Parte dos pioneiros da mobilidade elétrica no Brasil está pagando um preço alto por ter escolhido estar na vanguarda. Há três anos, em março de 2023, eles compraram um BYD Song Plus importado da China por R$ 270 mil. Três anos depois, veem o prejuízo na hora que vão trocar de carro. Segundo a Tabela Fipe, a principal referência do mercado, o SUV usado vale apenas R$ 164.409 – uma desvalorização de 39,1% em três anos.

O Caoa Chery Tiggo 8 PHEV, chinês já montado aqui, não ficou muito atrás: chegou com a promessa de ser o híbrido de sete lugares definitivo, mas as constantes mudanças de preço e a renovação rápida da linha em 2025 e 2026 derrubaram o valor do modelo 2023. Vendido novo em março de 2023 pelo mesmo valor do BYD (R$ 269.990), agora ele vale na Fipe R$ 166.832 – uma perda quase igual, de 38,2%, em três anos.

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Tiggo 8 PHEV – Foto: Caoa-Chery/divulgação

Para comparação, vamos analisar um carro de valor similar de uma marca que costuma ser referência em liquidez no mercado e baixa desvalorização: a Toyota. Um Corolla Cross Hybrid comprado no mesmo mês por R$ 210.990 hoje vale R$ 169.091. Uma desvalorização de 18,7%, dentro do normal para um SUV médio em meio a esse cenário de guerra de preços, embora bem maior do que o esperado para um Toyota – e já veremos a explicação para isso.

Voltando ao BYD Song Plus, a marca tem um programa de recompra garantida, mas paga “até 80% da Fipe”. Aplicando esse percentual sobre uma Fipe já baixa significa que a BYD pode oferecer até R$ 134 mil pelo carro na troca por um zero – apenas a metade do valor original, e você terá que pagar mais R$ 100 mil para ter o “novo”. Ao menos apuramos que, no caso de alguns clientes que reclamaram, eles pagaram 100% da Fipe na troca por um modelo novo e até deram algumas revisões grátis – o que aliviou o prejuízo, mas não o anulou (e só foi feito devido a protestos dos proprietários e à repercussão negativa).

BYD Song Plus – Foto: BYD/divulgação

Esse fenômeno de baixa nos preços foi resultado do planejamento chinês e de manobras para trazer o máximo de carros possível, com navios próprios inclusive, antes do aumento do imposto de importação, que voltará aos 35% originais em julho próximo. E também, claro, da agressiva política de preços da BYD, que não teve como não ser respondida pelas marcas mais afetadas pelo ataque.

Algumas marcas tiveram que contra-atacar com armamento mais pesado ao ataque de BYD e GWM, pois foram mais atingidas por terem SUVs na faixa de R$ 200 mil. Jeep, Caoa Chery e Toyota estão entre os destaques, e por isso servirão de parâmetro aqui.

Tabela de Desvalorização SUVs 2023-2026

O “case” da GWM

Já a GWM, outra chinesa, se destaca por também ter chegado no ataque, mas conseguiu livrar a enorme maioria dos clientes da desvalorização exagerada. A perda de valor até ocorreu, mas em menor nível que nos BYD, só com as primeiras versões dos Haval H6 e H6 GT, e hoje alguns SUVs usados da GWM perderam menos valor que o Toyota Corolla Cross – ou uma porcentagem bem similar, dependendo do período considerado e do ano/modelo analisado.

Diferentemente do BYD Song Plus, que teve uma queda acentuada de valor nos últimos três anos, os GWM retiveram mais valor. O Haval H6 HEV era vendido como modelo 2024 em março de 2023 por R$ 209 mil, e vale hoje, na Fipe, R$ 174.173, mostrando uma desvalorização de apenas 16,7% em três anos. Já o H6 PHEV Premium, comercializado na mesma data por R$ 269 mil, vale hoje R$ 203.411, com uma desvalorização de 24,4% – só perdendo para o Corolla Cross e o Haval H6 HEV.

GWM Haval H6 HEV Série Especial - Foto: divulgação
GWM Haval H6 HEV Série Especial – Foto: divulgação

Enquanto isso, o GWM Haval H6 PHEV19, um pouco mais recente no mercado (lançado em 2024), já mostra uma curva de depreciação bem menor, se compararmos o preço de lançamento com os valores atuais da Tabela Fipe para os seminovos.

Um dos motivos é que o Song Plus já enfrentou o ciclo completo de “envelhecimento” de três anos, principalmente com a chegada de novas versões que derrubam o preço do antigo. Enquanto isso, a GWM não fez promoções absurdas e ainda aumentou os preços de seus zero-quilômetro agora em 2026 (o HEV2 subiu para R$ 223 mil e o PHEV19 para R$ 248 mil), o que ajudou a “segurar” o preço dos usados: o carro novo fica mais caro, puxando a Fipe do seminovo para cima.

