O esportivo nacional Hofstetter nasceu do sonho de um jovem apaixonado por design automotivo. Mário Richard Hofstetter tinha apenas 12 anos quando viu, pela primeira vez, fotos do Bertone Carabo, conceito exibido no Salão de Paris de 1968. A carroceria em forma de cunha e a mecânica derivada do Alfa Romeo 33 Stradale acenderam a ambição do garoto: um dia ele criaria seu próprio esportivo.

+Miura era o ‘Lamborghini’ possível nos anos 1980: relembre a história do esportivo gaúcho

+Salão do Automóvel: espaço ‘Memória Sobre Rodas’ tem 13 carros expostos; veja quais

Hofstetter Turbo – Foto: Carolina Lopo/Parque Dream Car

Hofstetter: inspiração em Maserati

Aos 15 anos, Mário já sabia exatamente o que queria. Mas veio o choque. No Salão de Genebra de 1971, o Maserati Boomerang de Giorgetto Giugiaro surgiu com linhas ainda mais ousadas. No ano seguinte, o conceito virou o Maserati Bora, e suas ideias influenciaram nomes como VW Passat e Golf, Lancia Delta, Lotus Esprit e até o DeLorean DMC-12. Mário aproveitou referências de ambos os mestres italianos e, em 1972, aos 16 anos, já tinha o desenho completo do carro dos seus sonhos.

Maserati Boomerang, o conceito de inspiração para o Hofstetter – Foto: divulgação

Início do projeto nacional

Em 1973, ele e um amigo iniciaram a construção da carroceria em fibra de vidro. O pai, Félix Hofstetter, duvidava da capacidade do filho, o que acabou virando motivação. Em 1975, a primeira carroceria saiu do molde e surpreendeu Félix, que então decidiu apoiar o projeto.

Hofstetter Turbo – Foto: Carolina Lopo/Parque Dream Car

A evolução foi lenta. Para avançar, Mário comprou um chassi de corrida da Divisão 4 com motor Ford-Binno e instalou a carroceria por cima. Sem vidros, guiava pelas marginais para testar o comportamento do carro. Nesse período, ousou ainda mais: adquiriu um motor Hart-Hewland usado pelo piloto José Carlos Pace na Fórmula 2. Só então descobriu que motores de competição simplesmente não funcionam para uso urbano. Mesmo assim, esse foi o primeiro protótipo funcional do Hofstetter.

Hofstetter Turbo – Foto: Carolina Lopo/Parque Dream Car

Empresários amigos do pai chegaram a oferecer financiamento para produzir a versão final do Hofstetter, mas queriam metade do negócio. Félix recusou e decidiu que fariam tudo em família, ainda que no próprio ritmo — um erro que custaria sete anos até o início da produção.

Hofstetter Turbo – Foto: Carolina Lopo/Parque Dream Car

Motor de VW Gol GT com turbo

Nesse caminho, o protótipo ganhou um chassi tubular. A suspensão traseira usava o subchassi dianteiro do VW Passat, com motor MD-270 1.6 montado longitudinalmente entre os eixos e câmbio de quatro marchas. Na frente, todo o conjunto vinha do Chevrolet Chevette. Depois, o carro recebeu motor 1.8 a álcool do Gol GT 1984 e câmbio de cinco marchas do modelo 1985. Ainda parecia pouco para o visual futurista, então Mário adicionou um turbocompressor: o conjunto passou a render cerca de 140 cv.

Hofstetter exposto no Salão do Automóvel – Foto: Museu CARDE/divulgação

Soluções incomuns

O Hofstetter chamava atenção por soluções incomuns. As portas em formato de tesoura eram elétricas, os faróis eram escamoteáveis e o painel era digital. Como os vidros não abriam, o ar-condicionado era obrigatório e funcionava assim que o motor ligava. Mas a ausência de abertura dificultava tarefas simples do dia a dia, obrigando o motorista a abrir a porta para pagar pedágios ou pedir informações. Isso levou à criação de uma pequena janela corrediça na peça acrílica.

Hofstetter Turbo – Foto: divulgação

Fábrica a todo vapor e novidades

Em 1986, a fábrica na Vila Olímpia, em São Paulo, funcionava a pleno vapor e já havia entregue as primeiras unidades à imprensa. Mas um dos planos econômicos da época desestabilizou o negócio e desanimou Mário, que voltou sua atenção à empresa da família. Mesmo assim, o carro continuou evoluindo: recebeu o motor 2.0 turbo do VW Santana, que trouxe mais torque e melhorou as retomadas. Ao longo dos anos, o modelo também ganhou alterações visuais como asa traseira, saias laterais e novo conjunto óptico.

Hofstetter Turbo – Foto: divulgação

18 unidades fabricadas

Da criação do primeiro protótipo do Hofstetter, em 1975, ao fim da produção em 1993, passaram-se 18 anos — e apenas 18 unidades foram fabricadas. Mário ainda guarda três delas: o primeiro protótipo com chassi de Divisão 4, a primeira unidade com mecânica definitiva (o chassi número 2) e a penúltima produzida (número 17).