Comparativo: JAC T40 vs. Onix Activ, Sandero Stepway e HB20X

Portas de entrada para o mundo dos “SUVs”, os já tradicionais hatches aventureiros são desafiados pelo novato JAC T40. E, pela primeira vez, um carro chinês vence um comparativo da MOTOR SHOW

Todo mundo quer um SUV. E quem não pode comprar um, vai de hatch aventureiro mesmo. Dos legítimos utilitário-esportivos eles não têm praticamente nada, mas nessas versões com visual “off-road” e suspensões mais elevadas e reforçadas, eles encaram com mais competência e valentia uma eventual estrada de terra ou, com maior frequência, os buracos e valetas das cidades e estradas. Essa já tradicional subespécie automotiva tem como principais atrativos o tamanho compacto, vantajoso no uso urbano, e principalmente o preço mais baixo. São a porta de entrada para o “mundo dos SUVs”.

Juntamos aqui os três aventureiros mais atraentes vendidos hoje por menos de R$ 60.000: Hyundai HB20X, Renault Sandero Stepway (que acaba de ganhar nova versão de entrada) e Chevrolet Onix Activ. Há outras opções no mercado, umas menores, outras já ultrapassadas e ainda algumas caras demais, como o VW CrossFox e o próprio HB20X Premium das fotos, que passam de R$ 70.000 – mas aí já dá para começar a pensar em Ford EcoSport, Hyundai Creta, Jeep Renegade & cia.

Mas a grande novidade dessa disputa é o chinês JAC T40, que chegou no mês passado para desafiá-los – mesmo não sendo um hatch. Na verdade, ele nasceu em 2012 como tal, mas no caminho a marca escutou o mercado e o transformou em um “SUV”, elevando o capô, deixando seu para-brisa mais vertical e reforçando (e também elevando) a suspensão. Assim, o JAC tem um visual bem mais imponente, ficando muito mais próximo de um verdadeiro utilitário-esportivo do que dos tradicionais hatches aventureiros –e por isso já começa essa briga com uma boa vantagem (faltaram só molduras plásticas nos para-lamas, quase obrigatórias nos seus alvos, que aumentam a “robustez visual”).

CABINE E CONTEÚDO

Na cabine, mais uma vantagem do T40. Com 4,13 m, é quase 20 cm maior que HB20X e Onix e 7 cm maior que o já encorpado Sandero (quase um hatch médio). Curioso é que mesmo sendo dono do menor entre-eixos, o JAC tem mais espaço para os joelhos de quem viaja no banco traseiro, seguido de perto pelo Sandero. Onix e HB20X são mais compactos. E se o porta-malas do chinês não é enorme, empata com o do Renault, o maior entre os aventureiros (a JAC declara 450 litros, mas é a medida até o teto, que não consideramos).

O T40 ainda reverte a má-fama dos chineses e oferece o melhor acabamento. Enquanto os rivais têm painel e portas cobertos de plástico duro, no máximo com detalhes em tecido, o JAC tem partes de couro. Sandero e Onix são os mais simples: o primeiro tem bancos com trilhos expostos e outros detalhes típicos de carros de baixo custo, o segundo é criticado pelo cluster “de moto” e pelo excesso de plástico (em parte coloridos de laranja nessa versão). O HB20X Style é um pouco mais caprichado, mas ainda fica distante do T40.

A lista de equipamentos do chinês também é mais farta. É verdade que faltam couro nos bancos, fechamento automático dos vidros ao travar o carro e um computador de bordo completo (não indica autonomia), mas, entre outros itens, tem faróis automáticos, luzes de conversão estáticas, ajuste de altura dos faróis, câmera frontal (grava tudo à frente do carro) e luz diurna (a única DRL de verdade, que atende à lei; o Onix e o HB20X Premium tem LEDs apenas decorativos).

