(Carros pra casar? Costuma-se falar daqueles que sofrem grande desvalorização e ficam com um valor de revenda tão baixo que você se recusa a vender. Ou daquela versão manual de um sedã médio pelo qual ninguém mais tem interesse. Enfim, daqueles carros dos quais você quer se livrar e não consegue. Mas essa não é a minha visão de um casamento; não o vejo como algo do qual as pessoas querem se livrar. Para mim, casar é uma forma de ficar pra sempre com alguém (ou algo, no caso aqui) que se ama. Nessa seção do Blog Sobre Rodas, portanto, falo de carros que conquistaram meu coração. Daqueles pra colecionar, pra ter para sempre como companhia).

Depois de me apaixonar pelo Honda Civic Si (leia aqui), pelo Range Rover Vogue (leia aqui) e pelo Mercedes-Benz C 300 Cabriolet (leia aqui), outro modelo que eu sofri pra devolver à montadora foi mais um Mercedes, mas que troca o “Benz” por “AMG” – sigla da preparadora oficial de superesportivos da marca. Esse Mercedes-AMG C 63 S Coupé não é só um dos carros mais belos da atualidade, mas também um dos mais furiosos. Por quase R$ 600 mil, pode ser considerado caro – mas se você considerar que tem praticamente a mesma mecânica e é quase tão rápido um AMG GT, que custa o dobro (leia aqui sobre ele), pode ser também considerado uma pechincha. Não é um casamento pra qualquer um; mas quem souber domá-lo será muito feliz. E não e um companheiro de uma qualidade só, como outros superesportivos.

O que desperta a paixão:

 

  • A belíssima carroceria. Nessa faixa de preço não é difícil encontrar belos modelos, mas o c Coupé se destaca mesmo diante de rivais como Audi A5 e BMW Série 4. Com design inspirado no do Classe S Coupé – um dos carros mais belos da atualidade – o cupê baseado no modelo “de entrada” da marca alemã é extremamente atraente, principalmente nessa versão AMG, com para-choques agressivos (com tomadas e saídas de ar enormes para ajudar a refrigerar os freios) e belas rodas pretas de aro 19.

 

  • O motor “artesanal” com som furioso. Ao dar adeus ao antigo V8 de 6,2 litros naturalmente aspirado com mais de 60 “quilos” de torque do antigo C 63, esperávamos pelo pior. Não que motores turbinados decepcionem no desempenho, mas o ruído costuma ser mais abafado e as respostas costumam demorar um pouco – o famoso turbo lag, tempo que a turbina precisa pra “encher”. Bem, a Mercedes-AMG, que produz seus motores artesanalmente no interior da Baviera – cada engenheiro cuida de seu motor do começo ao fim e assina uma plaquinha nele –, conseguiu fazer um genial “downsizing” para um 4.0 V8 que não decepciona ninguém. Com duas turbinas pequenas no meio do “V” do motor, tem respostas imediatas como em um aspirado – e o ruído, “manipulado” por flaps que podem deixá-lo mais alto ou baixo, ao gosto do freguês (há um botão seletor), é brutal, com grandes estouros nas subidas de marcha e nas reduzidas. Não há do que se queixar, pelo contrário. E apesar de a potência ser de 510 cv (ante 514 do 6.3), o torque é maior: 71,3 kgfm, disponíveis na totalidade desde ridículas 1.750 rpm. Assustador!

 

  • A transmissão MCT. Quem levar essa força toda apenas ao eixo traseiro é a transmissão MCT – automatizada multidiscos, similar à de algumas motos. Mais rápida e eficiente que uma automática tradicional, troca de marchas com rapidez impressionante. Nos modos de condução Sport e Sport+ fica gradativamente mais rápida, e no Race passa para o modo manual, com trocas pelas generosas borboletas (de metal!) junto ao volante.

 

  • A dinâmica escandalosa. Esse é um casamento para poucos, para quem curte fortes emoções, um carro pra quem tem “braço”. Com toda essa força despejada apenas no eixo traseiro, o C 63 S reage quase sempre de maneira exagerada. E conforme você vai ganhando confiança, a tendência é que pise mais forte. Mas tentar “achar o limite” aqui é arriscado, porque quando você acha já é tarde demais. Então fica a dica: jamais desligue o controle de estabilidade, por mais tentador que seja. Contente-se com o ESP no modo Sport, que deixa você quase borrar as calças, mas preserva sua vida com uma interferência um pouco mais tardia.

