Escola de pilotos

A celerar um monoposto em Interlagos é o sonho de qualquer apaixonado por velocidade. Grupo, aliás, no qual me enquadro totalmente. Por isso, não pensei duas vezes antes de aceitar a tarefa que daria origem a esta reportagem. A ideia era fazer o curso da escola de pilotagem Alpie e pilotar um fórmula no circuito de Interlagos. A empresa, que atua no ramo desde 1987, já formou grandes nomes do automobilismo como Tonny Kanaan e Antônio Pizzonia.

Acomodado dentro do cockpit, devidamente paramentado e com os cintos bem afivelados, olhava com ansiedade o “S” do Senna a minha frente, enquanto aguardava a liberação para entrar na pista. Antes mesmo de arrancar, senti pingos grossos caírem sobre a viseira do capacete, embaralhando minha visão. Isso mesmo, como sempre em Interlagos, a chuva não deixou de dar o ar da graça. “Vá para o boxe”, foi a ordem do instrutor Emerson Piedade. Para isso, precisei dar a volta na pista toda, debaixo de uma forte tempestade, capaz de mostrar – mesmo com o giro do motor limitado – o quão arisco o carro ficou naquelas condições. Obedeci e sem nem completar a volta entrei para os boxes.


Aos poucos a chuva foi parando, mas a pista estava longe de secar. Saí mesmo assim, adotando um novo traçado, que explorava mais a parte suja, pois a borracha deixada na pista em contato com a água torna o asfalto um verdadeiro sabão. Fui me adaptando melhor ao carro e descobri que o mais peculiar no fórmula era o câmbio. Com apenas quatro marchas, os engates são curtos e bem complexos, muito fáceis de errar. A estabilidade do monoposto também é diferente da de um carro de turismo. É possível ser mais arrojado nas curvas mesmo com o asfalto molhado, mas, por outro lado, quando ele ameaça rodar, as reações precisam ser mais rápidas. Ao contrário do que imaginava, o modelo usado pela Alpie não tem o cockpit tão apertado. Mesmo com alguns quilinhos a mais, me acomodei bem dentro do carro, que tem os mesmos pedais de um modelo de rua, porém dispensa qualquer tipo de conforto.

Aproveitei bem os 40 minutos de aula e me diverti muito descobrindo os limites do carro. Mas, como o tempo não estava a meu favor, deixei as duas últimas aulas para um dia de pista seca. Tive que esperar mais de um mês, pois o autódromo havia sido fechado para receber a F-1. Só na semana seguinte à corrida pude terminar o curso. Acordei de manhã e fui direto abrir a janela. Má notícia: o céu estava escuro e a bendita chuva era torrencial. Não me dei por vencido e, como já havia esperado muito, decidi encarar o molhado e fiz as outras duas aulas nas mesmas condições das anteriores. Fiquei algum tempo andando na pista com um instrutor que, a bordo de outro carro, avaliava se eu estava fazendo o traçado certo nas curvas e, me mostrava o ideal. Apesar de não poder desfrutar de mais velocidade no contorno de curvas, novamente me diverti muito, e o mais importante: aprendi muito. Terminado o curso, me senti realizado e bem satisfeito, mas por outro lado triste, por ter acabado.

À esquerda, o repórter em uma das aulas teóricas, que ensinam desde acertar o carro até obter patrocínio. Logo abaixo, ainda à esquerda, as primeiras instruções práticas e, no alto, o melhor momento do curso

Além de oferecer curso de piloto de competição com carros de turismo, no caso Celta de motor 1.4, a Alpie é a única escola do País que dá a opção de fazer o curso com monopostos. Os carros utilizados têm motor Ford CHT de 90 cv, câmbio de quatro marchas e o mesmo chassi dos que competiram na extinta Fórmula Ford, porém modernizados. Isso porque a escola tem o gabarito do modelo e ela mesma os fabrica, com algumas atualizações. A suspensão, por exemplo, é a mesma usada na F-3.

O curso custa R$ 3.400 (por R$ 900 você pode fazer uma aula teória e rodar 40 minutos na pista, sem direito à receber a carteira de piloto) e é dividido em oito aulas. A parte teórica aborda desde o acerto do carro e técnicas de pilotagem até dicas de como buscar patrocínio. Depois dela, é hora de ir para a pista: a primeira aula é realizada no anel externo do autódromo, para que o aspirante a piloto se adapte aos engates do câmbio. Depois ele é autorizado a acelerar, mas a potência é liberada gradativamente.