Crossovers desafiados

Este tem sido o ano dos crossovers. Com três grandes lançamentos na categoria (Honda HR-V, Jeep Renegade e Peugeot 2008), os consumidores brasileiros foram em massa para os primos dos SUVs e fizeram esse nicho sobreviver com menos dificuldade na crise econômica. A queda de venda dos SUVs/crossovers foi de apenas 5,6%, comparando o primeiro semestre de 2015 com o de 2014, enquanto as vendas de automóveis de passeio despencaram 20,6%. Em números exatos, a venda de SUVs/crossovers caiu de 141.648 para 133.664 e de carros normais recuou de 1.186.814 para 942.302.

Mas até que ponto vale a pena comprar um crossover? Será que eles realmente são superiores aos automóveis de passeio tradicionais? Será que os consumidores não estão sendo apenas emocionais em suas escolhas? Para tirar essa dúvida, reunimos três representantes da velha guarda sedã/perua/minivan para desafiar os novos crossovers. A ideia foi fazer uma análise racional, com foco na utilização do veículo por uma família. Por isso, escolhemos nove equipamentos que consideramos obrigatórios nesses carros e os destacamos em ícones (abaixo) para facilitar sua comparação.

Nas páginas seguintes, o Peugeot 2008 Griffe 1.6 MT (R$ 71.290) enfrenta o Chevrolet Spin LTZ 1.8 AT (R$ 71.390), o Jeep Renegade Longitude 1.8 Flex (R$ 80.900) encara o Volkswagen Golf Variant Comfortline 1.4 (R$ 88.370) e o Honda HR-V LX 1.8 (R$ 77.400) pega o Nissan Sentra SV 2.0 (R$ 75.990). Depois dos três comparativos, publicamos as fichas técnicas dos seis combatentes, os preços das principais peças e os custos com revisões até 30.000 km. Leia e tire suas dúvidas!

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Peugeot 2008 ou Chevrolet Spin?

Um crossover com apelo esportivo e uma minivan com muito espaço interno colocam frente a frente duas visões de carro familiar

Por Rafael Poci Déa

O que um crossover e uma minivan têm em comum? Muito. Embora o Peugeot 2008 e o Chevrolet Spin tenham estilos distintos, ambos têm propostas similares: levar a família oferecendo amplo espaço interno e um bom porta-malas. Os dois são montados sobre plataformas compartilhadas – o Spin é feito sobre a do sedã Cobalt e o 2008 utiliza a do compacto 208. Por dentro, o Spin aproveita o máximo de espaço, oferece mais sensação de amplitude e um compartimento de carga maior, além de transportar até sete passageiros na versão LTZ.



O Peugeot 2008 Griffe tem um painel diferente. O volante de raio pequeno fica mais embaixo. O quadro de instrumentos é completo e a central multimídia já tem GPS

Nossas medições internas confirmaram a sensação: o Chevrolet é muito mais alto (98 cm do assento ao teto, contra 90 cm do Peugeot) e sua porta traseira abre bem mais (66 cm contra 53 cm). Na distância horizontal de porta a porta eles se equivalem, mas ainda assim o Spin ganha: 130 cm contra 129 cm. Na linha 2016, o Spin tem a cabine predominante em preto e novos tecidos. Sua posição de dirigir é mais elevada – um dos itens que atraem os consumidores de SUVs/crossovers.



O Chevrolet Spin LTZ carrega até sete pessoas, tem câmbio automático e o painel é convencional. O quadro de instrumentos é pobre e a central multimídia não tem GPS

Mesmo assim, o Peugeot 2008 traz interior mais sofisticado, com materiais agradáveis ao toque, volante de raio reduzido e bancos revestidos de tecido e couro. Sua posição de dirigir é tão baixa que às vezes nem parece ser um crossover. E o seletor de terreno (que poderia ser um diferencial do 2008) só está disponível na versão turbinada THP (R$ 8.300 mais cara). Gadgets, como central multimídia, são encontrados nos dois carros e a interface do Spin é até mais fácil de operar. Seu grande pênalti é não oferecer navegador (disponível desde a versão de entrada do 2008).

Para ter acesso ao GPS na tela multimídia, o condutor do Spin terá que baixar o aplicativo BringGo por meio de seu smartphone. A minivan tem um motor 1.8 8V mais antigo (derivado do 1.4 do Onix) e com menor potência (104/108 cv) do que o 1.6 16V do crossover (115/122 cv). Entretanto, na faixa de preço comparada, o Chevrolet oferece transmissão automática de seis marchas (pacote R9E), que passou a ser de segunda geração, proporcionando trocas mais suaves e rápidas. O 2008 Griffe dessa faixa tem câmbio manual de cinco marchas (com engates precisos, apesar do curso longo da alavanca).

