Como consegui instalar um carregador de carro elétrico na minha vaga no prédio

Entre o primeiro contato da Volvo e o uso, foram nove meses para conseguir ter o JuiceBox, carregador de carro elétrico tipo wallbox, na minha vaga de garagem. Confira os desafios

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carregador de carro elétrico
Acima do Volvo S60, os eletrodutos para o carregador de carro elétrico e híbrido plug-in: a caminho do quadro de luz, a divisão para o aterramento no para-raios

Quando a Volvo Cars entrou em contato para oferecer a instalação de um wallbox – um carregador de carro elétrico a bateria ou carro híbrido plug-in – na minha casa, eu imediatamente soube que seria uma “encrenca”. Afinal, como a maioria dos paulistanos, moro em apartamento. E, como a maioria dos prédios da cidade, o meu tem construção antiga (década de 1980) e, obviamente, nenhuma estrutura para instalações elétricas na vaga.

Começava um processo cheio de contratempos, que levou exatos nove meses para ser concluído – devido a peculiaridades do meu prédio, atrasos causados pela pandemia e outros obstáculos. Hoje, tenho o carregador de carro elétrico JuiceBox, da Eneel, instalado na minha vaga. No meu caso, como editor da MOTOR SHOW, o modelo, que é vendido por R$ 10 mil, foi cedido pela Volvo em contrato de comodato de 18 meses, sem contrapartidas, para carregamento de carros de teste – não só da marca, mas também das concorrentes, como fizeram questão de frisar.


Vou contar os desafios que surgiram e como foi “parir” essa novidade e me adaptar à mobilidade elétrica e ao mundo da eletrificação (confira abaixo os links para matérias especiais sobre o tema). Detalhe: além do custo do carregador, a obra tem um custo estimado de até R$ 2 a 3 mil, para prédios, dependendo das dificuldades encontradas pelo caminho. Em casas, a coisa normalmente é mais simples.

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PRIMEIRO DESAFIO: VIDA EM CONDOMÍNIO

O primeiro desafio já poderia ter levado meus planos por água abaixo. Se as vagas aqui no prédio fossem distribuídas por sorteio, a administradora disse que não rolaria, que já teve problemas similares em outros edifícios. Mas, felizmente, as duas vagas são de fato minhas, com registro em escritura no cartório de imóveis e tudo mais. Meu território, minhas regras, certo? Bem, não exatamente.

Todo condomínio tem suas regras, a tal da convenção de condomínio. Ela especifica regras específicas, muitas vezes em desacordo com a “lei geral do mundo”, sobre o que pode ou não ser feito e o que precisa ou não de aprovação em assembleia. Aqui, as regras sobre a pequena reforma para instalação do carregador eram meio nebulosas.

Meu maior medo era que o tema acabasse em discussão na reunião de condomínio. “E seu eu também quiser um carregador?”, “Quem vai controlar o pagamento da energia?”, “Esses carregadores dão câncer”, “Isso aí vai pegar fogo, li em um grupo do WhatsApp, pegou fogo no prédio do tio da fulana”. Sempre tem fake news, obviamente, né? Aqui, mais especificamente, elas já arruinaram a instalação de uma antena de celular que traria muito dinheiro ao condomínio… OBS: comprovando o que digo, logo após escrever isto, leio que, nos EUA, um vizinho retirou o carregador de um carro que estava carregando e deixou um bilhete dizendo: “O carro pode explodir; procure no Google”.

Após cuidadosa consulta com a administradora e com o conselho do condomínio – que, felizmente, inclui um engenheiro e um síndico jovem e antenado em novas tecnologias –, depois de um par de meses veio a decisão favorável: foi autorizada a instalação do carregador de carros elétricos sem necessidade de aprovação pelos “tios e tias” adeptos das fake news de WhatsApp. Mas nada é tão simples: aprovado… desde que a obra seja simples e haja um meio de todos controlarem o consumo. É o segundo desafio.

