Benz, a embaixatriz

JUTTA BENZ

“Meu primeiro carro foi um Fusca. Não éramos tão ricos para comprar um Mercedes”

A senhora de longos cabelos grisalhos presos em um elegante coque carrega um dos sobrenomes mais importantes da indústria automobilística mundial: Benz. Exatamente como seu bisavô, Carl Benz, o homem que em 1886, há exatos 125 anos, inventou o automóvel. Com um olhar atento e vivaz, Jutta parece ser uma senhora serena, uma daquelas professoras – o que de fato ela é – que, por sua doçura e vitalidade, são capazes de fazer os alunos se apaixonar pelas matérias que ensinam. Nascida em 1942, a última descendente direta a carregar o nome da estirpe dos Benz hoje está aposentada. Fã da costa ocidental da França, concilia suas viagens de turismo com as obrigações sociais do cargo de embaixatriz da Mercedes, assumido em 2008.

No alto, Jutta durante a entrevista. Na foto do meio, atuando como embaixatriz da Mercedes-Benz no evento de lançamento do SL, junto a Dieter Zetsche, presidente mundial da Daimler. Acima, seu bisavô Carl Benz com a família

Ser parte de uma família tão importante foi o que a levou a ser professora de história?

Não. minha família queria que eu estudasse engenharia. mas cresci cercada de engenheiros e técnicos. aos 19 anos, já estava cansada de todos aqueles automóveis e decidi me dedicar a outra coisa. todos ficaram desapontados, mas foi assim que me tornei uma professora de história francesa.

Fale-nos de seu avô, Eugen Benz.

Eugen era o primogênito de Carl e Bertha Benz. Quando nasci, nos anos 40, ele e seu irmão mais novo, Richard, cuidavam de uma pequena empresa de família. O meu bisavô Carl vendeu sua fábrica de Mannheim em 1903 e, cinco anos depois, fundou, em Ladenburg, a Benz Söhne – que significa Benz e Filhos. Sua ideia era tornar a fábrica tão grande quanto a primeira, mas a Primeira Guerra Mundial o impediu. Eugen e Richard comandaram a empresa até o fim dos anos 1950.

Seu pai era Carl, com C, como seu bisavô?

Há uma confusão. Meu bisavô, quando nasceu, foi registrado com K. Mas ele não gostava e escrevia seu nome com C. Por isso, meu pai ficou Carl, com C.

Como se sente com um nome tão importante?

No dia a dia não penso nisso, mas quando há um evento ou uma entrevista me sinto orgulhosa de minha família e, principalmente, de minha bisavó Bertha. Era dona de casa, mãe de cinco filhos e suportou a difícil atividade do marido. Ela deu início à história do automóvel quando guiou, pela primeira vez, de Mannheim a Pforzheim, e retornou em segurança (Bertha fez a viagem para provar a viabilidade da máquina inventada pelo marido). Ainda hoje, quando faço esse trajeto, penso naquela mulher e em seus dois filhos, sozinhos naquele lugar, sem estrada, sem postos de serviço. Era uma aventureira! Eu e meus parentes temos a sensação de que a história do automóvel não seria a mesma sem a viagem de 1888. O tempo era propício, na França também já estavam nascendo os primeiros automóveis, mas foi a atitude de Bertha que deu o impulso para o desenvolvimento da indústria. E, depois disso, ela nunca mais voltou a dirigir.

Por quê?

Naquela época, às mulheres não era permitido fazer certas coisas. Ela partiu para Pforzheim escondida do marido. Carl era o construtor de automóveis, o grande chefe, e Bertha havia dirigido o carro pela primeira vez. Depois de um feito tão extraordinário, ela parecia ser a chefe, e isso não era bom para a imagem da empresa. E também não excluo a possibilidade de uma discussão com o marido. É um pensamento meu, mas sempre imaginei meu bisavô como meu pai. Quando meu pai ficava indeciso, minha mãe o pressionava a fazer uma escolha, mas ele nem sempre ficava contente de fazer o que ela queria. Talvez, tenha acontecido algo parecido com meus bisavós.

Os carros sabemos que não a encantavam. Mas a sra. os usava?

Sim, claro. Eu comecei com um Volkswagen, em 1956, quando fiz 14 anos. Eu queria aprender a dirigir, mas minha mãe tinha um carro muito velho. Ela praticamente obrigou meu pai a me ensinar. Onde morávamos, havia muito espaço ao redor, então ele me explicou como fazer. Mas só até a segunda marcha. Um dia pedi que me levasse para fora… e assim dei minha primeira volta com um carro. Aos 16 anos sabia dirigir, mas, obviamente, não tinha um carro só meu. Meu primeiro automóvel foi um Fusca, anos mais tarde, na época da faculdade.

Não foi um Mercedes?

Não! Não éramos tão ricos para poder comprar um Mercedes. O meu bisavô, como disse, já havia deixado a primeira empresa que havia fundado em Mannheim e abriu outra com os filhos. Depois da Primeira Guerra, a família Benz perdeu muito dinheiro. Por sorte, tínhamos terra e pudemos recomeçar. Em 1926, depois que a Benz de Mannheim e a Daimler de Stuttgart se uniram, dando origem à Daimler-Benz, meu bisavô entrou para o conselho de administração. Voltou a ganhar um pouco de dinheiro. Não como antes, mas o bastante para melhorar o padrão de vida da família. Depois da Segunda Guerra Mundial, não sobrou nada. Meu avô teve que entregar os carros ao Exército. Assim, tivemos que recomeçar do zero. Meu avô, que era filho de Benz, obteve da Daimler-Benz uma licença para a fabricação de peças de reposição. Mas não ficamos ricos com isso. Depois da guerra, não tínhamos ligação alguma com a Daimler-Benz. Ainda hoje é assim. Da família Benz sobrou apenas o nome.

E agora a sra. é embaixatriz da Mercedes.

Em 2008, após a venda da Chrysler, a Daimler me fez o pedido porque estavam discutindo se voltavam ao nome original. Eu tinha o nome e a ligação com a família. Aceitei para honrar meu avô. E achei justo uma mulher, uma embaixatriz, porque minha avó Bertha foi a primeira embaixatriz.

Hoje a sra. tem um Mercedes?

Sim tenho um Classe C, que consome muito pouco combustível. Gosto da costa da França e, desde que me aposentei, tenho muito tempo para viajar. Então me agrada um carro que faz 18 km/l. E este é meu desejo para o futuro: que os carros sejam cômodos como hoje, mas com um consumo cada vez mais baixo. E espero que desenvolvam mais fontes de energia alternativa e que os carros fiquem cada vez mais limpos.

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