Quem optar pelo câmbio automático (de quatro marchas) terá de desembolsar mais R$ 3.700. São dois modelos familiares, mas a dinâmica é mais bem acertada no 2008, devido às suspensões mais firmes, com pouca inclinação da carroceria nas curvas. Aliado à sua melhor dinâmica, o Peugeot 2008 também mostrou mais vocação para terrenos ruins. Suas rodas têm aro 16 com pneus de uso misto, enquanto as do Spin têm aro 15 vestidas por pneus de asfalto.

E, se os dois modelos pecam por não oferecer isofix para cadeirinhas, o 2008 pelo menos se redime ao entregar airbags laterais, controle de tração/estabilidade e teto solar panorâmico (itens importantes num carro familiar). Com interior mais espaçoso, posição de dirigir elevada e porta-malas muito maior, o Spin cativa consumidores que buscam os atributos de uma minivan. Mas, pela carroceria mais atual, pelo sistema multimídia completo (já na versão de entrada), pelos itens de segurança e por entregar maior potência com menor consumo, o 2008 venceu o primeiro combate. Vale a pena comprar o crossover!

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Jeep Renegade ou VW Golf Variant?

Um autêntico jipinho e uma autêntica perua se alternam nas regalias que oferecem para uso na cidade ou na estrada

Por Sergio Quintanilha

Renegade é o mais “SUV” dos novos crossovers. Por isso, preferimos escolher a versão topo de linha com motor flex 1.8 (Longitude) para concorrer com o Golf Variant, que chegou para ressuscitar o mercado de peruas. A versão escolhida foi a Comfortline, mas as fotos externas são da Highline (bem mais cara). Embora a diferença de preço entre o Jeep Renegade Longitude 1.8 e o VW Golf Variant 1.4 seja de R$ 7.470, os dois carros têm proposta semelhante: familiar com apelo esportivo.



O Jeep Renegade Longitude é bem alto e traz um interior impecável. Seu quadro de instrumentos é completo e o sistema multimídia tem navegador e até câmera de ré

Da nossa lista básica, ambos já vêm com câmbio automático (automatizado de dupla embreagem no Volks) e sensor de estacionamento (com câmera de ré no Jeep), isofix, controle de tração/estabilidade (mais anticapotamento no crossover) e assistente de partida em subida. A perua tem ainda airbags laterais (opcional de R$ 3.000 no Renegade) e sistema start-stop (bem que o crossover precisava). O teto solar panorâmico é opcional em ambos: custa R$ 6.700 no Jeep e R$ 5.353 no Volkswagen.



O VW Golf Variant Comfortline tem o rack de teto preto (na foto é um Highline) e um belo painel. O quadro de instrumentos é perfeito. A central multimídia não tem GPS

A grande vantagem do Renegade é já vir com navegador. No Golf Variant ele faz parte do pacote Exclusive, que custa R$ 8.979. Para compensar, a perua tem bloqueio do diferencial e um porta-malas duas vezes maior: 605 litros contra apenas 260. Menos mal que, com os bancos rebatidos, o bagageiro do Renegade chega a 1.300 litros (lembrando que o da perua também rebate). O Golf Variant tem o motor mais econômico dos três comparativos (nota B), mais potência (8/10 cv extras), maior torque (25,5 kgfm a 1.500 rpm contra 18,6/19,0 kgfm a 3.750 rpm) e excelente dinâmica para quem gosta de dirigir rápido.

O Renegade 1.8, entretanto, mostrou-se muito mais prático de ser usado na cidade – é mais fácil de estacionar, não raspa o tempo todo nas depressões do piso, oferece uma posição de dirigir bastante elevada, tem o banco traseiro 4 cm mais largo (132 cm) e maior abertura das portas de trás (64 cm contra apenas 54 cm). A perua Variant, surpreendentemente, é mais alta do assento do banco traseiro ao teto (95 cm contra 90 cm). Como o motor 1.8 flex do Renegade não é tão eficiente quanto o 1.4 TSI a gasolina (turbo com injeção direta), a Jeep regulou sua melhor performance para pouca pressão no pedal do acelerador.

Na cidade, em baixas velocidades, isso funciona bem. Basta pegar uma estrada, porém, para o Renegade se tornar um carro cansativo de dirigir, pois é preciso ficar o tempo todo pisando forte no acelerador. Por ser mais baixo, mais veloz e carregar mais bagagem, o Golf Variant foi muito superior em estradas de piso bom e é a melhor escolha para quem viaja bastante. O mercado do Renegade é infinitamente maior. Portanto, as baixas vendas da perua podem ser um mico… ou exclusividade! Já sua desvalorização ao sair da revenda é um pouco menor: 11,1% contra 12,2% do Jeep, segundo a Tabela Fipe.

