A Dodge já foi uma das grandes marcas e símbolos da indústria de automóveis dos EUA, embora hoje suas vendas e sua linha de produtos não esteja muito bem. A Dodge Dakota, saudosa caminhonete que foi fabricada e vendida no Brasil entre 1998 e 2001, chegou a ter uma versão 5.2 R/T, com um legítimo motor V8 small block importado dos Estados Unidos, uma evolução do motor dos Charger e dos Challenger dos anos 1970 e um dos símbolos máximos do american way de fazer carros.

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No mês passado, no entanto, a Ram, que passou de uma linha de picapes da Dodge a marca própria dentro do grupo Stellantis, lançou uma nova Ram Dakota, uma picape chinesa (Changan) aprimorada por franceses (Peugeot), italianos e brasileiros (Fiat), e que agora “renasce” com motor a diesel de origem italiana e produção argentina. Puro suco de globalização.

A Dodge Dakota R/T tinha um motores americanos, incluindo um V8, símbolo máximo do american way de fazer carros  – Foto: divulgação

Dentro desse processo de globalização, a base da nova Dakota ser chinesa só reforça a enorme força que a China tem no mercado de automóveis – que vem de diversos fatores, entre eles a estratégia e o excelente planejamento de longo prazo do governo chinês, que “obrigou” as marcas estrangeiras a estabelecer joint-ventures com as chinesas em um processo no qual extraiu muito know-how para fazer decolar suas próprias marcas.

Como consequência desse processo, vemos claros sinais de evolução da qualidade dos carros chineses, o que passa a ser também causa do próprio crescimento, por contribuir no processo de aceitação e expansão global (por muito tempo, os carros chineses foram motivo de piada por sua baixa qualidade, como havia acontecido antes com os carros japoneses e coreanos). Mas nada é tão simples assim, pois a qualidade ainda deixa a desejar em alguns pontos e a questão passa também pelo poderio econômico.

São navios próprios lotados de carros para serem desembarcados antes da volta dos impostos, redes que se expandem com concessionárias inauguradas ainda em obras e fábricas compradas de Ford, Mercedes e de quem mais estiver disposto a vender e modernizadas em um ritmo rápido e a qualquer custo. A BYD chegou a “importar” da China problemas trabalhistas – uma das “vantagens competitivas” do país asiático, assim como regulamentações ambientais mais frouxas e métodos como subsídios do governo e outras práticas desleais já detectadas e punidas pela União Europeia.

A Dakota é apenas um dos exemplos

O fato é que, de um modo ou de outro, os chineses estão dominando o setor automotivo mundial. Eles apostam em cabines quase iguais, com muitas telas e poucos botões, e alguns têm suspensões mal adaptadas e macias demais, enquanto rede e serviço pós-venda e disponibilidade de peças ainda são uma incógnita ou, em alguns casos, já começam a mostrar problemas pontuais, de demora a providenciar peças a problemas crônicos no ar-condicionado, em componentes de acabamento, etc.

É óbvio que os chineses ganham mercado rápido, também, por causa da tecnologia embarcada, da eletrificação mais avançada e da fartura de equipamentos a preços extremamente atrativos, que podem oferecer por fabricarem na China e continuarão a oferecer ao fabricarem aqui (por enquanto, estão basicamente com montagem CKD/SKD).

Então, deal with this, Uncle Sam: temos, sim, uma nova picape Dakota com a marca (Dodge) RAM de origem chinesa e com motor a diesel 2.2 italiano, assim como temos SUV elétrico chinês da também americana Chevrolet (Spark), compacto elétrico feito na China e vendido com marcas francesa (Renault Kwid) e romena (Dacia Spring), crossover-SUV compacto chines comercializado com grife sueca (Volvo EX30) ou marca “chinese premium” (Zeekr X) e até SUV de marca premium alemã fabricado na China (BMW iX3).