Fangio, meu herói de infância

Ganhei o GP da Bélgica duas vezes – com a Lotus em 1972 e a McLaren em 1974 –, sempre no circuito sem graça de Nivelles. Nunca corri em Spa-Francorchamps, e lamento. Spa é rápido e desa ador e espetacular, onde grandes pilotos brilham. A lista dos vencedores em Spa é impressionante: Schumacher seis vezes; Jim Clark, Ayrton Senna e Kimi Raikkönen, quatro vezes cada um; Juan Manuel Fangio e Damon Hill, três vezes…

Não é fácil selecionar os “melhores pilotos de todos os tempos” em Spa. Minha tendência é citar o Ayrton. Ele foi brilhante – hábil para achar aderência em pista molhada ou com óleo, quando outros nem procuravam grip. E Ayrton era um amigo querido, do qual tenho amarga saudade. Respeito os vencedores em Spa, mas há dois que colocaria ao lado de Senna: Juan Manuel Fangio e Jim Clark.

Juan Manuel era meu herói de infância. Nasci em 1946 e Fangio dominava quando eu já tinha idade para me interessar por corridas: ganhou o Campeonato Mundial em 1951, 1954, 1955, 1956 e 1957. E foi em 1957 que eu, um garoto tímido de 10 anos, o conheci. Ele corria com um Maserati 300S em Interlagos e, claro, venceu. Meu pai, Wilson, comentarista de rádio e tevê, me apresentou ao grande homem. Só consegui dizer “oi, seu Fangio”, paralisado de admiração diante daquela lenda viva.

Fui com meu pai ver os carros nas curvas: Juan Manuel era um homem no meio de garotos. O manejo do volante, do freio e do acelerador era limpo, consistente, sem pressa, mas devastadoramente rápido. Foi a única vez que o vi correr e a lembrança permanece. 

Reencontrei Fangio em 1971 no GP da Argentina, ele me mostrou o circuito e conversamos em espanhol. Con rmou sua fama de polido e educado. Nos anos seguintes, eu o conheci melhor nos GPs da Argentina e de Monte Carlo. Eu vivia em Genebra e ele me visitava. Tivemos longos jantares com histórias memoráveis. Uma delas ocorreu no GP da Suíça, em 1954. Numa sexta-feira, depois de classi car seu Mercedes W196 em segundo, Juan Manuel levou sua esposa para passear no circuito. Vindo rápido, um gato preto atravessou a pista e ele o atropelou. 

Como sul-americano, Juan Manuel era supersticioso. Foi dormir preocupado. Não só um gato preto atravessou sua frente, como ele o matou. No sábado da corrida, ele acordou cansado e nervoso. “Mas, quando a corrida começou, esqueci minhas superstições e venci, apesar dos meus medos”, disse Fangio. 

Juan Manuel era meu herói de infância e quei devastado com sua morte, em 1995. Para me consolar, lembrei que meu velho amigo aproveitou 84 anos de uma longa e excitante vida. Na próxima edição, falarei sobre Jim Clark.

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