Ele já foi o cara da Mercedes

BRUNO SACCO

“A BMW se aproximou da Mercedes em estilo. Nesse segmento, a Audi talvez seja a única que se diferencia.”

Durante 41 anos, Bruno Sacco dedicou sua vida a desenhar os modelos da Mercedes. Nascido na Itália, formou-se em engenharia mecânica e iniciou sua carreira trabalhando para os estúdios Ghia e Pininfarina. Pouco tempo depois, em 1958, quando estava com 24 anos, mudou-se para a Alemanha para atuar como projetista da Daimler. Constituiu família e carreira no país. Em 1975, assumiu o comando da divisão de estilo da Mercedes, cargo que ocupou até 1999, quando se aposentou. Por sua contribuição ao setor, o designer foi incluído no Automotive Hall of Fame e no European Automotive Hall of Fame. Atualmente, desenha torneiras para a empresa alemã Hansa. Mais de uma década depois de deixar a indústria automobilística, em entrevista exclusiva, ele dá sua opinião sobre o novo design dos Mercedes e fala dos colegas Giorgetto Giugiaro e Walter de’ Silva.

O senhor ainda presta serviço à Mercedes?

Não. Em 1999 eu me aposentei e, tempos depois, a Hansa, um fabricante de torneiras da Alemanha, me fez uma oferta interessante, que acabou me levando de volta às pranchetas.

Mas, do ponto de vista estilístico, você não tem interesse de projetar para outra marca?

Depois de 41 anos trabalhando em uma mesma empresa, você fica marcado – “mercedizado”, no caso. É uma questão de honestidade com seus futuros contratantes. Depois de tantos anos concentrado em um estilo, tende-se a repetir os mesmos conceitos. Alguns dos meus ex-colaboradores foram trabalhar em outros fabricantes, mas acabaram replicando conceitos e não foram bem-sucedidos. Me admira muito Giugiaro sempre ter conseguido trabalhar para muitas marcas.

O que o sr. pensa de Giugiaro ter abandonado a independência para se unir à Volkswagen?

Ele fez isso para garantir um futuro sem problemas para sua empresa. Mas sempre digo que Giugiaro é o maior de todos nós. E nem mesmo somos particularmente amigos, apenas admiramos o trabalho um do outro.

Se fosse fazer um ranking, quais seriam os melhores designers de carro do mundo?

Veja bem, eu prefiro me limitar apenas ao julgamento do trabalho de Giugiaro, que é largamente positivo.

Os Mercedes atuais agradam ao senhor?

Poderiam me agradar mais. Há elementos de design que são estranhos ao meu modo de pensar. Estou me referindo à quantidade de expressões na carroceria. São carros muito ricos, que querem mostrar que o são. Para mim isso é desnecessário, pois todo mundo já sabe que Mercedes é sinônimo de riqueza e prestígio.

No alto, Sacco posa junto da 190 E, o trabalho do qual mais se orgulha. Acima, o designer observa os esboços do cupê SEC, projetado no início dos anos 1980

Segundo eles, essa seria uma forma de se diferenciar da concorrência – a BMW, por exemplo.

É justamente o contrário. A BMW é que se aproximou da Mercedes em termos de linguagem estilística. Nesse segmento, talvez a Audi seja a única que se diferencia.

Como o sr. vê a escola italiana de design atualmente? Perdeu a tradição histórica?

De certo modo, sim, mas não creio que se possa falar de uma escola de design italiana em relação aos veículos. Não acho que seja uma questão de formação acadêmica. A escola ajuda, mas não é o bastante. Os grandes designers italianos não tiveram educação formal. Eu mesmo aprendi a desenhar no estúdio Ghia. E, para dizer a verdade, surgiram muitas escolas ao redor do mundo, dedicadas exclusivamente ao automóvel, que têm formado designers de grande especialização.

Mas a Alemanha tem uma dívida com os designers italianos. Giugiaro é um exemplo…

Giugiaro é Giugiaro. Não pode ser pego individualmente como exemplo da linha italiana do mundo.

A Volks tem Walter de’ Silva, outro italiano.

De’ Silva fez um ótimo trabalho desenhando belíssimos Alfa Romeo. Já na VW, não sei o que ele tem feito. Ele é o responsável, o chefe de um grande grupo de designers. Eu também era o manager, mas, no final, o carro saía como eu desejava. Não sei se o mesmo acontece com de’ Silva.

O que você pensa do design retrô?

Valer-se da tradição é um recurso justo. O Mercedes E, por exemplo, recuperou elementos dos anos 50. Só não se deve cair no ridículo, tentando fazer uma réplica do triciclo de Benz. Nessa área, pode-se fazer o melhor (a Fiat com o 500) e o pior (a VW com o Beetle).

Por fim, qual a grande diferença entre desenhar carros e desenhar torneiras?

Desenhar uma torneira é como projetar um detalhe do habitáculo de um carro. Você precisa procurar emoção em um objeto bem pequeno. Na grandiosidade de um automóvel, isso é bem mais fácil.

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