14/03/2026 - 13:42
Quando o Lamborghini Miura foi lançado no Salão de Genebra de 1966, em 10 de março, a marca redefiniu o conceito de esportivo de alto desempenho. O Miura apareceu com um motor V12 posicionado transversalmente atrás do motorista, em um layout inspirado no design do automobilismo. Era uma arquitetura radical, que rompeu com a tradição dos GTs. O Lamborghini Miura apresentava números de desempenho que, para a época, pareciam surreais. A forma do carro, criada pela lendária firma de design Bertone, tornou-se imediatamente icônica e atemporal.
Antes de mais nada, não confundam este Miura com o que tivemos no Brasil. O nome no Brasil não foi apenas uma coincidência. Os criadores do esportivo nacional (Aldo Besson e Milton Amaral) eram tão fãs do modelo italiano que decidiram homenageá-lo, criando uma das marcas mais luxuosas e tecnológicas da história da indústria automotiva brasileira.
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Mas este Miura que faz 60 anos agora é o original, da Lamborghini. E não só mais um deles, mas uma declaração de intenções da jovem empresa. Lançado apenas três anos após a fundação da Automobili Lamborghini, foi o terceiro modelo revelado e estabeleceu os valores da marca que durariam por décadas. Coragem além das convenções; inovação sem concessões; design e engenharia levados ao limite.
Com o Miura, a Lamborghini criou um segmento de veículos inteiramente novo: o superesportivo de motor central. Hoje, seis décadas após sua estreia, o Miura continua sendo um ícone de radicalismo técnico, engenharia visionária e design atemporal. O motor, agora lendário, entregava na última versão impressionante 380 cv de potência, levando o esportivo a uma máxima de 290 km/h e tornando-o o carro de produção mais rápido do mundo.

O início da ‘revolução Miura’
Menos de dois anos após a fundação da empresa, a Lamborghini ainda era uma fabricante de nicho, mas o 350 GT já havia demonstrado a ambição técnica da companhia. Ferruccio Lamborghini tinha orgulho do primeiro GT, mas sonhava com um veículo ainda mais potente.

A jovem equipe de engenheiros, liderada por Gian Paolo Dallara e Paolo Stanzani, assumiu a tarefa de transformar esse sonho em realidade. No coração do Miura estava um motor V12 de 3929 cm3 montado transversalmente a 60 graus, com quatro comandos de válvulas, virabrequim de sete mancais e quatro carburadores Weber. O virabrequim girava no sentido anti-horário.
A partir de 1964, Dallara, Stanzani e o piloto de testes neozelandês Bob Wallace desenvolveram a ideia de um novo superesportivo inspirado no automobilismo. Juntos, eles construíram, após o expediente, um protótipo pronto para dirigir que foi calibrado sem concessões para o desempenho. Ferruccio Lamborghini reconheceu imediatamente o potencial da ideia na apresentação e deu luz verde para o desenvolvimento do 400 TP como Projeto L105.
Em 3 de novembro de 1965, no Salão do Automóvel de Turim, a Lamborghini exibiu o chassi em preto acetinado, com o motor montado transversalmente atrás do motorista. O modelo aparecia ao lado do Lamborghini 350 GT e do 350 GTS.