Recuo estratégico

Mesmo sendo de uma marca que tem fama de baixa desvalorização, o Toyota Corolla Cross XRX Hybrid também perdeu um bom valor – 18,7% em três anos, menos da metade do percentual do Song Plus, mas ainda bastante para um japonês. Culpa dos chineses “roubando” seus clientes.

Corolla Cross 2025 – Crédito: Divulgação

A desvalorização de outros SUVs também foi acentuada, nos modelos a combustão, pela obsolescência tecnológica frente aos híbridos. Então, para a Jeep, foi pior: o Compass S T270 (flex) desvalorizou 32,3% no mesmo período – mas essa perda de valor não foi “natural”, e sim uma reação direta à pressão dos chineses.

Explico: em 2023, a Jeep reinava absoluta e cobrava preços premium. Afinal, quando a BYD e a GWM chegaram com carros mais potentes, bem mais equipados e ainda por cima mais baratos, ela foi obrigada a baixar os preços para não perder a liderança. E, no mercado automotivo, quando o preço do novo cai (ou estagna), o preço do usado na Tabela Fipe despenca junto.

Jeep Compass S 2023

Então, se em janeiro de 2023 a Série S do Compass custava R$ 230.990, depois, para responder a Song Plus e Haval, a Jeep lançou a linha 2025 com reduções que ficaram entre R$ 13 mil e R$ 20 mil no preço de tabela. Em março de 2026, o mesmo Série S vale R$ 156.348 – uma desvalorização de 32,3%. Quem comprou em 2023 pagou “preço de monopólio”, e hoje ele vale menos porque a Jeep admitiu que precisava custar menos para ser competitivo.

Já os clientes da BYD foram as maiores vítimas, e por sua própria agressividade: o Song Plus foi o que mais sofreu, porque a própria BYD baixou o preço do zero-quilômetro meses depois do lançamento. Isso “quebrou” o valor de quem comprou as primeiras unidades. Como vimos acima, o BYD Song Plus comprado em março de 2023 vale, três anos depois, 39,1% menos.

Mudança de dinâmica

Os primeiros compradores de 2023 (seja de Jeep, BYD ou GWM) pagaram a conta da transição de mercado, mas quem comprou os SUVs em 2024 já sofreu menos as consequências dessa guerra pelo consumidor, porque o mercado mudou com a chegada de novas versões e o início da produção nacional. Além disso, naquele ano havia muita incerteza sobre chineses. Em 2025 e 2026, com as fábricas da GWM e BYD já operando no Brasil, mesmo que em CKD ou SKD (apenas montagem) a confiança aumentou, reduzindo a depreciação.

BYD Song Plus 2024

O BYD Song Plus, porém, continuou sendo o mais “vulnerável”. Em junho de 2024, já havia sofrido um corte de preço oficial para R$ 239.800 (para combater o novo Haval). Quem comprou na época por esse valor, hoje o vende por R$ 187.067, segundo a Tabela Fipe – uma desvalorização de 22% em 2 anos.

Já o GWM Haval H6 PHEV19 era vendido no mesmo mês de 2024 por R$ 229 mil, e, graças à estratégia acertada da marca, seu valor se segurou  muito melhor. Hoje, o mesmo modelo usado vale na Tabela Fipe R$ 209.244 – uma desvalorização baixíssima, de apenas 8,6% em dois anos (menor que a do Corolla Cross XRX Hybrid, que perdeu 8,7% do seu valor).

GWM Haval H6 – Foto: Divulgação/GWMJá o Haval HEV2 desvalorizou um pouco mais nesses dois últimos anos, por causa, também, da competição com o próprio PHEV19 e novas versões mais baratas, mas, caindo de R$ 214 mil zero-quilômetro em junho de 2024 para R$ 188.172 hoje, teve desvalorização de 12,1%, o que é mais ou menos metade da perda de valor de Song Plus, Compass S e Tiggo 8 PHEV, como você pode conferir na tabela abaixo. 

Tabela de Desvalorização SUVs 2024-2026

Vale notar que Haval H6 HEV2 e PHEV19 surgiram justamente em meio à guerra de preços. Em março de 2024, não existiam com esses nomes (a GWM usava só HEV e PHEV), e eles foram lançados como “linha 2025″ no decorrer de 2024 e 2025 – mais uma estratégia que ajudou os modelos da GWM a manter mais valor.

Por que tanta diferença?

A Jeep subiu muito os seus preços até o início de 2024. Quando percebeu que estava perdendo muitas vendas para o GWM Haval H6 e o BYD Song Plus, passou a dar descontos agressivos no carro novo em 2025. Isso destruiu o valor na Fipe de quem pagou os R$ 250 mil que eram pedidos pelo Compass em 2024.

A BYD, por sua vez, lançou o Song Plus com uma bateria maior e um novo visual, bem diferente. Isso fez o modelo 2024 despencar, pois ninguém quer pagar caro em um usado que já tem “cara de velho” e, principalmente, uma bateria menor.

