca americana. Um típico “rebadge”.
Aquele Territory tinha motor 1.5 turbo fraco para seu porte, câmbio CVT mal calibrado, porta-malas de hatch (348 litros), design interno questionável, dirigibilidade e dinâmica de carro chinês não amadurecido e design que não conversava com nenhum dos Ford da época. Nós o reprovamos. Depois disso, a coisa mudou de figura.
+Análise: a Nissan não errou no preço do Novo Kicks e o mercado é a prova definitiva disso
+Avaliação: Ram Dakota mostra que China venceu, mas não honra o legado da antiga picape da Dodge
+Avaliação: Geely EX5 EM-i é híbrido de 262 cv maior que Haval H6 com preço de T-Cross e Creta

Transformação de corpo e alma
De 2020 para cá, a evolução dos carros chineses foi grande, de modo geral, movida em boa parte pelas críticas, e o SUV médio da Ford se transformou quase por completo.
No fim de 2023, o Ford Territory seguiu essa evolução e ganhou uma nova calibração do motor, que ficou mais forte e potente, melhorando o desempenho, um câmbio de dupla embreagem e um interior mais moderno. Resolveu a questão mecânica e, em parte, a dinâmica, mas continuou com um design externo fora do padrão Ford.

Em julho passado, enfim a transformação de corpo e alma foi concluída. Embora a origem continue sendo chinesa, o Ford Territory enfim tem cara e coração de Ford, e passou a ser um modelo mais competitivo no segmento.
Mas, calma aí: isso para quem não faz questão de eletrificação, pois o utilitário é 100% a gasolina, enquanto a maioria dos rivais nesta faixa de preços — tabelado R$ 220 mil, mas sendo vendido a R$ 200 mil — são híbridos de sucesso como BYD Song Pro PHEV flex, GWM H6 HEV, Geely EX5 EM-i (leia avaliação) e Jaecoo 7 (leia avaliação).
Já flagrado em testes no Brasil, o novo Ford Territory híbrido plug-in resolverá o problema da eletrificação, mas seu sucesso dependerá, claro, de quando vai chegar a linha 2027, de como ele será calibrado e, principalmente, de seu preço.

Tamanho chinês
Mas sabemos bem que nem todos os consumidores estão preparados para a eletrificação ou fazem um uso que compense o investimento e os riscos extras da mecânica mais complicada e da manutenção geralmente mais cara dos PHEVs e HEVs.

Saindo da questão de mecânica e design, vamos ao porte: assim você já deve ter notado que modelos como GWM Haval H6, BYD Song Plus e Jetour S06 (leia avaliação) costumam ser um pouco mais largos do que a média.
Os chineses valorizam muito o espaço e têm ruas e avenidas sempre largas e bem planejadas, então seus carros são grandes. Assim, sem contar os retrovisores, muitos ficam na faixa de 1,90 metro de largura, ou até superam, no caso do Jetour.

O Ford Territory é ainda maior: tem 1,935 metro de largura sem retrovisores, ou 2,177 metros com eles. Isso, em cidades grandes com ruas e faixas estreitas como São Paulo, exige um pouco mais de cuidado com as motos — que insistem em passar por qualquer vão — e para entrar/estacionar em garagens como a do meu prédio.

Isso se reflete, obviamente, na amplitude interna: quem viaja no banco traseiro tem muito espaço para as pernas, além de três pessoas viajarem com muito conforto — não só pela boa largura (dá para levar duas cadeirinhas infantis e um adulto), mas também por causa do assoalho praticamente plano e do bom espaço para a cabeça.

O porta-malas não é o maior da categoria, mas acomoda suficientes 448 litros até a cobertura, chegando a mais de 1.400 litros com o rebatimento do banco traseiro (60/40). E um detalhe importante: diferentemente de muitos híbridos, ele tem estepe.
Chique e completo
Para completar a boa experiência a bordo, há um teto panorâmico enorme com abertura ampla e uma cortina elétrica grossa, que segura luz e calor, se desejado.

De modo geral, o acabamento é muito bom, com todas as superfícies emborrachadas e montagem exemplar, assim como o isolamento acústico — há muita borracha vedando as portas, e o único ruído que se ouve é das suspensões trabalhando, embora em um nível totalmente dentro do normal.

A largura também permite ter um console enorme entre os bancos dianteiros, elétricos para motorista e passageiro, com aquecimento e refrigeração. Neste console, há porta-copos e/ou objetos (a divisória é ajustável) e diversos comandos do carro.

Na lista de equipamentos, não falta quase nada. Poderia ter head-up display e outros mimos extras, mas já tem tudo que é mais “necessário” (e falta em alguns rivais), como retrovisor interno eletrocrômico, fechamento global de portas, vidros e teto solar, partida remota, luzes ambiente em LED, câmera 360 graus, farol alto automático, ar-condicionado automático dual, carregador por indução, multimídia de 12.3”, freio de estacionamento elétrico, função auto-hold, sensor de chuva, tampa do porta-malas motorizada com sensor de presença (passe o pé para abrir), comandos de voz, oito alto-falantes, controles e localização por aplicativo e muito mais.

Ainda há pacote ADAS com piloto automático adaptativo com “Stop & Go”, alertas de colisão frontal e traseiro com frenagem autônoma de emergência, monitor de ponto cego com alerta de tráfego cruzado e auxílio de permanência e centralização na faixa.
Usabilidade melhorada
Se o primeiro Ford Territory, como muitos modelos chineses atuais, sofria com a falta de botões físicos, concentrando funções demais na tela, o novo evoluiu nisso também: no console, há atalhos para funções do som, entre outros, e, mais acima, para ajustar rápido o ar-condicionado.

