Comparativo: Honda Civic Si vs. VW Golf GTI

Neste encontro de esportivos, o novo Civic Si e o Golf GTI se enfrentam numa disputa de motor, câmbio, performance e estilo, mas principalmente de conceitos

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É possível comparar dois carros esportivos de forma racional? Até certo ponto, sim; mas não totalmente. Quando o Honda Civic Si e o Volkswagen Golf GTI ficam lado a lado para a escolha do comprador, várias batalhas surgem à sua frente. Motor 1.5 ou motor 2.0? Câmbio manual ou câmbio automático? Duas portas ou quatro portas? Carroceria hatch ou carroceria cupê? Números absolutos ou prazer ao dirigir? Apaixonantes que são, provavelmente o Civic Si e o Golf GTI não suscitam essas dúvidas na maioria de seus compradores, mas para aqueles que buscam uma compra racional (ou para quem deseja contar as vantagens de um ou de outro), esse comparativo é útil e divertido, pois engloba várias batalhas em uma guerra de conceitos.

O Civic Si da nova geração trouxe uma mudança radical: o motor turbinado de 1,5 litro no lugar do aspirado de 2,4 litros da geração anterior. A potência passou de 206 cv (entregues a 7.000 rpm) para 208 cv (agora disponíveis a partir de 5.700 giros). O câmbio continua sendo manual de seis marchas. O Golf GTI continua com seu motor 2.0 turbo, mas ganhou 10 cavalos na linha 2018 e agora entrega 230 cv a 4.800 rpm. O câmbio continua sendo o automatizado de dupla embreagem com seis marchas, com trocas sequenciais na alavanca ou na borboleta do volante. Só isso já mostra que o Civic Si mudou o seu caráter, enquanto o Golf GTI aprimorou a mesma fórmula.

Antes de sermos muito exigentes com o Si e o GTI, vale lembrar que em outros mercados a Honda e a Volkswagen vendem o Civic Type R e o Golf R, ambos com caráter muito mais esportivo. No Brasil, o Civic Si e o Golf GTI são os exemplares mais esportivos das duas marcas. Com os carros à nossa frente, não há como negar a primeira vantagem do Civic Si: a carroceria cupê. Exclusiva no Brasil, a versão Si está disponível apenas com duas portas e reforça sua esportividade com a presença de um vistoso aerofólio traseiro.

De qualquer ângulo que é visto, o Civic Si não deixa dúvidas de que se trata de um automóvel esportivo. O GTI, por sua vez, traz no alto da larga coluna C o mesmo spoiler traseiro que pode ser visto em outros Golf – sua identificação como carro esportivo está mais na linha vermelha que desenha os faróis e a grade. Ambos utilizam rodas diamantadas com fundo preto de 18” (opcionais no VW) com cinco furos, mas no Civic Si os pneus são 235/40 e no Golf GTI são 225/40. Tanto os GoodYear Eagle F1 do Si quanto os Bridgestone Potenza do GTI têm índice de velocidade Y (para alcançar até 300 km/h).

Se a carroceria cupê do Civic Si o fixa naturalmente como um esportivo, o fato de ser um hatch de quatro portas torna o Golf GTI mais versátil no uso. Mas não nos percamos nessas características que fazem a presença ou não de um filho serem determinantes para a compra do carro. Ao contrário do que parece, dois adultos se acomodam muito bem no banco de trás do Civic cupê, pois o espaço para as pernas é bom. Porém, sem janelas que abrem e com dois bancos altos à frente, o ambiente é meio claustrofóbico.

Voltando à experiência do motorista, cada vez que é preciso rebater o banco do Si para usar a parte de trás, a posição de dirigir precisa ser regulada novamente. O Golf GTI, evidentemente, não traz esse incômodo. Para compensar sua fama de carro muito duro (2007-2011) ou muito macio (2012-2016), o Civic Si conta com um sistema de regulagem que deixa a suspensão confortável para o dia-a-dia e dura para a condução esportiva (modo Sport). Já o Golf GTI tem quatro modos de condução (Eco, Normal, Sport e Individual), sem tanta mudança perceptível de um para outro.

Mas é quando o motor do novo Si liga que o velho Si deixa saudade. O ronco do motor aspirado, com generosas esticadas de giro a cada acelerada, dava um prazer de condução que extrapolava os números de desempenho. É verdade que o Si turbinado ficou 7 décimos de segundo mais rápido na aceleração de 0-100 km/h, mas a sensação de esticar as marchas a 8.000 giros não existe mais. O câmbio manual continua lá, com seis engates justos e precisos, exigindo punta-tacco em algumas entradas de curva para não deixar o giro cair, mas o motor corta bem antes e isso tira um pouco da empolgação.

