“Estamos perto de uma revolução no design automotivo”

Modelo é atualmente o mais caro da marca no Brasil. Foto: Roberto Assunção
O Mercedes-AMG S 63 Coupé é a última criação de Lesnik, que rejuvenesceu a imagem da marca (Foto: Roberto Assunção)

Sempre gosto de conversar com designers automotivos. Eles são muito criativos, claro, e não costumam ter receio ao falar dos modelos de sua marca e dos concorrentes. No lançamento do novo Mercedes-Benz Classe C Coupé tive a oportunidade de conversar com

Robert Lesnik, diretor de design externo dos carros de passeio da Mercedes-Benz – responsável não apenas pelo design do novo C Coupé, mas também do belíssimo S Coupé, além das versões Sedan e Cabriolet do mesmo Classe S, entre outros modelos.

Com passagens pela Volkswagen e pela Kia – onde trabalhou com o badalado Peter Schreyer, participando da criação das belas gerações anteriores do Sportage e do Optima – Lesnik está desde 2009 na Mercedes-Benz. Confira a seguir trechos de nossa conversa, onde discutimos diferentes tópicos – de “family face” aos SUVs-cupês como o novo GLE Coupé e o rival BMW X6, passando por carros autônomos e tendências de design.

FAMILY-FACE E CARROS “IGUAIS”
Questionado sobre as reclamações de clientes e críticos sobre a similaridade excessiva entre diferentes modelos de uma mesma marca, Lesnik disse que “É natural e saudável que haja uma identidade de marca. Hoje a linha Mercedes-Benz está toda unificada, com exceção do Classe E, que será o último a mudar (ganhou um belo facelift que será revelado em janeiro de 2016, no Salão de Detroit). “Em 1982 a Mercedes-Benz tinha três sedãs, e todos tinham a mesma dianteira; só mudava o número de filetes na grade. Depois disso, a marca fez uma grande ofensiva de modelos, a família cresceu, e, com tantos modelos, um era totalmente diferente do outro. E as pessoas também reclamavam”.

Arisco como um leopardo
Mercedes-AMG CLA 45

Sobre a família atual da marca, Lesnik explica que a marca hoje consegue se diferenciar por trabalhar com mais curvas e formas arredondadas que as demais marcas. “Não queremos carros com linhas afiadas, vincadas como nos Audi e nos Volks, por exemplo; eles estão exagerando nisso, enquanto nós estamos seguimos outro caminho”. O CLA foi o precursor dessa nova filosofia de design: “O CLA é do tipo ame ou odeie. E parece que a maioria das pessoas amou, porque está vendendo muito, principalmente nos EUA. Não e nada prático, mas é atraente. Surpreendeu o consumidor, que não imaginava um Mercedes assim. As marcas alemãs aprenderam a seguir filosofias de design, e isso explica seu sucesso”.

AMG-GT
Antes de Paris
“O Mercedes-AMG GT é como o 911, não é intimidador, não parece uma granada prestes a explodir como o antigo SLS com seu tamanho exagerado e suas asas de gaivota; é um carro que dá para ser usado no dia-a-dia. O capô é longo, mas os esportivos da Mercedes sempre foram assim, com proporções ‘invertidas’ – e as linhas arredondadas o deixaram muito mais suave. Como todos os novos AMG, trabalhamos nele com um pouco mais de refinamento, para que não pareçam um carro  ‘tunado’ pelo consumidor”.

SUVs-CUPÊS: BMW X6, MERCEDES-BENZ GLE COUPÉ E CIA.
Questionado por um colega sobre a beleza (ou a ausência dela) no novo GLE Coupé, Lesnik disse que gosta, sim, do carro. Que aprecia as linhas, que elas combinas com as enormes rodas – até aro 22 – e isso é uma vantagem sobre o BMW X6. Mas teria sido ele uma cópia do BMW? As tendências de design são compartilhadas entre designers e fabricantes, seguem mais ou menos o mesmo caminho, Lesnik explica. “Antes de o X6 ser lançado, já havíamos pensado em um modelo similar, mas acabamos tendo de priorizar outro projeto. E, na verdade, quem criou esse conceito não foram eles, mas a coreana SsangYong, com o Actyon”. E o curioso é que quando uma marca pequena como a Ssangyon lançou ninguém deu bola, ele foi até bastante criticado, mas quando a BMW o fez todo mundo adorou [como eu disse há algum tempo aqui nesse blog]. É o bom de estar em uma marca consagrada e tradicional como a Mercedes é que temos mais facilidade para lançar tendências, elas são mais aceitas.”