Nunca antes ou depois um chassi nu atraiu tanta atenção. A caixa de aço, com uma espessura de parede de apenas 0,8 milímetros e inúmeros furos de alívio, pesava apenas 120 quilos, e os quatro tubos de escape brancos chamaram imediatamente a atenção dos visitantes. Foi uma demonstração de poder e um gesto radical da jovem marca de Sant’Agata Bolognese. Vários estúdios de design ofereceram apoio para vestir o chassi.
Mas a Lamborghini hesitou. Segundo a lenda, Nuccio Bertone apareceu no estande da Lamborghini perto do fim do Salão e foi o último fabricante de carrocerias a passar por lá. Bertone examinou o chassi em exibição e disse confiantemente a Ferruccio Lamborghini que seu estúdio projetaria “o sapato perfeito para este pé maravilhoso”.
Se esse diálogo realmente ocorreu assim não pode ser provado hoje, mas a anedota reflete a compreensão mútua imediata entre os dois empreendedores. A primeira colaboração com a Carrozzeria Bertone, onde Marcello Gandini era o Chefe de Design na época, vestiu o chassi de aço com uma carroceria eletrizante.
Apenas algumas semanas após o primeiro encontro, no início de janeiro de 1966, o design da Bertone foi finalizado, e o protótipo foi concluído em março, com o apoio de 30 funcionários da Bertone. Ele oferecia conforto e confiabilidade junto com números de desempenho impressionantes. O potente V12 foi unido a uma carroceria leve, e o design das rodas era inteiramente novo.
No Salão de Genebra de 1966, a Lamborghini apresentou um carro laranja que ignorava as convenções existentes. O conceito de motor central mudou fundamentalmente a distribuição de peso e proporcionou uma experiência de direção inigualável na época, que era complementada por um design elegante e de beleza arrebatadora criado por Bertone.
O primeiro touro espanhol
A conexão entre a Lamborghini e o simbolismo dos touros está profundamente enraizada na história da marca. Com o Miura, a Lamborghini usou deliberadamente o nome de uma famosa linhagem de touros espanhóis pela primeira vez. O modelo recebeu o nome da poderosa linhagem criada por Don Eduardo Miura Fernández. Nomes adotados posteriormente, como Espada, Islero e, mais tarde, Murciélago, são referências a touros lendários e suas características.
A renomada Bertone criou uma carroceria que estabeleceu novos padrões. Baixo, largo, elegante e agressivo ao mesmo tempo, o Lamborghini Miura parecia um predador pronto para atacar. A silhueta era baixa e a altura total do carro era de apenas 1,05 metro. Os marcantes faróis escamoteáveis com “cílios” e as generosas entradas de ar caracterizam um visual que não envelhece.

Bertone inspirou-se em carros de corrida: faróis planos e giratórios, grades de radiador que direcionam o ar para os freios e superfícies ripadas no capô dianteiro para exaustão de ar. O V12 era alimentado por entradas atrás e abaixo das portas. As grades pretas serviam para ventilação adicional, estabelecendo uma tendência de design poderosa.
Dependendo do pedido do cliente, a carroceria podia ter cores vibrantes, tornando o Lamborghini Miura um dos primeiros a oferecer uma paleta altamente personalizável, incluindo tons como Azzurro Mexico, Giallo Fly, Arancio Miura e Verde Rio.
Lamborghini V12: coração, alma e legado
Toda a história dos V12 da Lamborghini gira em torno deste motor: uma unidade de potência tecnicamente revolucionária que moldou o DNA da marca por quase seis décadas. É uma expressão de arte na engenharia, inovação e visão.
Com o último V12 puro equipado no Aventador Ultimae em 2022, a Lamborghini encerrou uma era que remontava aos anos 1960. Em 2023, o V12 entrou em um novo capítulo com o Revuelto (leia mais), no qual o motor icônico foi combinado a um sistema híbrido, marcando a evolução do V12 para uma nova era eletrificada.

Dependendo do modelo, P400 ou P400 S, o motor entregava 350 ou 370 cv, fazendo do Miura um dos carros de produção mais rápidos de sua época. O Miura 400 acelerava de 0-100 km/h em 6,7 segundos e era capaz de atingir 280 km/h. Na época, o superesportivo italiano era o carro de produção mais rápido do mundo.
O motor do P400 SV entregava ainda mais potência, com 385 cv a 7.850 rpm e torque de 388 Nm a 5.500 rpm, com dirigibilidade ainda melhor. A potência era transmitida via embreagem seca para uma transmissão manual de cinco marchas com grelha aberta (open shift gate).
O motor, a transmissão e o diferencial compartilhavam carcaça e sistema de lubrificação, o que era excepcional para a época. Foi uma solução ousada, que economizava espaço, porém tecnicamente desafiadora. Durante a produção, a Lamborghini desenvolveu um sistema de lubrificação separado para o motor e para a transmissão, uma mudança significativa. Seu desempenho, somado ao layout inovador de motor central V12, definiu o Miura como tecnicamente radical e o tornou o pioneiro dos supercarros.

