17/01/2026 - 16:00
A Farus nasceu como um projeto genuinamente familiar, fruto do entusiasmo de Alfio Russo e de seu filho Giuseppe, dois apaixonados por automóveis. O próprio nome da marca reflete essa origem: FA de família e RUS de Russo. Antes de entrar no universo dos esportivos, a família era dona da Italmecânica, uma metalúrgica dedicada à produção de componentes para a indústria alimentícia. A virada de chave veio quando a paixão pelas “macchinas” falou mais alto.
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Farus ML 929: o início
Foi em 1977, na cidade de Belo Horizonte, que começaram os primeiros estudos para a criação de um carro esportivo nacional. Dois anos depois, em 1979, esses projetos se transformaram em protótipos funcionais. Surgia então o Farus ML 929, um cupê fora de série de dois lugares que chamava atenção pelo nível de sofisticação técnica para os padrões da época.

O ML 929 utilizava carroceria de fibra de vidro montada sobre um chassi próprio em formato de duplo Y. A suspensão era independente nas quatro rodas e o motor ficava instalado transversalmente entre os eixos, na traseira. Esse conceito era bastante avançado no cenário dos pequenos fabricantes nacionais, que em sua maioria ainda recorriam à plataforma do Volkswagen Brasília, com motor traseiro refrigerado a ar.
Motor de 147
A mecânica escolhida foi o motor 1.3 do Fiat 147 Rallye, equipado com carburador de corpo duplo e câmbio manual de quatro marchas. Outro destaque técnico, raro entre os fora de série daquele período, era o uso de freios a disco nas quatro rodas.

A proposta mais moderna rapidamente colocou a Farus à frente de seus concorrentes diretos. A produção sob encomenda teve início em meados de 1980, mas o interesse crescente levou a empresa a estruturar uma linha de montagem em série já no ano seguinte. A capacidade era de até 15 carros por mês.
Faróis escamoteáveis e teto-solar
Visualmente, o ML 929 também se destacava. Os faróis escamoteáveis davam ar esportivo ao conjunto, enquanto as lanternas traseiras vinham do Ford Corcel II. Outro diferencial curioso era o duplo porta-malas, com compartimentos dianteiro e traseiro. Na lista de equipamentos, itens pouco comuns no segmento estavam disponíveis, como ar-condicionado, vidros elétricos, bancos revestidos em couro e teto solar, este último reservado às versões mais completas.

TS 1.6
No Salão do Automóvel de 1982, a Farus apresentou uma evolução do projeto. O TS 1.6 mantinha a identidade visual do ML 929, mas atendia ao público que buscava desempenho superior. No lugar do motor Fiat 1.3, entrou em cena o 1.6 do Volkswagen Passat TS, capaz de entregar 96 cv, acompanhado do câmbio manual de quatro marchas do esportivo alemão.

A adoção da mecânica Volkswagen exigiu mudanças importantes no conjunto. O motor passou a ser instalado longitudinalmente, também entre os eixos e na traseira, com o câmbio posicionado atrás do propulsor. Essa configuração ajudava a preservar o bom comportamento dinâmico que já era uma característica do Farus. No TS 1.6, o ar-condicionado tornou-se item de série. Para diferenciar visualmente a nova versão, as lanternas traseiras deixaram de ser do Corcel II e passaram a ser do Volkswagen Voyage.
Beta

A linha ganhou novo capítulo em 1984, novamente no Salão do Automóvel. O Beta foi apresentado com opções de carroceria cupê e conversível. Sob o capô traseiro, o modelo adotava o motor 1.8 do Chevrolet Monza, instalado transversalmente entre os eixos, com possibilidade inédita de câmbio automático. Junto da nova mecânica, o carro recebeu rodas específicas e pequenas alterações no desenho externo.

Em 1986, o motor 1.8 deu lugar ao 2.0, também de origem GM. Já no Salão de 1988, a Farus voltou a utilizar componentes Volkswagen, desta vez com o motor 2.0 carburado do Santana e transmissão manual de cinco marchas.
Quadro
O último projeto da marca foi lançado em 1989. Batizado de Quadro, o modelo buscava inspiração no Audi Quattro dos anos 1980, referência que inclusive deu origem ao nome. Diferente dos Farus anteriores, o Quadro abandonava o conceito de motor central e dois lugares.

O novo carro era mais convencional, com tração dianteira, configuração interna 2+2, chassi tubular periférico e freios a disco apenas no eixo dianteiro. Embora mantivesse uma lista de equipamentos semelhante à dos outros modelos, o Quadro compartilhava poucos elementos visuais com o Beta e já utilizava lanternas traseiras do Volkswagen Gol.

Farus TS 1.6 Gucci e projeto de furgão
A trajetória da Farus também foi marcada por projetos e histórias curiosas. Em 1982, o TS 1.6 ganhou uma série especial desenvolvida em parceria com a grife italiana Gucci. Essa versão se destacava pelo acabamento mais sofisticado, além de contar com som estéreo e sistema de ar quente.

No mesmo período, a empresa chegou a desenvolver o projeto Fargo, que previa versões furgão, picape e van para cerca de 15 passageiros. Esses veículos utilizariam motores Fiat a diesel e seriam destinados à exportação, mas o projeto acabou não saindo do papel.
Quase foi para os EUA

Outra tentativa ambiciosa foi a parceria firmada em 1986 com uma importadora dos Estados Unidos. O plano previa a exportação de um grande volume de carros Farus, todos equipados com motor Chrysler 2.2. A exigência de uma nova estrutura fabril, maior e mais complexa, acabou inviabilizando o acordo. Ainda assim, essa negociação levou a Farus ao Salão de Nova York de 1987. Os modelos apresentados tiveram boa receptividade junto ao público norte-americano, mas, ao final, o negócio não foi adiante.
O fim

Em 1990, a empresa foi vendida pela família Russo a um grupo empresarial paulista. Pouco tempo depois, a reabertura das importações no Brasil atingiu em cheio as pequenas fabricantes de carros fora de série. A Farus não resistiu a esse novo cenário. A falência foi oficializada em 1991, após a produção aproximada de 1.200 automóveis ao longo de sua existência. Com isso, ficaram órfãos os entusiastas que admiravam as soluções técnicas e o espírito artesanal daqueles esportivos brasileiros criados por uma família de origem italiana.