Carro por carro, a perua foi superior ao crossover – anda mais, consome menos e leva muita bagagem. Entretanto, por ter se saído melhor no dia-a-dia, ter um preço mais acessível e já vir com navegador e câmera de ré, o Renegade pode ser escolhido sem medo por quem privilegia o uso urbano. Mas, se for rodar bastante na estrada, não vale a pena comprar o crossover!

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Honda HR-V ou Nissan Sentra?

Dois japoneses com a mesma potência, consumo semelhante e o mesmo espaço interno na traseira fazem um duelo sem favoritos

Por Sergio Quintanilha

crossover mais vendido do Brasil (mais de 5.000 emplacamentos/mês) encara um dos sedãs mais cobiçados do mercado. Primeiro vamos ao que esses dois japoneses têm em comum. Nas versões avaliadas, o Honda HR-V e o Nissan Sentra têm câmbio automático tipo CVT (continuamente variável), isofix para cadeirinhas de bebê e controles de tração/estabilidade. A potência também é a mesma: 140 cavalos. Eles são parecidos até no que não oferecem nem como opcional: airbags laterais, navegador por GPS, sistema start-stop, teto solar e sensor de estacionamento (que faz muita falta em ambos). No preço, a vantagem do sedã é pequena: R$ 1.410.



O Honda HR-V LX tem um visual sexy, mas o seu interior decepciona. O quadro de instrumentos é simples e a central multimídia tem uma tela pobre e ruim de usar

O que mais interessa às famílias, entretanto, são as diferenças. O HR-V traz de série assistente de partida em subida. Embora a potência seja a mesma, o motor do HR-V é 1.8 e só entrega a cavalaria a 6.300 rpm, enquanto o do Sentra é 2.0 e a potência máxima está disponível a 5.100 giros. Por isso, ele também é um pouco mais econômico (os dois têm nota C no Inmetro). O Honda tem comando variável e tecnologia VTEC (válvulas com abertura ajustável). O Nissan usa o sistema CVVTCS (controle de abertura das válvulas continuamente variável).



O Nissan Sentra SV não atrai no visual, mas é bem equipado, com piloto automático e volante multifuncional. O quadro de instrumentos agrada e o rádio é amigável

Portanto, os dois carros são bons de dirigir. Mas o câmbio favorece o crossover. O CVT do Honda tem sete marchas simuladas (o que agrada muitos motoristas) e o mais importante: tem modos Sport (melhora a performance) e Low (mais segurança em subida e descidas de serras). O Sentra também tem modo Low. Entre eles, algumas vantagens das carrocerias crossovers e sedãs não são tão evidentes. Afinal, o HR-V é um crossover muito baixo (não oferece aquela posição bem alta de dirigir) e a diferença de 66 litros a favor do porta-malas do Sentra não é tão relevante em bagageiros acima de 430 litros.

Na verdade, pela configuração, só o bagageiro do HR-V pode levar uma ou mais bicicletas. E com os bancos rebatidos chega a 1.010 litros. O espaço no banco traseiro é incrivelmente parecido. Pelas nossas medições, o HR-V é apenas 1 cm maior de porta a porta (128 cm) e do banco ao teto (91 cm), e ambos empatam na abertura das portas traseiras (60 cm). Quanto aos demais equipamentos, o Sentra SV 2.0 dá um banho no HR-V LX 1.8. O display multimídia do HR-V é pobre, feio e ruim de operar.

Além de um visor colorido, o sedã da Nissan tem mais dois itens só disponíveis no HR-V EX, que custa R$ 5.000 a mais que o LX avaliado: controle de áudio no volante e piloto automático (também com controle no volante). O Sentra também oferece ar-condicionado digital de duas zonas, só encontrado no HR-V EXL (topo de linha), que custa R$ 13.300 a mais! A vantagem do HR-V é que sua dirigibilidade é tão boa quanto a do Sentra – assim, o fato de ser um crossover baixo conta pontos a seu favor.

Da mesma forma, sem sensores, é mais fácil estacionar um crossover que tem o vidro traseiro como referência do que um sedã que “esconde” o fim da traseira da visão do motorista. Para finalizar, o HR-V é o carro que menos desvaloriza nos três comparativos (8,3% ao sair da revenda) e tem um volume de vendas cinco vezes maior do que o do Sentra. É uma escolha difícil! Mas, pela maior praticidade e pelo desempenho ligeiramente superior, vale a pena comprar o crossover.

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