Salão do Automóvel vai virar coisa do passado?

As marcas estão sumindo, assim como o público: as exibições internacionais de automóveis, como o recente Salão de Frankfurt e o Salão de Tóquio, que abre as portas esta semana, estão em decadência. E esta tendência deve ser irreversível

No estande da Mercedes-Benz do Salão de Frankfurt, muito eppaço, como sempre, mas com poucos carros.

O Salão de Tóquio abre as portas à imprensa nesta quarta-feira e ao público nesta sexta, mas não há tanta gente empolgada. Afinal, as notícias recentes não são boas, e os números não mentem: o mais famoso e importante Salão do Automóvel mundial, o Salão de Frankfurt, na Alemanha (IAA), vê sumirem a cada edição público e expositores.

A mostra bienal, que nasceu em 1897 e teve mais de um milhão de visitantes em 2003, viu o número de visitantes cair substancialmente: 932 mil em 2015, 810 mil em 2017 e apenas 560 mil em 2019 – uma impressionante e preocupante queda de 40% em quatro anos.

“Muitos pavilhões estão fechados, e onde há carros, são menos do que nunca”, analisou em setembro um artigo da DW, principal meio de comunicação alemão, intitulado “Será o fim da linha para o IAA?”.

De 1.103 expositores no Salão de Frankfurt em 2015, 104 “sumiram” em 2017 e, este ano, mais ao menos 30 marcas que tradicionalmente sempre participavam da mostra desapareceram – cortinas pretas e portas fechadas escondiam as partes vazias, e o evento foi reduzido a apenas quatro pavilhões dedicados a lançamentos de carros novos, quando em 2017 eram sete. E, mesmo entre as marcas presentes, estandes como o da alemã BMW estava bem menor que nas edições anteriores, enquanto no da Mercedes havia menos carros.

Entre as marcas cuja ausências foram mais sentidas, o grupo FCA – que não apareceu nem com Jeep, nem com Alfa ou Fiat –, as francesas Peugeot, DS e Citroën, a sueca Volvo e quase todas as japonesas: não participaram Toyota, Nissan, Lexus, Subaru, Mazda e Suzuki; só compareceu a Honda, que mostrou um carro urbano elétrico, o Honda e. Ainda estavam ausentes a inglesa Aston Martin, a anglo-germânica Rolls-Royce e a coreana Kia.

Mesmo o grupo de jornalistas cobrindo o Salão foi reduzido, e muitos importantes meios de comunicação especializados ficaram de fora da lista de convidados. Afinal, sem ter muito de interessante o que mostrar destinado a nosso mercado, e com a crise que assola o setor automotivo brasileiro, as montadoras não quiseram/puderam gastar tanto dinheiro nisso. 

CRISE GLOBAL

Outros Salões também vêm sofrendo com a queda de público. Sintomaticamente, o Salão de Detroit, nos EUA, vinha perdendo público para a CES – feira de tecnologia que ocorre em Las Vegas semanas antes e vinha roubando não apenas o público de Detroit, mas também algumas novidades dos  expositores: Audi, BMW, FCA, Ford, Honda, Hyundai, Kia, Mercedes-Benz e Nissan, por exemplo, tiveram estandes na CES e algumas até lançaram carros lá antes de mostrá-los em Detroit.

Na mostra deste ano, a Anfavea, associação de fabricantes nacional, nem mesmo se preocupou em fazer o tradicional pool que costumava levar jornalistas brasileiros para a cobertura do salão norte-americano. No ano que vem, em época de menos frio e mais longe da CES – em junho – o Salão de Detroit tentará se reinventar.

O já citado Salão de Tóquio que abre as portas esta semana é outro que tem visto seu público diminuir: foi de 812.500 visitantes em 2015 para 771.200 em 2017. A edição deste ano abre com a preocupação de ver, novamente, ele encolher.

Já nosso Salão de São Paulo, por ouro lado, manteve-se relativamente estável nas últimas edições: 742 mil visitantes em 2018, um pouco menos que em 2014, um pouco mais que em 2016 – numa média que tem permanecido estável há mais de uma década (o que não é bom, mas também não é ruim, considerando as condições). Ainda assim, algumas marcas também decidiram não participar do Salão do Automóvel de São Paulo no ano passado, como Jaguar, Land Rover, Peugeot, Citroën e JAC Motors. Vamos ver o que acontece ano que vem.

OS MOTIVOS

Os porquês da decadência? Um fato é que o interesse pelos automóveis tem caído, principalmente entre jovens. Outro é que investir em um estande no Salão de Frankfurt não é barato: custa, em média, € 3,5 milhões. Não é pouco, mesmo para as fabricantes de carros — principalmente agora que precisam investir tanto em novas tecnologias “amigas” do meio ambiente. Será quer ainda vale a pena gastar tanto no Salão?

Outro motivo para a queda no público está na enorme facilidade da informação na era da internet — que possibilita ao público ver os detalhes dos carros por meios digitais, sem precisar ir pessoalmente à mostra –, e a concentração de lançamentos em um único dia, que em era de hiper-informação faz com que a atenção dedicada a cada um deles se dissipe demais, tornando o retorno de mídia inferior àquele de lançamentos feitos “individualmente”, em outras datas.

Outro grande prejuízo aos Salões – e talvez o maior deles – vêm da vilanização dos carros, que têm sido (erradamente) apontados como os grandes vilões da poluição e do aquecimento global (não são, mas essa é outra discussão). No primeiro final de semana, mais de 500 ativistas tentaram bloquear a entrada do Salão de Frankfurt. Isso tudo apesar do grande esforço recente dos fabricantes — mesmo que não por vontade própria ou consciência, mas por regulamentações — em mostrar novos veículos elétricos e híbridos e soluções tecnológicas e de mobilidade mais limpas, e que vão muito além do carro e da propriedade dos tão “temidos” veículos individuais.

Hoje, mais que nunca, a indústria automotiva precisa se reinventar. Mesmo que os automóveis de uso individual ainda “sobrevivam” por décadas, e este blog acha que isso vai acontecer, os Salões do Automóvel devem ficar cada vez menores e mais dedicados a um público específico, de apaixonados por carros, que ainda conseguem vê-los além de sua mera utilidade.