SUVs não matam sedãs, mostra o grande X do mercado (ou: 2010, o ano em que o mercado virou)

Diferentemente do previsto, e do que diz o senso comum, os SUVs não “mataram” os sedãs. De 2005 até hoje, a preferência pelos SUVs de fato disparou, mas quem perdeu foram as minivans, os hatches e os monovolumes

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Roberto Assunção

Há muitos e muitos anos, quando começou essa moda dos SUVs, muita gente – inclusive a MOTOR SHOW – previu que os sedãs seriam um dos grandes prejudicados por eles. Uma capa nossa, inclusive, comparava os tais utilitários esportivos com sedãs e perguntava: “SUV vale a pena?” – na reportagem, diversos comparativos entre SUVs e sedãs, da mesma marca e valor, mostrava que quase sempre os sedãs eram melhores (leia aqui). Mesmo assim, a onda seguiu. Mas o fato é que, embora os SUVs tenham “dominado” o mercado nas faixas de preços nas quais concorrem, no fim das contas eles não matam os sedãs. É o que mostra o “grande X” do mercado brasileiro – a forma do gráfico de participação de mercado por categorias que vou analisar aqui. Vamos lá:

Esse é o gráfico de participação nas vendas (market-share) por categoria/carroceria entre 2005 e 2017:

A linha preta no alto, quase estável, não nos interessa. São carros de entrada, hatches e sedãs pequenos, etc. Todos na faixa de preços abaixo da dos SUVs, menos de R$ 70.000. Não interessas a nossa análise, não só por não ter oscilado, mas por não ter vendas afetadas pelos utilitários esportivos. Tirando-a, o gráfico fica assim:

Analisando apenas essa fatia “mais abastada” do mercado, vemos, uma forte linha vermelha ascendente – são os SUVs. Sua participação subiu de 4,9% em 2005 para espantosos 22,3% em 2017. Mas quem caiu? Vemos abaixo quatro linhas que caíram, umas mais, outras menos. E aí podemos juntar os carros mais tradicionalmente “familiares”: linhas verde (peruas médias), vinho (monovolumes grandes) e turquesa (monovolumes pequenos, incluindo Honda Fit) e chegamos ao seguinte gráfico:

Flavio Silveira

Eis o “Grande X” do mercado ao qual me refiro. Formado pelas linhas vermelha (SUVs) e laranja (“família”), ele mostra claramente de quem os SUVs roubaram sua clientela: principalmente dos monovolumes e das peruas (duas categorias em clara extinção), mas também dos tradicionais hatches médios – a linha verde que atingiu seu pico em 2010 (categoria que sempre foi meio jovem-meio família, e também está em risco de extinção).

Aliás, falando em 2010, é bem ali que vemos o meio do X, onde “suas pernas” se cruzam. Na verdade, 2010 foi o ano em que o mercado virou. Ali, vemos que nesse ano todas essas categorias aqui elencadas – SUVs, “família”, hatches médios e sedãs (a linha azul, já falo mais dela) estavam quase exatamente “cravadas” em 7%.

Além de serem o último respiro dos hatches médios antes da morte, esses 7% representaram metade da queda do que classifiquei aqui como familiares tradicionais, trocados pelos novos familiares (SUVs) – que estavam, ainda no começo de sua disparada rumo aos 22%.

Nos mesmos 7% estavam os sedãs médios e grandes – finalmente chego a eles. Representados pela linha azul no gráfico, nota-se que sua participação no total das vendas pouco oscilou nesses 13 anos. A média de market-share deles nesse período foi de 8,5%, quase exatamente a mesma participação do ano passado: 8,8%. Ou seja, o mercado virou, mas os sedãs médios e grandes seguiram firmes, preservando sua fatia do mercado.

Isso não significa que as pessoas não tenham deixado de comprar sedãs, também, para comprar SUVs. Afinal, os sedãs também sempre foram um tipo de carro que também tinha classicamente um uso “familiar”. Eu, pessoalmente, conheço alguns desses “chefes de família” que migraram para os SUVs seguindo a moda.

Uma hipótese que pode ajudar a explicar porque, a despeito disso, os sedãs seguem firmes na sua participação de mercado veio da Fiat no lançamento do (sedã) Cronos: parte dos consumidores que compravam SUVs pela imagem “aventureira”, “jovem” e “descolada” não gostaram de vê-los se popularizando tanto e virando carros “de tiozão” ou “mamãe”, usados “para levar as crianças ao shopping e à escola”. Por essa razão, passaram a buscar outras opções – alguns buscando de novo nos sedãs essa imagem “jovem”. Não sei se concordo 100% com essa hipótese da Fiat, mas os dados estão aí, incontestáveis: os SUVs são verdadeiros genocidas do mercado – mataram os hatches médios, as peruas e monovolumes de diferentes tamanhos –, mas, no fim, os sedãs estão passando incólumes por essa moda. E você, o que acha? Trocou ou trocaria seu sedã por um SUV?