De como o InovarAuto destruiu o mercado de carros importados

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Chery Celer Sedan: uma fábrica no Brasil para produzir 66 carros num trimestre inteiro. (Foto: Divulgação)

Medidas protecionistas tendem a cobrar seu preço, mais cedo ou mais tarde. É o que está acontecendo com o setor de carros importados. Em 2011, quando o mercado bombava, o então ministro Guido Mantega uniu a fome com a vontade de comer. Ou seja: uniu sua convicção pessoal de que produtos importados não fazem bem ao País com a necessidade das indústrias que se sentiam ameaçadas pela chamada invasão chinesa.

Simplificando a situação e reduzindo-a ao âmbito do mercado automotivo, Mantega foi a figura fundamental na criação do programa InovarAuto. Ele surgiu basicamente para barrar os carros chineses. Na época, a venda de automóveis de passeio e comerciais leves atingiu 3,355 milhões, sendo 783 mil importados. Os chineses somaram 105 mil. Todas as empresas passaram a ter cotas de importação. Quem vendesse acima da cota passaria a pagar um excedente de 30% nos impostos. Isso num país onde a taxa de importação já estava no patamar máximo aceito pela Organização Mundial do Comércio: 35%.


Havia, claro, um objetivo nobre nisso tudo. Motivar as marcas a produzir no Brasil e incentivar a busca da eficiência energética, por meio de motores mais econômicos e menos poluentes. Quatro anos depois, o resultado é pífio. Aparentemente, ninguém ganhou, mas muitos perderam e as previsões são péssimas. Considerando só as marcas que estão filiadas à Abeifa (Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores), quatro fábricas foram abertas para produções mensais baixíssimas. Em números de abril: 604 carros da BMW, 101 da Chery, 97 da Suzuki e 39 da Mini.

A venda de importados da Abeifa somou apenas 2.856 veículos em abril, uma queda de 13,9% em relação ao ano passado. No acumulado dos primeiros quatro meses, o recuo nas vendas é de 44,6%. Mas o problema maior não está na queda de vendas dos carros importados, e sim em toda a cadeia de horrores que os 30% adicionais de impostos causam aos patrões e empregados do setor. Afinal, as empresas estão se adaptando ao mínimo necessário para sobreviver.

Com o dólar cotado em R$ 1,95 em 2012, a dupla taxação dos importados ainda era administrável. Agora, com o dólar custando R$ 3,82, os 30% adicionais de impostos não fazem sentido. Por isso, o novo presidente da Abeifa, José Luiz Gandini, iniciou seu quinto mandato na associação pedindo isonomia para os carros importados. Segundo ele, em relação ao panorama de 2011, um ano antes do InovarAuto, o número de concessionárias caiu de 846 para 450, os postos de trabalho foram reduzidos de 35.000 para 13.560 e a arrecadação de impostos para o governo, que foi de 6,5 bilhões há cinco anos, será de R$ 2,1 bilhões em 2016. Ou seja: um governo que busca dinheiro desesperadamente está deixando de arrecadar R$ 4,4 bilhões só com o setor de carros importados.

Gandini tem razão ao afirmar que a taxa de câmbio já é uma barreira suficiente para impedir que haja uma invasão de carros importados no mercado. Afinal, na tentativa de salvar seus negócios, as empresas vêm reduzindo dramaticamente a oferta de carros fora da cota permitida pelo governo: de 77.943 veículos em 2012, recuou para 58.379 em 2013, desceu para 43.462 em 2014, desabou para 11.410 em 2015 e será de apenas 3.243 em 2016, pelas previsões das marcas.

Considerando uma margem de lucro de 2,5% para o fabricante e de 10% para o revendedor, um carro nacional que tenha um custo hipotético de R$ 36.000 é vendido hoje por R$ 66.000 nas concessionárias. Mantendo as mesmas margens e o mesmo custo para o importador, um carro importado deve ser vendido por R$ 96.000. Com a dupla taxação, o preço público desse carro sobe para R$ 162.000. Como o consumidor não vai pagar quase três vezes mais por um carro similar ao nacional, as marcas importadas estão reduzindo a oferta excedente da cota, pois trata-se de uma venda deficitária.

Segundo Gandini, a venda dentro da cota pelos mesmos R$ 66.000 significaria um prejuízo de R$ 25.000. Para não ser deficitário, esse carro deveria custar R$ 96.000. Fora da cota, o prejuízo pode ser de incríveis R$ 83.000 (ou então o carro deveria custar R$ 162.000).

Claro que cada empresa tem sua própria capacidade de reduzir os custos básicos e as margens de lucro também são variadas. Os números apresentados são apenas ilustrativos da complicada matemática. Por tudo isso, a Abeifa fez uma previsão bastante pessimista sobre o total de veículos nacionais e importados licenciados este ano no Brasil: 1,8 milhão. Em 2015, o total de emplacamentos foi de 2,477 milhões.

Um ano antes de vigorar a canetada de Mantega, as empresas filiadas à Abeifa venderam 249 mil carros. Para este ano, a previsão é de vender 39 mil.