05/08/2026 - 14:00
Em abril, fui a Wuhu conhecer novos carros elétricos e híbridos chineses e o centro de desenvolvimento da Omoda & Jaecoo, parte do grupo Chery, e os chineses me questionaram por que o brasileiro considera o pneus sobressalente tão importante, e por estamos reclamando tanto dos carros virem sem estepe. Expliquei que nosso asfalto estava bem longe da perfeição que se vê na China e na Europa.
Na semana retrasada, na comemoração dos 50 anos da Fiat no Brasil, o Fiat 147, modelo que inaugurou a linha de produção por aqui, me trouxe à memória essa discussão que tive com os engenheiros chineses.
A falta do pneu sobressalente está relacionada, em muitos dos híbridos e elétricos chineses como Omoda 5 e Jaecoo 7, Geely EX2 e Dolphin Plus, ao fato de que a bateria ocupa o espaço onde são normalmente guardados — debaixo do porta-malas.
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Voltando a 1976, o Fiat 147 foi lançado tendo, entre outras soluções inovadoras, o motor transversal, que permitiu que o estepe fosse alocado no cofre do motor – liberando o espaço que ele ocupava no porta-malas.
Na época, foi uma solução genial: o 147 era compacto por fora, mas relativamente espaçoso por dentro. Viajávamos em quatro, dois adultos e duas crianças, de São Paulo a Uberlândia, quase 600 km, com malas, comidas, presentes de natal…

Uma velha solução para os novos tempos?
Na China, ninguém reclama de carros sem estepe: o asfalto é sempre perfeito e impecável, e pequenos furos causados por pregos, por exemplo, podem ser facilmente consertados com o kit de reparo — um spray com líquido selante.
No Brasil, porém, a realidade é bem diferente: pegue um buraco na Fernão Dias ou rasgue a lateral do pneu em uma rodovia mal sinalizada, e o tal spray vira apenas uma sujeira cara na roupa (aconteceu comigo, debaixo de chuva, em um domingo à noite)

A ausência do estepe não é, portanto, só uma questão de design de produto — é um problema estratégico das marcas que chegam ao Brasil com produtos globais, mas que não consideram as condições locais.
O futuro da mobilidade elétrica no Brasil precisa de marcas que entendam que “tecnologia” não é apenas softwares com comandos de voz para abrir as janelas e telas gigantes, mas adaptar o produto para quem realmente vai rodar por aqui.
Caso contrário, o consumidor ávido por essa tecnologia corre o risco de ficar parado no acostamento esperando o guincho (como fiquei; leia aqui). É preciso achar uma solução.

Por que a solução do Fiat 147 não é tão simples de adotar hoje?
Muitos leitores podem se questionar por que, se a Fiat resolveu o espaço há meio século, ninguém mais seguiu a receita. A resposta é técnica e passa pelo amadurecimento das normas de segurança.
Os motores de combustão evoluíram, tornando-se fontes de calor intensas. Ter um estepe de borracha ao lado de um turbo de alta pressão traria um grande risco de degradação do material e de segurança.
Na maioria dos híbridos, também há um problema sério de falta de espaço, pois o cofre do motor acomoda, além do motor a combustão e todos os componentes acessórios que ele exige, o motor elétrico, a transmissão híbrida (DHT)…Nos modelos 100% elétricos, já há mais espaço livre: alguns modelos têm cofres de motor que surpreendem por serem “quase vazios”, enquanto outros colocam ali o “frunk” (porta-malas dianteiro). Por que, então, não adaptar ali um estepe?

Questão de segurança: o cofre do motor hoje é um componente estrutural projetado para se deformar e colapsar. Qualquer item rígido lá dentro — como uma roda — interfere na cinemática de um impacto frontal, dificultando a homologação nos testes de colisão.
Colocar uma pneus sobressalente ali elevaria e alteraria a distribuição de peso do veículo, exigindo reforços estruturais no capô/cofre, além de vedação contra poeira e água.

Além disso, em muitos carros elétricos, dependendo do projeto, o espaço dianteiro não é tão “vazio” assim: além de ter o motor do carro, é ocupado por componentes como inversor, carregador embarcado, conversor e sistemas de arrefecimento da bateria.
Rearranjar a eletrônica de potência para acomodar um estepe exigiria um extenso trabalho de redesenho e reengenharia que nenhuma marca parece querer custear, pois o pneu reserva não é um item vital na maioria dos mercados. Mas, no Brasil, é. Como os elétricos vão resolver este problema? Que a criatividade da Fiat sirva de inspiração.
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