 

  • O bom comportamento no cotidiano. É incrível que um superesportivo monstruoso como esse faça razoáveis 9,5 km/l na estrada dirigindo na boa. Isso ocorre graças, entre outras coisas, ao recurso de “sailing” ou desacoplamento automático do câmbio – a famosa “banguela”. Com o Dynamic Select no modo Comfort, sempre que se alivia o pé direito as rotações caem para abaixo das 1.000 rpm; a qualquer movimento brusco do volante, pisada no freio ou no acelerador a transmissão é imediatamente reacoplada, sem que o motorista nem perceba.  

O que pode levar ao divórcio:

  • A central multimídia, como em todo Mercedes, seja Benz, seja AMG, é chata de usar. Além de não ser nada intuitiva, exigindo muitos cliques para chegar aos comando desejados, há outros problemas. Mudar música, por exemplo, não tem um comando direto no volante – só se você estiver com a tela do painel de instrumentos já no modo música. Mesmo no console, não há um comando direto: é preciso apertar o touchpad (que não entende o que você escreve) e depois clicar para avançar a faixa. A integração com o Android Auto também é apenas razoável. Há muitos carros na faixa de R$ 60.000 com centrais melhores.

 

  • O desconforto, mesmo com as suspensões no modo Comfort, para encarar nossas ruas esburacadas. Claro que a culpa é mais do Estado do que dele, afinal é impossível colocar pneus baixos e calibrar um carro para ser bom de pista e, ao mesmo tempo, querer que ele “compreenda” nosso asfalto. Então prepare-se para escolher o caminho de melhor asfalto ou ouvir reclamações dos ocupantes.

 

  • Seu coração pode não aguentar. Dependendo de estado cardíaco e de seu apetite por velocidade, seu coração pode não aguentar a convivência. Se o C 63 S é um carro capaz de rodar relaxadamente, difícil é convencer o motorista disso. É o tipo de máquina que pede pra ser acelerada. Você decide ir na boa, mas sem perceber logo está em velocidades muito acima das permitidas, escorregando a traseira em curvas com o ESP no modo Sport, o coração palpitando, as mãos suando. Uma loucura!

Filhos?
Nessa versão Coupé, o C 63 S até acomoda bem duas crianças no banco traseiro, mesmo em cadeirinhas. Mas se o plano é ter filhos, ou se você já os tem, melhor optar pelo sedã. O design não é tão belo, claro, mas tem a praticidade das quatro portas a fúria é a mesma… e ainda custa menos. O grande problema aí não é acomodar cônjuge e filhos, mas conseguir dirigir de maneira civilizada para que eles não passem mal.

 

MERCEDES-AMG C 63 S COUPÉ
Preço básico: R$ 577.900
Motor: 8 cilindros em V 4.0, 32V, duplo comando variável, biturbo, injeção direta, start-stop
Cilindrada: 3982 cm3
Combustível: gasolina
Potência: 510 cv de 5.500 a 6.250 rpm
Torque: 71,3 kgfm de 1.750 a 4.500 rpm
Câmbio: automatizado multidisco, sete marchas
Direção: elétrica
Suspensões: four-link (d) e multi-link (t), amortecedores ajustáveis
Freios: discos ventilados de carbono-cerâmica (d) e discos ventilados (t)
Tração: traseira, bloqueio eletrônico do diferencial traseiro
Dimensões: 4,750 m (c), 1,877 m (l), 1,402 m (a)
Entre-eixos: 2,840 m
Pneus: 255/35 R19 (dianteiros) – 285/30 R19 (traseiros)
Porta-malas: 355 litros
Tanque: 66 litros
Peso: 1.800 kg
0-100 km/h: 3s9
Velocidade máxima: 290 km/h (limitada, com AMG Driver’s Package)
Consumo cidade: 6,6 km/l
Consumo estrada: 9,2 km/l
Emissão de CO2: 184 g/km
Nota do Inmetro: E
Com etanol: não é flex
Classificação na categoria: D (Esportivo)