SEGUNDO DESAFIO: A FONTE DE ENERGIA

Vencido o primeiro desafio, é hora de planejar a instalação. De onde virá a energia para o carregador de carro elétrico? Uma empresa especializada contratada pela Volvo, a WeVolt, vem fazer a vistoria. Mostro a lâmpada sobre meu carro, na minha vaga, mas a instalação elétrica que chega ali serve só para isso mesmo, uma lâmpada. Procuramos pela garagem inteira, e não há sequer uma simples tomada. Vamos até o térreo ver o quadro central do prédio. De lá, partem as ligações elétricas, que passam por medidores individuais e sobem para os apartamentos. Mas nada que vá para a garagem.

Desde a década de 1980, várias ligações elétricas foram feitas em direção aos dois subsolos – minhas duas ficam no segundo deles. Câmeras, iluminação… os eletrodutos estão lotados, mal passa um fio elétrico fino. Imaginem então os cabos de grande calibre do carregador veicular então. A solução é procurar outras fontes de alta tensão pelo prédio. Ninguém no prédio tem muita informação a respeito. Seguimos cabos, descemos nas duas garagens, abrimos todos os quadros nos três andares… cabos de TV, de fibra óptica, fios telefônicos… e nada de achar uma fonte adequada perto da vaga.

O quadro de luz “salvador” no quartinho das bombas d’água

Descobrimos que as plantas originais do prédio estão escondidas em algum lugar do “quartinho do zelador”. Abrimos os papéis amarelados, alguns já meio despedaçando, até acharmos as plantas elétricas. Depois de muito vasculhar, descobrimos, enfim, um quadro de força escondido no segundo subsolo, dentro da sala das bombas que levam a água da rua até a caixa d’água no alto do prédio. Ela tem tensão e amperagem suficientes, e fica a 10 ou 15 metros das minhas vagas. Problema resolvido! Ou quase.

carregador de carro elétrico

Ainda é preciso que a empresa elabore o projeto e manda para aprovação do prédio. Depois de algum tempo, recebo o projeto, mas a administração do condomínio ainda exige que alguns detalhes sejam explicitados, como a existência de um medidor individual de consumo – já que a energia que chega ali entra na conta do condomínio. Exigem também uma ART (Anotação de Responsabilidade Técnica), como em toda obra. A WeVolt elabora tudo, conforme requerido, e seguimos adiante… no meio da pandemia.

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TERCEIRO DESAFIO: A PANDEMIA

Não é segredo que a pandemia afetou bastante a indústria de produtos eletrônicos. E não seria diferente com um carregador de carro elétrico, que, naturalmente, usa chips e semicondutores. Assim, além de outros atrasos que já haviam ocorrido por conta de alguns períodos de  quarentena decretados no País, quando enfim tivemos a autorização para prosseguir com a instalação do carregador de carro elétrico, faltou… carregador! Bem, depois de mais um tempo de espera, marcamos a data de instalação no prédio e o carregador enfim é entregue no meu apartamento, para já ficar à espera da finalização da obra. Agora vai?

QUARTO DESAFIO: A QUASE INSTALAÇÃO

Bem, quase. Após meses de rodízio noturno, São Paulo volta a ter rodízio de manhã e o final da placa do carro dos instaladores os coloca no rodízio bem no dia da instalação. Assim, em vez de chegar às 9h, eles chegam às 11h. Veem que o serviço não será tão simples assim, e, com as maiores restrições de horário para obras no prédio, por conta da pandemia, não conseguiriam concluir tudo a tempo – até porque o síndico apareceu e sugeriu que a instalação, aparente, desviasse de cada uma das vigas e ficasse sempre rente ao teto, em vez de suspensas “no ar” abaixo delas. “Para nenhum morador reclamar”, diz, em uma preocupação que faz todo o sentido, afinal a obra só beneficia a mim.

Pior: na “conferida” para planejar voltar em outro dia, eles detectam que o quadro de luz onde seria feita a instalação surpreendentemente não está devidamente aterrado – ou pelo menos não está aterrado exatamente ali, o que inviabiliza a instalação. “Podemos fazer o aterramento, só vou precisar enterrar uma barra de três metros aqui no chão”, explica o técnico… contando que abaixo dele é só terra, sem fundações, lençóis freáticos, nada. Mas isso exigiria atualização do projeto, da ART… precisamos achar outra solução.

