Do cockpit ao comando das pickups

A carreira profissional de Raul Boesel sempre foi cheia de surpresas. Ele é, sem dúvida, um dos pilotos com o currículo mais eclético do Brasil. Em seus mais de 30 anos de profissão (ele acaba de completar 50 anos de idade) passou por categorias que variam de carros de turismo e monopostos a lanchas, com atuação no campeonato americano Off-Shore.

Não bastasse a flexibilidade de atividades em diferentes categorias e máquinas, fora do mundo dos motores, o piloto também possui atuações bastante inusitadas. Afastado das corridas desde o final de 2006, quando encerrou sua carreira na Stock Car, Boesel está atuando em outras pistas. Desta vez, as de dança. Isso mesmo, ele virou DJ.

“Me esforço para não ouvir comentários do tipo: ‘como DJ ele é um excelente piloto'”

Apesar da nova ocupação, o piloto ainda participa de provas mais tradicionais, como as Mil Milhas Brasil, porém, sua profissão mesmo deixou de ser ao volante dos carros e passou a ser no comando das pickups. “Quando saí da Stock, resolvi me dedicar ao máximo à musica. Não me arrependo. Estou muito feliz por ter arranjado uma prática que substitui, à altura, a rotina de piloto que levava”, conta Boesel, que ficou sete meses em seu apartamento no bairro do Panamby, na zona sul de São Paulo (SP), tendo aulas de DJ e treinando algumas horas diárias, antes de começar a se apresentar profissionalmente em casas noturnas. Não é a primeira vez que o curitibano muda de foco, e até agora todas essas mudanças têm sido bem-sucedidas. Poucos sabem, mas, antes de qualquer experiência com carros, Boesel fazia bonito nos campeonatos de hipismo. Dos 10 aos 16 anos de idade, esteve bastante envolvido com o esporte, e chegou – acredite! – a ser bicampeão paranaense de hipismo.

Mas as peculiaridades de sua carreira não param por aí. Boesel não começou a se envolver com carros desde pequeno, como a maioria dos pilotos. Foi apenas em meados dos anos 70, época em que abandonou o hipismo, que ele teve seu primeiro contato com as pistas. “Fui a um kartódromo ver um amigo correr. Ele me deixou dar uma volta de kart e foi o bastante para eu perceber que levava jeito para o esporte”, conta.

Depois desse episódio, foi aos poucos deixando as selas de lado para se dedicar mais ao kart. Já no segundo ano como piloto de kart (1975), Boesel levou para casa o troféu de campeão curitibano. Dois anos depois, em 1977, já estava estreando no automobilismo, pilotando um Opala, na corrida de inauguração da pista de Jacarepaguá. Daí para a frente, os resultados foram confirmando a possibilidade de aquele jovem rapaz seguir uma promissora carreira de piloto. E, assim, Raul Boesel pôde sonhar mais alto.

Depois de um período competindo no Exterior em diversas categorias, como Formula Indy, IRL e campeonato mundial de protótipos (abaixo), Boesel voltou para o Brasil justamente para a Stock Car, categoria que lhe serviu de escola em 1979. No alto, o Opala da primeira temporada da Stock e, ao seu lado, o modelo de 2001

No fim do campeonato de 1979, ele já se preparava para correr de Fórmula Ford na Inglaterra. “A última corrida do campeonato de 1979, em Interlagos, era a abertura do Grande Prêmio de Fórmula 1.

De dentro do cockpit, vi Bernie Ecclestone (chefe comercial da F1), e cheguei a pensar em um dia correr de Fórmula 1″, relembra.

Além do automobilismo – paixão descoberta tardiamente, aos 16 anos de idade – Boesel participou de corridas na água (Campeonato de Off- Shore) e de competições de hipismo. Atualmente, participa das corridas automobilísticas mais tradicionais e atua em casas noturnas como DJ

“Acho que contribuí bastante com a categoria, incentivando pilotos que corriam fora a voltar para o Brasil”

Raul Boesel, sobre sua volta à Stock Car depois de uma longa temporada correndo no Exterior

O sonho era alto mas não demorou a se tornar realidade. Três anos depois, lá estava o brasileiro alinhado no grid mais disputado do mundo. Sua atuação na Fórmula 1 durou apenas dois anos, que não foram suficientes para que o piloto mostrasse um desempenho digno de muitos aplausos. Ciente disso, resolveu direcionar sua carreira para o automobilismo norte-americano. E foi lá que teve os resultados mais expressivos de sua trajetória, incluindo o campeonato mundial de protótipos (correndo pela equipe Jaguar), e o recorde de participações nas 500 milhas de Indianápolis, totalizando 13 largadas.

Depois de 16 anos correndo fora do Brasil, Raul Boesel teve uma proposta de um grande patrocinador para voltar ao campeonato brasileiro de Stock Car. Lá encerrou sua carreira no fim de 2006. “Acho que contribuí bastante com a categoria, incentivando pilotos que corriam fora a voltar para o Brasil”, diz.

Atualmente Raul Boesel tem uma agenda lotada de shows como DJ. Toca em casas badaladas e garante que, assim como na pista de corrida, não faz feio na de dança. “Me esforço ao máximo para evitar comentários do tipo ‘como DJ, ele é um ótimo piloto’. Até agora não ouvi nada do tipo”, brinca.

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