Quantos aplicativos de recarga diferentes você já instalou no seu celular? Não precisa responder, eu sei que foram muitos. Muitos encaram isso como algo normal, mas imagine se você tivesse que ter um aplicativo exclusivo no seu celular para cada loja, lanchonete, restaurante ou supermercado para poder pagar por suas compras, e que tivesse que cadastrar, colocar créditos (mais do que vai usar) e manter o controle de todos para não ter problemas quando precisasse fazer compras.

Não faria nenhum sentido, certo? Mas é exatamente o que acontece hoje com os carregadores de carros elétricos no Brasil: você vai viajar e acaba com um monte de aplicativos de recarga diferentes instalados. E não é só em viagens: para quem, como eu, não tem a possibilidade de recarregar em casa (moro em um prédio sem estrutura para instalação de wallboxes), a vida com um carro elétrico significa ter vários aplicativos de redes de recarga no smartphone.

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Mais: significa também que, a cada novo carregamento, é preciso conferir diferentes aplicativos para ver a disponibilidade dos carregadores no momento, ativar a recarga e pagá-la. A operação não é unificada em nenhuma das etapas — o PlugShare, um aplicativo independente, pretendia ter todos os carregadores catalogados, mas não serve para pagamentos e não tem recebido muita colaboração dos usuários (ao menos aqui em São Paulo, onde tem informações desatualizadas e incorretas).

Carro elétrico endo carregando em eletroposto (foto: Flávio Silveira)

Se isso é apenas “chato” no dia a dia, pode ser um transtorno em viagens mais longas. Além de ter que planejar onde fazer os carregamentos (e torcer para que os carregadores, ainda em número insuficiente, estejam desocupados), você ainda precisa instalar apps, se cadastrar, configurar o cartão de crédito ou colocar créditos que depois vão “sobrar”… Se deixar para fazer isso tudo na hora, pode perder mais tempo do que já gastaria na carga em si (aconteceu comigo, por bug no app e por informação incorreta da Shell).

E, ainda pior, isso às vezes acontece em garagens de shopping ou em postos de beira de estrada, onde não há sinal de todas as empresas de telefonia celular (já passei por isso; por sorte o carro era híbrido). No fim, a usabilidade é sacrificada por uma burocracia digital desnecessária (na verdade, ela só corta custos para quem vende a energia).

Volvo Car Eletropostos – Crédito: Divulgação

Europa deu um fim nos aplicativos de recarga

Mas saibam que a solução para boa parte dessa inconveniência já existe no exterior: a União Europeia tinha o mesmo problema, e ainda com o agravante de ter países pequenos, e quando se mudava de país em uma viagem a situação era ainda mais caótica. Então, ela decretou o fim da “ditadura dos apps” em 2024, quando todos os novos carregadores rápidos (DC) passaram a ser obrigados a aceitar pagamentos diretos por cartão de crédito ou débito – sem login, sem QR Code, sem programa de fidelidade, nada disso. Carregou, pagou – exatamente como fazemos em outros estabelecimentos comerciais.

A inovação não pode virar uma complicação na vida de seus consumidores. Para o motorista que topou testar o mundo dos carros a bateria, o que importa é a certeza de que, logo após conectar o cabo, seu carro será recarregado sem surpresas desagradáveis. Já basta o tempo do carregamento em si, que ainda é um dos maiores empecilhos hoje à expansão dos carros elétricos. Fica a dica para a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, ou ABVE. Será que podem dar uma força?