Há também comandos no volante claros para ACC, computador de bordo e som, além de um botão personalizável, e também comandos de verdade para abertura tanto do porta-malas quanto do teto, evitando complicações desnecessárias.

O design do painel é bastante atraente, com o quadro de instrumentos sem muitas opções de personalização, mas que forma uma bela peça integrada à tela central.

Conquista progressiva
Dirigir o Ford Territory não chega a ser uma experiência emocionante, e de fato prazer ao volante não é a prioridade deste SUV para a família. O negócio dele claramente é o conforto a bordo e uma condução tranquila. Então, embora não conquiste imediatamente, seu conjunto maduro conquista com o tempo.

Achar uma boa posição de guiar é fácil graças aos ajustes do banco do motorista e do volante bastante amplos, e os bancos com abas pronunciadas garantem conforto mesmo em viagens mais longas.
O motor 1.5 EcoBoost é turbinado e desenvolve 169 cv e 250 Nm (25,5 kgfm) de torque, mas tem um certo atraso ao “encher” a turbina. Para um carro na faixa de 1.700 quilos, não falta nem sobra. Fica “na medida”, com 0-100 km/h na faixa de 10,5 segundos. Curiosidade: ele é um motor de origem e DNA chinês, mas foi “adotado” pela Ford, aprimorado e ganhou o selo “EcoBoost” família Eco

Já o câmbio automatizado de dupla embreagem com seletor giratório tem sete marchas e também demora um pouco a responder, ajudando na percepção de certa lentidão nas respostas. Também falta uma opção sequencial. Há apenas o L (Low ou reduzida), para atuar como freio motor em descida de serra, por exemplo.
Às vezes, principalmente com o motor frio, a transmissão também dá pequenos trancos, mas de modo geral a atuação é boa, priorizando a economia ou o desempenho, conforme o modo de condução — Normal, Eco, Esportivo ou Trilha (cada um tem sua cor específica: Normal é azul, Eco é verde, Esportivo é vermelho e Trilha é laranja).

Na dirigibilidade talvez esteja a maior virtude: o Ford Territory se distanciou de sua origem chinesa e entrega um conjunto bem ocidentalizado. Claro que não é afiado como um Ford Focus, mas a proposta é outra, e a suspensão consegue ser muito confortável sem ser excessivamente macia.
Claro que não é, pela proposta, um carro para se abusar nas curvas. Ele não chega a enjoar os passageiros, mas sai de frente (subesterço) com certa facilidade em uma direção mais “esportiva”. E as rodas aro 19 dão beleza e proporção ao SUV, mas os pneus poderiam ter um pouco mais de borracha (são 235/50). A direção também não é muito direta, como esperado.

Já o consumo — o calcanhar de Aquiles diante dos rivais — ficou na faixa de 9 km/l na cidade e entre 12 e 13 km/l na estrada (120 km/h), enquanto os números oficiais do Inmetro indicam 8,8 km/l na cidade e 11,2 na estrada.
Na cidade, não chega perto do que vemos nos rivais híbridos (muitos ainda com a vantagem de terem modo 100% elétrico), mas o consumo rodoviário não é muito pior que o de alguns rivais híbridos em viagens longas, depois que a bateria se esgota (e o Ford tem a vantagem do desempenho mais previsível).

Conclusão
Se tivesse motorização híbrida pelos R$ 220 mil de tabela, ou até por R$ 250 mil, o Ford Territory daria trabalho para BYD, GWM e Omoda & Jaecoo. É um SUV meio chinês meio americano de primeira, com muito espaço e foco no conforto a bordo.
Mesmo sem isso, pelos R$ 200 mil promocionais, tem mais espaço que um Song Pro, tem suspensões e direção melhores que a maioria dos rivais conterrâneos, além de um estilo acertado e outras qualidades para conquistar quem ainda tem receio ou não faz questão de se eletrificar.
FICHA TÉCNICA
Ford Territory Titanium 1.5 EcoBoost 2026
Preço básico: R$ 219.900
Carro avaliado: R$ 219.900 (promocionalmente a R$ 200.000)
Motor: dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16V, turbo, injeção direta Cilindrada: 1.499 cm³ Combustível: gasolina Potência: 169 cv a 5.500 rpm Torque: 250 Nm de 1.500 a 3.500 rpm Câmbio: automatizado, dupla embreagem banhada a óleo (DCT), sete marchas Direção: elétrica Suspensão: McPherson (d) e multilink (t) Freios: discos ventilados (d) e discos sólidos (t) Tração: dianteira Dimensões: 4,685 m (c), 1,935 m (l), 1,706 m (a) Entre-eixos: 2,726 m Pneus: 235/50 R19 Porta-malas: 448 litros Tanque: 60 litros Peso: 1.705 kg 0-100 km/h: não divulgado Velocidade máxima: 180 km/h (limitada) Consumo (Inmetro) cidade: 8,8 km/l (g) Consumo estrada: 11,2 km/l (g)

LEIA MAIS:
+Avaliação: Nissan Kicks 2026 está melhor do que nunca, mas sofre ataque de rivais chineses
+Segredo: nova geração do Jeep Renegade formará trio com Avenger e modelo off-road inédito
+Avaliação: Toyota Yaris Cross Hybrid vai do ótimo ao péssimo, mas garante a tranquilidade do dono
+Avaliação: Ram Dakota mostra que China venceu, mas não honra o legado da antiga picape da Dodge
+Avaliação: Kia Niro HEV é híbrido melhor do que o Corolla Cross, mas tem seus poréns; vale a pena?
+Avaliação: Omoda 5 HEV é um negócio imperdível, mas também uma aposta; vale a pena?
+Guia da Eletrificação: híbrido pleno (HEV) é o híbrido ‘de verdade’ e não depende de recargas
+Bastidores: 10 truques para enganar um jornalista automotivo (ou um influenciador)










