Sandero e Onix têm pacotes intermediários, cada um deles apostando em itens diferentes. Destaque para o ar-condicionado automático, exclusivo do Renault – o do T40 pelo menos tem oito velocidades, eliminando o dilema muito forte/muito fraco dos demais. Já o HB20X decepciona, limitando muitos itens à versão Premium – mas nem ela tem piloto automático, que os rivais trazem e hoje é um item essencial. O T40 ainda se destaca pela segurança, pois é o único com controle de estabilidade, auxílio em rampas, cinto de segurança central traseiro de três pontos e isofix para cadeirinhas – esse último item presente apenas nele e no HB20X (confira os detalhes na tabela “Preço das peças”).

Por menos de R$ 60.000, só o Sandero Stepway Expression e o HB20X Style não têm central multimídia – presente na versão Dynamique do primeiro e opcional no segundo. Os melhores sistemas são do Onix e do HB20X, fáceis de usar e compatíveis com Android Auto/Apple CarPlay – mas a tela do Hyundai é mal-posicionada e difícil de ver quando bate o sol. A do Renault fica devendo em conectividade, mas ao menos tem mapa off-line e o interessante recurso que avalia como você dirige e ensina a economizar. Só aqui o T40 fica na lanterna: a central é boa e tem ótimos alto-falantes, mas a interface ainda precisa melhorar um pouco e não há navegador por GPS.

AO VOLANTE

Apesar da cara de SUV do T40, ao volante quem mais parece com um é o Sandero – para o bem e para o mal. As suspensões transmitem mais robustez, reclamando menos dos buracos e trabalhando em quase absoluto silêncio (quando dá batidas, elas são abafadas). Por outro lado, seu rodar é firme demais e a direção (única eletro-hidráulica) é lenta e pesada, lembrando um SUV “raiz” – o que é ruim no uso urbano. Os bancos são confortáveis, mas a posição de dirigir não é boa.

Já o motor 1.6 tem boa disposição em baixas rotações, funcionamento “liso” e ainda conta com start-stop (desliga e religa o motor em paradas) e regeneração de energia de frenagem para reduzir o consumo urbano. Na estrada, porém, consome o mesmo que na cidade, sendo o mais gastão: uma sexta marcha reduziria os giros (a 120 km/h são 3.250 rpm) e resolveria a questão (mas o ideal seria trocar a caixa toda, que tem alavanca com curso muito longo e engates imprecisos).

No HB20X é mais fácil achar uma boa posição ao volante, pois é o único com ajuste também de profundidade. Seu motor 1.6 é o mais potente e o câmbio manual de seis marchas tem engates bons, ajudando a poupar na estrada (a 120 km/h ele segue a 2.800 rpm). A direção elétrica dessa versão aventureira é leve (até demais) para o uso urbano, porém bastante precisa na estrada. O Hyundai é prazeroso de guiar, mas como aventureiro urbano as suspensões decepcionam. São macias e têm boa altura do solo, mas transmitem muito ruído para a cabine e aparentam certa fragilidade ao encarar a buraqueira nas cidades e estradas.

No Onix também é fácil encontrar uma boa posição de dirigir, graças ao volante bem posicionado. A direção tem ótimo acerto e as suspensões são um pouco duras, é verdade, mas até trabalham em relativo silêncio. O problema é que elas não são tão elevadas (o Onix tem 15 cm de vão livre, contra 18 do T40, 19 do Sandero e 20,6 do HB20X), então o Chevrolet raspa mais em valetas. Já o motor 1.4 é o mais fraco: seu consumo é contido e na cidade o fato de ter 8V garante agilidade, mas com o carro carregado e/ou em retomadas na estrada, o desempenho decepciona – e é preciso trabalhar bem com o câmbio manual de seis marchas.