Galeria de fotos do Salão de Detroit
O controverso GLE Coupé segue o caminho de sucesso…
Novo BMW X6
…já trilhado pelo BMW X6, mas que não foi ele quem criou…
SsangYong
…mas sim o SsangYong Actyon, que no fim ficou se crédito pela ideia inusitada, mas bem sucedida

TESLA
Sobre a badalada marca americana de carros elétricos, Lesnik acha que “a Tesla provou que os carros elétricos podem ser bonitos. Mesmo assim, em termos de design o Tesla S (confira aqui nossa avaliação) é um modelo mainstream, uma mistura de Aston Martin com Jaguar, com uma pitada de Mercedes CLS. Já o Model X (leia mais aqui) não acho atraente, parece um ovo de Páscoa. E aquelas portas de falcão são complicadas, pesadas, caras, difíceis… Será que valem mesmo a pena? Mas é legal que tentem fazer algo diferente”. Sobre o futuro da Tesla, porém, Lesnik tem suas dúvidas: “Ele precisam de mais identidade. O que eles fazem hoje muitas marcas maiores podem fazer – e estão fazendo. A vida da Tesla não será fácil nos próximos anos”.

Tesla
Tesla Model X

OS MAIS BELOS CARROS ATUAIS
Lesnik não é especialmente fã de carros antigos, gosta mais dos modelos atuais. Favoritos? “O 911 que sai de linha agora [997] é um belo carro, com design quase perfeito. Gosto muito também da Renault Espace”, revela. Já dentro da marca Mercedes, a CLS Shooting Brake é um de seus carros favoritos –  é, inclusive, seu carro de uso cotidiano (“Já estou na terceira”, revela, “mas ano que vem vou trocar pelo GLE Coupé”).

CLS 500 Shooting Brake, Lack: designo magno alanitgrau (X 218) 2012
CLS 500 Shooting Brake modelo 2012

OS CARROS AUTÔNOMOS E A REVOLUÇÃO DO DESIGN
“Enquanto não forem totalmente autônomos, os carros terão que ter volante e não sofrerão mudanças radicais de design”, explica Lesnik. Mas quando esses carros forem capazes de se dirigir sozinhos e eliminarem de vez o volante – e os erros humanos – seu design sofrerá uma verdadeira revolução. Ele cita o carro-conceito F015 Luxury In Motion, apresentado na CES em Las Vegas este ano. “Como o carro autônomo não baterá mais, talvez possamos até eliminar todos os airbags. Aí não precisaremos mais de colunas grossas. Além disso, a eletrificação possibilitará ter novidades como um motor em cada roda, por exemplo, e isso revolucionará o aproveitamento de espaço nos carros – e, consequentemente, suas formas. Estamos perto de uma revolução no design automotivo”, explica o designer. E já avisa: “O novo Classe E, vai levar o carro autônomo a um novo nível (não em design, ao menos por enquanto, mas em recursos)”.

Divulgação
F015 Luxury in Motion Concept car: uma visão do futuro do carro autônomo 
Divulgação
Sem ninguém ao volante o carro vira uma sala de estar 

SEU TRABALHO NA MERCEDES
“Quando entrei na marca, em 2009, não havia um único carro que agradasse a um designer jovem como eu; a marca precisava de uma renovação, e foi muito bom participar dela”. E qual o trabalho do qual mais se orgulha? “Eu entrei na Mercedes em janeiro, e em março teriam que bater o martelo sobre o novo Classe S. Havia três projetos concorrendo, e eu não gostava de nenhum. Fui ousado e pedi para me darem um chance; meu design acabou sendo o escolhido, e fiquei muito orgulhoso disso. Fiz as três versões – Sedan, Coupé e Cabriolet”.

Motor será V8 4.7 de 455 cv de potência
O novo S Cabriolet foi criado pelo designer, junto com as versões Coupe e Sedan

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