Importadoras de carros clamam no deserto; montadoras apostam no Irã

José Luiz Gandini, novo presidente da Abeifa: “Nos deixem trabalhar, gente, para ajudar nosso País a sair desta situação de depressão econômica”. (Foto: Divulgação)

A poderosa indústria automobilística – que representa cerca de 5% do PIB brasileiro e mais de 20% do PIB industrial – é o retrato de uma economia em compasso de espera. Com capacidade ociosa de 50% nas fábricas de comerciais leves, de 52% nas de automóveis e de 74% nas de veículos pesados, a indústria automobilística brasileira espera por uma solução para a crise política enquanto vai administrando quedas brutais de vendas. Nos últimos dois dias, as duas associações que representam o setor deram o tom da crise. De um lado, o novo presidente da Abeifa (importadores e fabricantes menores), José Luiz Gandini, assumiu seu posto com um discurso duro: “Nos deixem trabalhar, gente, para ajudar nosso País a sair desta situação de depressão econômica”. De outro, o presidente da Anfavea (grandes montadoras), Luiz Moan, fez sua última coletiva antes de entregar o cargo mostrando mais otimismo na exportação de carros para o Irã do que na recuperação do mercado interno.

Depois de seu discurso, Gandini deixou transparecer que está clamando no deserto: “Reclamar com quem?” Segundo ele, por mais boa vontade que os escalões técnicos do governo tenham em apreciar a situação, ninguém vai fazer qualquer alteração na política de impostos enquanto a preocupação número 1 da presidente Dilma Rousseff for se salvar do impeachment. Os números divulgados pelas duas associações são péssimos.

Do lado da Abeifa, o mercado recuou de 199 mil unidades em 2011 para 59 mil em 2015. A previsão para este ano é de no máximo 50 mil. Gandini reclama que o adicional de 30% no IPI de todos os carros não fabricados no Brasil ou no Mercosul surgiu quando o dólar estava cotado em R$ 1,71. “Hoje, com o dólar na faixa de R$ 3,60, com 110%de desvalorização do real, este imposto é proibitivo”.

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Antonio Megale e Luiz Moan: futuro e atual presidente da Anfavea. (Foto: S. Quintanilha)

Do lado da Anfavea, considerando a produção total de autoveículos, a comparação do primeirotrimestre de 2016 mostra um recuo de 12 anos. Quanto ao licenciamento de autoveículos leves, as perdas são generalizadas. Das 21 marcas que comercializam automóveis de passeio, 19 tiveram queda em relação ao primeiro trimestre de 2015. Só duas marcas asiáticas cresceram, mas com números irrisórios: 1.283 carros a mais no caso da Hyundai e míseros 6 automóveis no caso da Lexus. No geral, a queda trimestral no licenciamento de automóveis foi de 26,7% (ou 145,9 mil carros a menos). Entre os comerciais leves, o cenário é o mesmo: 17 marcas caíram e duas cresceram. A Renault vendeu 1.836 veículos a mais, porque passou a atuar no ramo de picapes, e a Toyota emplacou 1.257 veículos a mais, por conta da nova geração da Hilux. No geral, a retração de vendas no primeiro trimestre foi de 37,1% (ou 38,7 mil veículos a menos).

Por causa disso, a possibilidade de atender a uma encomenda de 140 mil automóveis, 35 mil caminhões e 17 mil ônibus para renovar a frota de táxis e veículos pesados do Irã é no momento a única boa perspectiva da Anfavea. “Temos capacidade de fornecer 100% dessa necessidade, até por conta da nossa atual ociosidade”, disse Moan, que ressalvou o fato de o Brasil estar competindo com outros países. Pelo menos nesse caso, as boas relações que os governos do PT mantiveram com o Irã podem contar a favor. Ainda considerando o comércio exterior, o cenário é melhor do que internamente, pois houve um crescimento de 26,1% no volume de veículos leves exportados no primeiro trimestre: passou de 73,9 mil para 93,2 mil.

 

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