31/03/2026 - 10:00
Desde os tempos de escola aprende-se que globalização é um processo de interação entre os países tanto nos âmbitos social e cultural quanto no econômico e político. Por isso, o que acontece em um país pode refletir em outro. Forte exemplo é a guerra entre Irã e Estados Unidos/Israel, que já causou aumento superior a 20% no preço do combustível líquido no Brasil desde o início do conflito. Mas, o etanol também entra nesse caos?
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Gasolina sobe. E o álcool, sobe também?
O combustível derivado da cana-de-açúcar também teve aumento. Mas, como não depende diretamente da extração do petróleo, fica claro que isso acontece pela lei da oferta e da procura. “Na medida em que o preço da gasolina sobe, o consumidor corre para o álcool, fazendo com que o preço dele também suba”, explica o professor Luiz Alberto Carvalho, doutor em história econômica pela USP.

De acordo com o professor, “A microeconomia, que estuda mercados específicos, divide os bens entre substitutos, concorrentes e complementares. Quando existiam somente carros à gasolina e carros à álcool, podia-se dizer que o álcool era produto complementar do carro a álcool e a gasolina era complementar do carro à gasolina, enquanto os dois tipos de carros eram concorrentes entre si”.
Ainda segundo ele, “depois que se inventou o veículo bicombustível (no começo dos anos 2000), mesmo continuando a serem bens complementares dos automóveis, os dois combustíveis passaram a concorrer entre si. Aí, a não ser que haja uma enorme superprodução de um deles, os preços vão variar sempre na mesma direção. Assim, se o preço da gasolina sobe, o preço do álcool vai subir também, mantendo o reflexo da relação de poder calorífico”, detalha.

Cabe pontuar, no entanto, que, no Brasil, muitos estabelecimentos agem de má fé. Ou seja, aumentam o preço do combustível além do necessário, única e exclusivamente, para lucrar em cima do consumidor.
Os preços dos combustíveis
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o etanol subiu menos do que a gasolina na semana do dia 15 de março. Em São Paulo, enquanto a gasolina saltou de R$ 6,46 para R$ 6,65 em 21 de março (+ 2,94%), o etanol subiu de R$ 4,70 para R$ 4,72 (+ 0,43 %). Seja como for, o derivado do petróleo ainda é mais vantajoso na maioria do país, com vantagem do etanol apenas em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo.

Isso porque, no motor do carro, o desempenho do etanol é mais fraco – cerca de 70% do rendimento da gasolina. Portanto, é necessário fazer conta para saber o que vale a pena. Para isso, basta multiplicar o preço da gasolina por 0,7 e comparar com o preço do etanol.
Em um posto de combustível consultado por MOTOR SHOW na semana do dia 15 de março, na Zona Leste da capital paulista, a gasolina custava R$ 7,02, enquanto o etanol saía por R$ 5,11. Portanto, com o resultado de 4,91, o combustível derivado do petróleo sai mais vantajoso.

Governo quer aumentar quantidade de etanol na gasolina
Como se não bastasse o aumento recente (em agosto de 2025), o governo avalia elevar, de novo, a quantidade de etanol na gasolina. Agora de 30% para 35%. A viabilidade técnica para isso, no entanto, vem sendo estudada pelo Ministério de Minas e Energia. O investimento é de R$ 30 milhões.

A proposta ainda prevê que o diesel tenha 25% de biodiesel (hoje, são 15%). Mas as mudanças ainda dependem de estudos técnicos e levarão alguns anos para implementação. Afinal, precisa haver garantia de desempenho dos motores por meio de testes técnicos, aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), adaptação da indústria automotiva, além de oferta suficiente do biocombustível.
Alto preço do combustível: elétricos mais desejados?
Não é porque os combustíveis vêm sofrendo aumento constante que o consumidor vai migrar do carro a combustão para o elétrico – ao menos no futuro próximo. Afinal, se por um lado o cliente não quer pagar alguns centavos a mais no litro do combustível, por outro, ele teme que a conta de luz suba absurdamente e, sobretudo, não quer ficar refém da falta de infraestrutura do País para recarregar as baterias do veículo. Logo, a conta não é tão simples.

Na opinião do coordenador acadêmico da FGV, Antônio Jorge Martins, “o preço elevado das baterias oneram o valor do carro elétrico. Esse tipo de veículo ainda passa por problemas como tempo de recarga elevado e, por isso, não se trata de um produto mais desejoso frente ao carro a combustão, ao menos por ora”. De acordo com ele, ao longo dos próximos anos, já superados os gastos com pesquisa e desenvolvimento, e o uso das baterias de estado sólido, os preços dos carros elétricos serão reduzidos e, assim, podem se tornar uma opção plausível frente aos modelos a combustão.
Para o professor Carvalho, no entanto, “Carros elétricos e carros à combustão são o que se chama de concorrência monopolística. É mais ou menos como música clássica x música sertaneja. O apreciador de uma não necessariamente aprecia a outra, mesmo que ambas sejam músicas. Ambos (os tipos de carro) carregam expectativas diferentes entre si. Os consumidores mais curiosos tenderão a substituir um pelo outro consoante o preço, enquanto os mais conservadores não vão fazer isso, a não ser em casos extremos”.

Enquanto não acontece essa “revolução dos carros elétricos”, que passa por autonomia extra, recarga mais rápida, preços menores, e maior segurança, especialistas acreditam na procura pelo híbrido como alternativa aos modelos a combustão. Esse, aliás, é o movimento natural em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, boa parte dos modelos zero-km já têm algum tipo de eletrificação.