E aí chegamos ao T40. Mesmo sem ter ajuste de profundidade do volante, a posição de dirigir é muito boa (novidade para modelos chineses). A direção é precisa e tem ótimo retorno, mas as suspensões não passam a mesma sensação de robustez que se vê no Sandero, e embora não sejam tão silenciosas quanto as dele, são bastante macias e proporcionam mais conforto. Seu motor 1.5 tem quase a mesma potência do Hyundai e é elástico. Fica áspero em esticadas, mas como trabalha bem em baixas rotações, permite antecipar as trocas de marcha (como nos rivais, há indicador que mostra o melhor momento para fazê-las, com a vantagem de sempre indicar no painel a marcha engatada).

A embreagem é leve e os engates do câmbio são macios e precisos, mas quarta e quinta marchas têm relações longas para reduzir o consumo, então em retomadas às vezes é preciso reduzir para terceira. Uma sexta marcha solucionaria melhor a questão e ainda diminuiria os giros do motor: a 120 km/h, são 3.200 rpm, mas graças ao ótimo isolamento acústico mal se ouve ele funcionando, e rodando na estrada o T40 é o mais silencioso dos quatro. Pena que as respostas do acelerador não sejam tão progressivas quanto as do freio: às vezes o T40 responde com um incômodo tranco.

PÓS-VENDA

É verdade que a JAC tem uma rede de concessionárias limitada e que alguns de seus modelos anteriores se desvalorizaram muito. Mas, para encorajar o consumidor que ainda tem receio de comprar um carro chinês, a marca dá garantia total de seis anos para o T40, oferece peças de reposição com valores similares aos da concorrência e cobra pelas revisões só um pouco mais que as marcas nacionais (veja tabela “Ficha técnica”). Quanto à desvalorização, a do T40 deve ser menor que a dos demais JAC, pois, ao menos teoricamente, ele ficará definitivamente no mercado. Já os hatches aventureiros não se distinguem muito nos valores de pós-venda, mas o Hyundai tem garantia de cinco anos, o Chevrolet tem a maior rede e o Renault tem peças mais baratas.

CONCLUSÃO

Se a disputa fosse só entre os tradicionais hatches aventureiros, Onix Activ e HB20X ficariam na lanterninha – o Chevrolet seria a escolha para quem prioriza preço e equipamentos e roda principalmente na cidade, o Hyundai seria a melhor compra para quem dá mais importância à segurança e ao desempenho e roda mais na estrada. Mas o Stepway ganharia de ambos por oferecer uma lista de itens de série similar à do Onix (ou um pouco menor por um preço também menor, no caso da configuração Expression) e um desempenho praticamente idêntico ao do HB20X – tudo isso com suspensões mais robustas e silenciosas para encarar a buraqueira e, principalmente, uma cabine e um porta-malas mais espaçosos.

Mas a vitória aqui acaba ficando com o estreante T40, que, graças à sua proposta de “SUV de verdade”, é maior e mais imponente que os rivais (e também mais bonito, mas aí é uma questão de gosto). O estreante da JAC é leve e agradável de guiar na cidade, confortável na hora de encarar buracos ou estradinhas de terra e tem a cabine mais agradável para quem costuma passar horas no trânsito. Para completar, ainda é o mais barato: são mais de R$ 3.000 de diferença para o Stepway no pacote completo. Sim, os chineses chegaram lá!

PREFERE AUTOMÁTICO?

Agora, se você considera o câmbio automático fundamental, a escolha terá que ser entre os dois lanterninhas. Isso porque o T40 só terá versão automática (CVT) em poucos meses e o Sandero Stepway oferece só a transmissão automatizada Easy’R, com embreagem simples e trocas lentas e com trancos. Só opte pelo Renault se o espaço interno for realmente fundamental para você. Caso contrário, recomendamos escolher entre o Onix e o HB20X, ambos com boas caixas automáticas tradicionais de seis marchas e opção de trocas sequenciais. Nesse caso, o Onix Activ sai por R$ 65.250 e o HB20X Style, já com multimídia, por R$ 65.945. Fique com o primeiro se prioriza equipamentos e com o segundo se prefere desempenho.