Golf GTI em forma de SUV, VW Tiguan R-Line deu saudades das peruas

Novidade da marca alemã, VW Tiguan Allspace R-Line 350 TSI é um excelente carro, com um desempenho surpreendente – mas será mesmo melhor do que uma station de valor equivalente?

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Enquanto o Golf GTI com seu 2.0 turbo de 220 cv vai de 0-100 km/h em 7,2 segundos, o novo VW Tiguan R-Line 350 TSI, com o mesmo motor, cumpre a mesma prova em 6s8, quatro décimos antes. Tudo bem que o SUV tem tração integral, e seu câmbio – também de dupla embreagem –  tem uma marcha a mais, mas ainda assim o número da Volks é bastante otimista. De qualquer modo, o desempenho é surpreendente para um SUV de menos de R$ 200.000, como comprovei em 600 quilômetros ao volante – ida e volta a Resende (RJ). O fato é que esse novo Tiguan Allspace topo de linha, por R$ 179.990, é um Golf GTI em forma de SUV.

O Golf GTI topo de linha com todos os opcionais menos o teto panorâmico, em um pacote bem similar ao desse Tiguan Allspace, sai por R$ 171.474. Leva cinco e tem um porta-malas bastante razoável (338 litros), além de toda a história, do legado que carrega. Por nem R$ 18.000 a mais, esse Tiguan, leva sete pessoas ou o dobro de bagagem e ainda é mais rápido? Sim, mas não é simples assim. Porque desempenho não é nem de longe só 0-100 e/ou velocidade máxima (nessa o Golf ganha com 237 km/h contra 223). A dinâmica é primordial, e nesse ponto o Tiguan Allspace… bem, o Golf é hatch e ele é SUV. Preciso dizer mais?

Sim, Tiguan e Golf, em grande parte, são o mesmo carro. Dividem, além do motor, a versátil plataforma MQB –  que permite fazer, da mesma base, um esportivo como o Golf GTI e SUVs familiares como o Tiguan e essa sua versão de entre-eixos estendido, chamada de Allspace. Mas não adianta: na hora em que você veste o “kit aventureiro”, com botas (suspensões elevadas) e uma pesada mochila (carroceria e peso maiores), não tem jeito: você vai ter o espaço e a versatilidade de que precisa (mesmo?), mas no “uso normal” vai andar com mais dificuldade e gastar mais calorias (combustível). Arredondando, no Tiguan são 400 quilos a mais, 43 cm extras de comprimento e 16 a mais no entre-eixos (!). É muita coisa.

Assim, mesmo tendo uma dinâmica boa para um SUV, nas serras o Tiguan não entrava tão decididamente nas curvas quanto o Golf, não as percorria com o mesmo equilíbrio e a mesma facilidade que o hatch, e seu volante não respondia com o mesmo imediatismo que se vê no Golf. A carroceria deita um pouco  mais o peso e o porte maiores se sente nas mãos, principalmente nas curvas fechadas. Isso apesar de o Tiguan se esforçar pra ser um SUV “dinâmico” – parece até querer ser uma perua (já volto a esse ponto).

No uso familiar, você continua pagando o preço: nos quase 600 km entre as rodovias Dutra e Carvalho Pinto, nos trechos de uso mais comportado, o Tiguan fez média de 11,5 km/h – com esforço, usando o modo Eco, que usa roda livre (banguela) e deixa o carro com respostas bastante anestesiadas. No trânsito de São Paulo, então, foi difícil passar de
4,5 km/l de média (situações nas quais fiz 7,5 com um Honda CR-V ). Por outro lado, têm muito espaço, bandejinhas para as crianças, banco traseiro corrediço e reclinável e, ainda, dois lugares extras para um uso eventual – pois não são tão confortáveis assim e quase acabam com o porta-malas.

Mas não se trata aqui de comparar Tiguan e Golf, claro que as propostas são bem distintas. Mas ouvi falar tanto do desempenho desse 350 TSI e fiquei pensando quem realmente precisa de um SUV com números de GTI. Porque no uso familiar, se utilizar 50% dele a mulher e as crianças já vão reclamar e/ou enjoar. E, para dirigir sozinho, fica um gostinho de “quase GTI”, mas aí a dinâmica decepciona. Não porque seja ruim, repito, é ótima para um SUV de seu porte. Mas a principal emoção que o Tiguan Allspace R-Line me proporcionou, depois de dias ao volante, foi a saudade das peruas.

Station, SW, Wagon, chame como quiser. Como raramente levo mais de quatro no carro, pagaria provavelmente o mesmo e ficaria bem mais feliz com a perua Passat Variant com a mesma mecânica – e ainda mais sofisticada em acabamento e equipamentos. Acima de tudo, mesmo sendo derivada do Passat, que não é exatamente referência e emoção ao volante, tem dinâmica mais próxima da de um hatch como o GTI. Mas a marca nem a vende aqui (mesmo o atraente sedã da qual deriva vai mal com a atual  febre dos SUVs).

A boa notícia é que há, ainda, algumas opções de peruas em nosso mercado. A própria Volks ainda oferece a Golf Variant  (R$ 107.000 a R$ 144.000). Pode ser uma boa se você puder abrir mão não só dos lugares extras, mas principalmente de espaço interno (o porta-malas é bom) e de desempenho (seu 1.4 é mais que suficiente, mas não tão empolgante). Caso não possa, o Tiguan 250 TSI, com seus 150 cv, resolve o problema do espaço, mas não o do desempenho (pelo contrário, piora) e, como voltamos a um SUV, tampouco o da dinâmica.

Agora, se você puder pagar um pouquinho a mais, uma perua Audi A4 Avant “básica” (Ambiente) é um “achado” do mercado, venida por R$ 198.990. Com um 2.0 turbo de
190 cv e (320 NM, conta os 350 do Tiguan, no padrão Volks), é extremamente econômica, e vai de 0-100 km/h em ainda excelentes 7s5. O porta-malas tem bons 505 litros e o comportamento dinâmico e a dirigibilidade, nem é preciso dizer, são muito superiores aos do Tiguan. E ainda é um modelo da Audi,  “prima rica” da Volks (com o que traz de bom em qualidade e status e de ruim em custos). Se você não precisa de sete lugares e pode abrir mão de alguns equipamentos, não deixe de considerá-la. Galeria abaixo.