Já a GWM optou por não baixar o preço do Haval H6 – pelo contrário, foi subindo o valor do zero-quilômetro conforme os impostos de importação voltavam. Isso criou um “colchão” para o usado, fazendo com que o Haval H6 PHEV19 perdesse apenas 8,6% do valor até hoje – um resultado fenomenal para o mercado brasileiro. Financeiramente, é o melhor “negócio” desta lista para quem comprou entre 2024 e 2025.

Haval H6 HEV2 2026 – Foto: divulgação

A situação atual

Quem comprou de 2025 em diante encontrou um mercado com preços de tabela mais realistas, mas enfrentou um novo vilão: a obsolescência rápida. Embora a GWM e a BYD estejam se tornando “nacionais”, o ritmo chinês de lançar melhorias e novos visuais a cada 12 meses puniu quem comprou os modelos de transição.

Diferentemente de 2023, o medo agora não é a marca ir embora, mas sim o seu carro de R$ 240 mil ganhar uma bateria maior ou um novo design seis meses após a compra. Esse movimento “puxa” o valor do usado para baixo com força, mesmo que o preço do zero-quilômetro suba. Veja o cenário de quem comprou há apenas um ano:

Tabela de Desvalorização SUVs 2025-2026

Por que eles desvalorizaram tanto no último ano?

O Toyota Corolla Cross Hybrid é o único que mantém a lógica tradicional: perdeu apenas 4,1%. Isso acontece porque a Toyota não muda o carro drasticamente, mantendo o valor de quem já comprou. Já os outros sofreram golpes diretos das suas próprias fábricas.

No outro extremo, o BYD Song Plus 2025 é “vítima” da chegada do modelo 2026, que trouxe um visual frontal totalmente novo e bateria maior. Quem comprou o 2025 há um ano viu o carro virar “modelo antigo” rápido, o que explica a queda de 22%.

BYD Song Plus 2026 - Foto: Lucca Mendonça
BYD Song Plus 2026 – Foto: Lucca Mendonça

O Tiggo 8 PHEV se saiu ainda pior, com uma queda de 24% em um ano por um motivo amargo: a marca lançou a linha 2026 com “Preço Justo”, reduzindo os valores em até R$ 20 mil em relação a 2025. Quem pagou o preço cheio no lançamento viu o seu carro seminovo competir com um zero-quilômetro mais barato e mais equipado.

Falando da Jeep, o Compass S foi o pior do comparativo, perdendo surreais 27% em apenas 12 meses. O motivo é o excesso de estoque e as vendas diretas agressivas para locadoras, além do fato de que ele vai sofrer mudanças em breve. Em 2026, o mercado de usados está inundado de Compass seminovos vindos de frota, jogando o preço do seu carro particular para o chão.

no caso da GWM, o Haval H6 PHEV19 perdeu 13,2%, uma porcentagem um pouco alta, porém bem menor que a dos rivais chineses (metade das perdas de Compass e Tiggo 8), “protegido” pelo fato de a GWM ter subido o preço do zero-quilômetro em 2026. Apenas o Haval H6 HEV2 só sofreu mais (perda de 19% do valor) porque a GWM lançou versões de entrada novas que canibalizaram o preço do modelo 2025.

Haval H6 PHEV19
Haval H6 PHEV19 2025 – Crédito: Divulgação/GWM

O futuro das chinesas

A produção nacional da GWM em Iracemápolis (SP) é o “xeque-mate” que consolida o Haval H6 como o novo padrão de revenda. Enquanto a BYD focou em volume agressivo, a GWM usou os últimos dois anos para preparar uma base industrial que agora protege o bolso do proprietário.

O maior inimigo da revenda de um importado é o medo de o carro ficar parado meses esperando uma peça da China. Com a nacionalização, componentes de maior desgaste (suspensão, freios, lataria) passam a ser fornecidos localmente. Isso reduz o custo do seguro e aumenta a liquidez: o Haval H6 deixa de ser um “importado” para virar um “nacional confiável”.

Além disso, como o imposto de importação para eletrificados atingirá o teto de 35% em julho, e as marcas estão sendo forçadas a subir os preços dos modelos que ainda vêm de fora. Para quem já tem um Haval, isso é excelente: o preço do carro zero quilômetro sobe, “puxando” o valor do seu usado para cima e freando a desvalorização.

Moral da história

Embora o Haval H6 tenha segurado bem os preços em 2026 devido ao aumento do zero-quilômetro nacional, o japonês Corolla Cross continua sendo o SUV de venda mais rápida (liquidez) e menor risco para o investidor conservador.

Ao reduzir preços para ganhar mercado, algumas marcas canibalizam o próprio cliente e transformam um SUV de luxo em um eletrônico descartável. Ninguém gosta de descobrir que seu patrimônio de R$ 200 mil evaporou em poucos meses.

Mas, nesta guerra de preços, a estratégia da GWM se destaca, pois prova que proteger o valor de revenda (como ocorre “naturalmente” com a Toyota, no caso por sua tradição e credibilidade) é a melhor forma de fidelizar o consumidor — porque, afinal, o cliente não pode ser a principal vítima dessa disputa feroz pelo consumidor.