Ayrton Senna

Foi em uma manhã nublada, em julho de 1983, que o jovem de apenas 23 anos e já campeão da Fórmula 3, da Silva, teve seu primeiro contato com um carro de F-1. O palco do tão esperado dia foi o circuito inglês de Donington Park, e o carro, a Williams de Keke Rosberg, campeão da temporada de 1982. No volante do monoposto, em tom de brincadeira, os mecânicos haviam colado bilhetes informando que as pastilhas de freio eram novas, assim como o piloto.

Pouco antes de ligar o motor, já no cock-pit e de capacete, Senna, em entrevista ao jornalista Reginaldo Leme, que acompanhava o treino, disse: “Deus está me dando um grande presente, que é poder guiar este carro, e Ele também está me ajudando a ficar calmo e tranquilo”. Foram necessárias apenas dez voltas para que Senna chegasse ao tempo do piloto oficial da escuderia. E mais algumas para que o brasileiro batesse o recorde da pista, rodando quase um segundo mais rápido do tempo batido. A partir desse dia, a Fórmula 1 conheceu um dos maiores pilotos de todos os tempos. Por todas as categorias que passou em sua vida, Senna deixou bastante claro seu talento inigualável.

À esquerda, Senna nos tempos do kart e conversando com Frank Williams em seu primeiro teste na F-1. À direita, a comemoração da vitória no GP Brasil 1991

A maior prova de sua habilidade nas pitas é seu currículo, recheado de conquistas mesmo antes de chegar à F-1 – entre elas estão o campeonato Sulamericano de Kart, Inglês de Fórmula Ford 1.600, europeu e britânico de Fórmula 2000 e inglês de Fórmula 3. Mas nem sempre foi assim. Quando tinha cerca de 14 anos e começou a participar de campeonatos de kart, muitos o subestimaram. De acordo com o preparador de kart de Senna, Lúcio Pascual, mais conhecido como Tchê, ele não sabia controlar sua vontade de acelerar e acabava querendo andar mais rápido do que o kart. “O pessoal começou a chamá-lo de vaca brava por causa de seu afobamento pilotando. Mas, aos poucos, fomos ensinando-o a controlar a ansiedade, e aí os resultados apareceram”, conta Tchê, que acompanhou toda a carreira de Senna no Kart, incluindo a disputa do mundial, no qual o brasileiro terminou em sexto lugar.

Depois de ter pilotado a Toleman e a Lotus, Senna foi piloto da McLaren. Durante os anos que pilotou pela escuderia foi tricampeão mundial e duas vezes vice. Abaixo, divide o pódio com seu maior rival, e companheiro de equipe, Alain Prost

O regulamento do campeonato exigia que os pilotos corressem com capacetes nas cores de seus países. Por isso, Senna e mais três brasileiros encomendaram uma pintura de capacete com o artista Sid Mosca.

Assim nasceu a pintura que acompanhou Senna pelo resto de sua vida. “Logo depois de voltar ao Brasil, Senna me procurou para saber se poderia adotar a pintura. E eu aceitei, é claro”, conta o artista, que não esconde a satisfação de ter participado da carreira do campeão. “Você não imagina a emoção que dá ver alguém ganhando um título mundial com uma criação sua na cabeça”, diz o veterano.

Outro que acompanhou de perto a trajetória do piloto foi o jornalista Charles Marzanasco, que conheceu Ayrton quando ainda estava no kart e, anos mais tarde, se tornou seu assessor de imprensa. “Trabalhei com ele de 1987 até a sua morte, em 1994”, conta.

Durante esse tempo, Marzanasco passou por muitos momentos marcantes junto com Senna, incluindo sua vitoriosa passagem pela McLaren, que rendeu ao brasileiro três campeonatos mundiais (1988, 1990 e 1991) e dois vice-campeonatos (1989 e 1993).

Mas, para o assessor, o que melhor retratou sua obstinação pela vitória não foram propriamente os resultados, mas sim a sede de vitória que ele tinha. Para Marzanasco, isso ficou claro no grande prêmio de Donington Park de 1993, no qual, após assumir a liderança fazendo quatro ultrapassagens na primeira volta, Senna marcou o melhor tempo da prova, passando pelos boxes sem parar. “Depois da corrida liguei e perguntei por que ele tinha entrado se não ia parar, e como ele conseguiu que aquela fosse a volta mais rápida. Ele me contou que havia descoberto que passar por dentro dos boxes era o caminho mais curto, e que aproveitou a boa vantagem que tinha sobre o segundo colocado para testar a estratégia.

À esquerda, as Lotus que pilotou no começo de sua carreira. À direita a Mclaren, que pilotou na maioria de suas vitórias, e a Williams de 1994, ano em que sofreu o acidente

Mas disse que era para eu guardar segredo, porque pretendia repetir a façanha no ano seguinte”, relembra o assessor.

À esquerda, o cortejo de Senna e, à direita, seu caixão sendo levado por personalidades do automobilismo – entre elas, Emerson Fittipaldi, Alain Prost e Berger

Infelizmente o GP de Donington Park de 1994 não chegou para Senna, pois, na quinta volta do GP de Ímola, na curva Tamburello, ele passou reto e bateu a mais de 200 km/h, falecendo horas depois em um hospital de Bolonha, na Itália. A morte do ídolo foi uma grande perda para toda a nação brasileira. Milhares de pessoas acompanharam seu cortejo, aplaudindo e chorando a perda. O circo da Fórmula 1 também ficou de luto. Até seu maior rival, e ex-companheiro de equipe Alain Prost, se surpreendeu com a importância que o brasileiro tinha em sua vida. “Fomos rivais dentro e fora das pistas. E só agora percebo o quanto ele era importante para mim. Metade da minha vida se vai. Ele era o meu parâmetro”, disse o italiano no funeral do piloto. Outro que ficou sem chão com a tragédia foi Rubens Barrichello, que era considerado protegido de Senna.

“Conheci o Ayrton em 1987, e, desde então, ele sempre foi muito legal comigo, me dava dicas de traçado e sempre se colocava à disposição para ajudar”, conta Barrichello, que, por causa da morte pensou em parar de pilotar. “Foi a fase mais crítica da minha carreira. Tive que repensar muito o porquê de estar na F-1. Cheguei à conclusão de que amava o que fazia”, diz.

À esquerda, o cortejo de Senna e, à direita, seu caixão sendo levado por personalidades do automobilismo – entre elas, Emerson Fittipaldi, Alain Prost e Berger

A verdade é que as manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas sem Senna e o tema da vitória tocando depois de cada vitória que conquistava. No dia 1o de maio, 15 anos se passaram de sua morte – 15 anos de F-1 sem um piloto tão brilhante.

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