Remarcamos a instalação para a semana seguinte, e a WeVolt manda a equipe para reavaliar a questão do aterramento e recalcular as “dobras” extras para deixar a instalação mais discreta do que originalmente planejado, seguindo a boa dica do síndico. Sobre o aterramento, que mais me preocupava, no térreo vemos a fiação dos para-raios descendo… Seguindo os cabos, chegamos ao segundo subsolo, não exatamente na roda da instalação, mais próximo… Ufa! Basta um “puxadinho” na instalação e juntamos ao projeto o essencial aterramento (sem ele, não há instalação).

QUINTO DESAFIO: MÃOS À OBRA (E QUE OBRA!)

Enfim, tudo certo para a instalação do meu carregador de carro elétrico. A obra é puxada para os dois funcionários que chegaram pouco depois das 9h. Primeiro é preciso passar os eletrodutos metálicos por todo o caminho do quartinho das bombas d’água até a minha vaga. Eles precisam descer e subir a cada viga, para que não sejam furadas e a instalação fique o mais discreta possível. Foi preciso remover os carros das vagas no caminho – tudo devidamente planejado com os donos delas, que usaram outras vagas livre do prédio, em uma logística que só funcionou graças à compreensão de outros moradores.

Os eletrodutos passam discretamente pelo teto e paredes do segundo subsolo

Depois de mais de três horas fixando os eletrodutos – incluindo o desvio extra para o aterramento – os funcionários almoçam e voltam para a parte mais pesada: passar os três cabos (fases e terra) pelos dutos. As muitas curvas no caminho geram bastante resistência e dificultam bastante a tarefa. Haja vaselina para os cabos deslizarem!

São muitos metros de fio para passar nos eletrodutos. Na parede ao fundo, ficará o carregador em si
carregador de carro elétrico
Com tantas curvas, aumenta a resistência e os funcionários sofrem para passar os cabos

Depois de mais algumas horas passando os cabos, já passou do horário de obras no prédio, mas o síndico abre uma exceção, já que estamos na garagem e não vamos fazer mais barulho (a fixação dos eletrodutos foi bem barulhenta). É hora de fixar o JuiceBox na parede, acompanhado de um pequeno e discreto quadro de luz com disjuntores para mais segurança. 

Junto ao carregador, um quadro de proteção com disjuntores

Depois, eles partem para as ligações elétricas do aterramento e do quadro de luz das bombas d’água, onde é instalado também o tão solicitado e necessário medidor individual de consumo de energia (foto abaixo). Com ele, a administração do prédio poderá me cobrar pela energia que eu utilizar — e os demais moradores podem ficar tranquilos (a não ser pelas paranoias fake de risco de incêndio, mas até agora ninguém veio com essa, felizmente…)

O medidor da energia utilizada, para o prédio fazer a cobrança
ENFIM, INSTALADO (MAS NÃO COM TODO SEU POTENCIAL)

Depois de quase 13h de trabalho, tudo está pronto. Mas com dois poréns: como não há conexão de internet no segundo subsolo, não poderei acompanhar o carregamento e ativar/desativar recursos do JuiceBox via internet. Mas o que importa é que poderei carregar os carros e fazer os testes como se deve… ou quase!

Afinal, o carregador instalado poderia funcionar com 380V e 22 kW de potência, mas, de novo, há limitações de infraestrutura: embora esteja na maior e mais rica cidade do país, a concessionária não entrega o sistema trifásico que permitiria a carga mais rápida. Tenho que me contentar com o sistema bifásico de 7,2 kWh, ou quase um terço da potência.

Deu certo: a luz verde indica que o Volvo está carregando

De qualquer modo, já é muito melhor do que ficar com a bateria descarregada, ter que recorrer a estações públicas (mas, ao menos, gratuitas – ainda mais agora que o preço da energia elétrica disparou) ou achar uma tomada comum – o que era impossível no meu prédio – e levar mais de 30 ou 40 horas para carregar alguns modelos 100% a bateria.

O cabo é longo o suficiente para carregar o Volvo mesmo com outro carro entre ele e o carregador

Coincidentemente, no mesmo dia da instalação fui buscar um Volvo S60 T8 (leia avaliação), um híbrido plug-in que servirá muito bem à minha primeira semana de testes com meu novo carregador de carro elétrico. A vida com um carro plug-in e carregador na garagem será o assunto do meu próximo post neste Blog Sobre Rodas. Fiquem de olho.

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