Do Gordini capotado para a Inglaterra

Decepcionado por meus pais não me deixarem correr com motos maiores, tentei a sorte na água, com um hydrofoil. Eram barcos estilo catamarã com motores de popa, muito velozes e perigosos. Wilsinho já estava correndo com eles. Uma vez ele atacou uma onda muito rápido, a uns 110 km/h, virou no ar e caiu feio. Não sei como não se machucou. Foi uma lição e ambos decidimos desistir e voltar para a terra seca. Em dezembro de 1963 fiz 17 anos e isso significava que eu já podia correr de kart na temporada de 1964.

Minha primeira corrida para estreantes foi em uma pista nova, no interior de São Paulo, e fico contente de dizer que ganhei. Assim como ganhei várias corridas nesse ano e mais ainda em 1965, quando me tornei campeão brasileiro de kart. Quando fiz 18 anos, queria competições de carros. Comecei com um Renault Gordini em um circuito de rua do Rio de Janeiro, ainda em 1965. De repente, depois de algumas voltas de corrida, fiquei sem freios e entrei em uma curva muito rápido, sabendo que não ia conseguir fazer.

Bati na cerca, dei uma volta no ar e cai sobre o teto, entrando na área dos espectadores da corrida. Milagrosamente, não atingi ninguém. Foi a única vez na minha carreira que capotei. Não me machuquei, mas o Gordini ficou totalmente destruído. Logo depois a Fórmula V foi lançada no Brasil, com monopostos baseados no Fusca. Eu mesmo trabalhei no meu carro, com a carenagem de fibra de vidro fornecida pelo meu amigo Jerry Cunningham, um inglês-brasileiro. Trabalhamos bem juntos e, em 1967, fui campeão de Fórmula V.

Em 1968, Jerry e eu tivemos uma longa conversa sobre o que eu faria em seguida. Sabia que era veloz para vencer corridas no Brasil – tinha provado isso –, mas não tinha a menor idéia se era bom o bastante para competir com os melhores pilotos do mundo, que eram todos europeus, a maioria ingleses. É bom lembrar que eu era um garoto de 21 anos e nunca tinha saído do Brasil. Pessoas como Graham Hill, Jim Clark e Jackie Stewart eram heróis de outro universo.

Jerry disse que eu deveria arriscar e ir para a Inglaterra. Aceitei e, em fevereiro de 1969, voei de São Paulo para Londres. Quando o avião tocou a pista na Inglaterra, eu tinha dois pensamentos: “Que país frio, cheio de fog cinza” e “não posso acreditar que estou na terra de Hill, Clark e Stewart”. Arrepios de emoção correram pelas minhas costas naquele dia. Toda a minha ambição no momento era “se eu puder pelo menos largar em um único Grande Prêmio, isso já vai me fazer feliz, será o bastante”.

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