Para quem está acostumado com o antigo Si aspirado, é preciso algum tempo de adaptação. Porém, com o modo Sport ligado (por meio de um botão no console), a direção fica mais pesada e direta, as suspensões se endurecem e o motor 1.5 entrega potência suficiente para que as curvas rápidas sejam devoradas com incrível estabilidade. Dependendo do modo de visualização escolhido no painel, duas pequenas luzes verdes surgem no quadro de instrumentos quando o motor atinge 4.000 giros. Em seguida vêm algumas luzes amarelas e é preciso fazer a troca de marcha antes de surgirem as luzes vermelhas. Seria mais fácil conduzir esportivamente se o conta-giros, que circula a parte de cima do cluster, não fosse tão confuso – são tantos elementos vermelhos que fica difícil identificar onde começa a verdadeira faixa vermelha (6.500 rpm).

Além do indicador de troca de marchas, o quadro de instrumentos do Civic Si permite visualizar mais 11 itens: pressão no acelerador/freio, pressão do turbo, força G, cronômetro, consumo/alcance, velocidade média/tempo total, bússola, validade do óleo em km, áudio, telefone e mensagens. Para um carro esportivo, é pena que a Honda não tenha reposicionado os marcadores de combustível e temperatura do motor (estão nas laterais do quadro de instrumentos, como no Civic sedã) para que pelo menos um dos outros itens ficasse visível enquanto se utiliza as luzes indicadoras de troca de marcha (ou até o contagiros ficasse mais visível).

Já o cluster digital do Golf GTI tem desenho mais convencional, com ponteiros nos dois círculos – contagiros à esquerda, velocímetro à direita. A velocidade máxima e a marcha utilizada também ficam visíveis dentro desses círculos. Na parte central o motorista pode optar por cronômetro (com tempo da última volta e da volta mais rápida), consumo médio, distância do carro à frente, navegador, áudio, telefone, avisos sobre o estado do veículo ou o ajuste do visor, substituindo a marcha e a velocidade por consumo/autonomia, consumo médio, altitude/bússola ou assistência à condução.

O bancos do Golf GTI podem ser de couro (opcionalmente), mas não abraçam o corpo lateralmente como os do Civic Si. Conduzindo, o motorista do VW tem um volante muito mais bonito, delicado e fácil de manejar com os dedos, porém a posição de dirigir não é tão esportiva. O GTI é mais alto e mais curto, de forma que a sensação não é a de estar em um esportivo, mas sim em um carro com muita potência. Ao contrário do Si, o GTI conta com borboletas para trocas de marcha manuais – e nem de longe isso pode ser considerado um item a menos de esportividade, pois até carros de Fórmula 1 já aboliram o câmbio manual. E esse câmbio DSG do Golf é excelente, com trocas rapidíssimas, facilitando muito a condução de quem não é piloto profissional ou exímio ao volante.

Com um câmbio moderno e 22 cavalos a mais no motor, o GTI é 4 décimos de segundo mais rápido do que o Si e “faz 0-100 km/h em 7 duro”, como se diz na linguagem das pistas. Basta pisar que ele responde. O que realmente pesa contra o Golf GTI é o fato de a perna direita do motorista bater no console central. Por ser mais curto e mais alto, ter um banco ligeiramente mais raso e os pneus um tantinho mais estreitos, além do excesso de informação no quadro de instrumentos, o GTI não passa ao motorista tanta esportividade quanto o Si, embora seja até mais rápido e tenha um ronco mais esportivo.

Por todas essas características, podemos dizer que o Civic Si e o Golf GTI se completam.
O motor do Golf cairia bem no Civic. A interface da multimídia do Golf também deixaria o Civic melhor. Já o freio de mão eletrônico do Si substituiria com louvor a antiquada alavanca do GTI. Os pneus mais largos do Si deixariam o GTI ainda mais no chão, bem como o banco mais esportivo do Honda melhoraria o Volkswagen. Quanto à decisão de compra, o Golf GTI tem a grande vantagem de partir de R$ 143.790, enquanto o Civic Si custa R$ 162.900. Porém, o Honda vem completo, enquanto o Volks com o mesmo nível de equipamentos passa a custar R$ 163.690 (veja tabela “Equipamentos”).

Nesse tira-teima, o Civic Si e o Golf GTI ficaram com a mesma nota: 4,1 de 5 pontos possíveis. O Honda ganhou em consumo e prazer ao dirigir; o Volkswagen venceu em câmbio, desempenho e segurança. Para quem busca um carro familiar com grande desempenho, o Golf GTI é mais indicado. Para quem busca um carro exclusivo, que entregue esportividade e prazer ao dirigir, a melhor compra é o Civic Si. E para que não reste dúvida sobre nossa preferência, devemos dizer que sentiremos mais saudade do Honda, pois carros como o Golf GTI podem ser mais facilmente encontrados do que carros com o conceito do Civic Si, com seu câmbio manual, sua estética insinuante, seu aerofólio imponente e sua prazerosa condução.

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