O engenheiro Paolo Stanzani desempenhou um papel central nesta história de sucesso. Ele desenvolveu o V12 — originalmente projetado por Giotto Bizzarrini — para torná-lo adequado para as ruas e garantiu que estivesse pronto para a produção em série. Junto com a equipe, ele desenvolveu as soluções técnicas modernas que diferenciavam o Miura de outros carros esportivos da época.
Stanzani também esteve profundamente envolvido no design de outros ícones da Lamborghini, como o Countach, o Espada e o Urraco. O V12 não forneceu apenas desempenho, mas também o caráter do Miura. Seu som é inconfundível. O V12 é uma das razões pelas quais o Miura protagonizou papéis de destaque no cinema, incluindo a lendária cena de abertura de Um Golpe à Italiana (The Italian Job, 1969). O motor era a estrela, com seu som indissociavelmente ligado à linguagem visual da cena.
O Miura apareceu em inúmeras capas de revistas e em diversas reportagens especiais, ajudando a moldar a própria ideia de carro superesportivo. Porque o V12 do Miura é mais do que um motor: é o coração da marca Lamborghini.
Como convém a um superesportivo, o Lamborghini Miura é um carro sem concessões para dirigir. Sem direção hidráulica, sem sistemas de assistência eletrônica e com feedback mecânico direto, ele exige concentração total dos motoristas. Ao mesmo tempo, recompensa quem o conduz com uma experiência de direção emocionante e pura.
O V12 entrega potência de sobra e um som inconfundível que ainda é considerado a referência hoje. O chassi consiste em uma estrutura de aço (steel space frame) que conecta intimamente motor e suspensão. O design compacto possibilita tanto o visual icônico quanto uma estabilidade excepcional. Suspensões com braços duplos e molas helicoidais na dianteira e na traseira garantem uma dirigibilidade esportiva, firme e precisa para os padrões da época.

Lamborghini Miura: produção e versões especiais
Entre 1966 e 1973, foram fabricados 763 Lamborghini Miura na fábrica de Sant’Agata Bolognese (Itália), de acordo com registros oficiais. O primeiro Miura de produção foi entregue em Milão em 29 de dezembro de 1966, seguido por 107 carros durante o primeiro ano. Em 1968, a Lamborghini já havia vendido 184 unidades do Miura, uma média de quase quatro carros por semana — um número excepcional para um supercarro de alto desempenho daquela era.
Antes do início da produção em série, apenas um protótipo oficial foi construído. Estes veículos experimentais não estão incluídos nos números oficiais de produção. Além disso, um pequeno número de carros produzidos para mercados específicos, como Estados Unidos e Oriente Médio, apresentava pequenas adaptações técnicas ou regulatórias e às vezes é considerado separadamente em fontes históricas.
A Lamborghini também produziu modelos “transicionais” iniciais do Miura P400 S, combinando características do P400 e do posterior P400 S. Pelo menos 10 modelos Miura são considerados exemplares únicos (one-offs), projetos especiais ou carros de exibição.
Entre os mais famosos está o Lamborghini Miura Roadster de 1968, uma versão aberta única concebida e criada pela Carrozzeria Bertone. Finalizado em pintura azul-celeste lamê com interior em couro branco e tapetes vermelhos, apresentava elementos distintos, como entradas de ar maiores nas portas, aproximadamente 120 reforços estruturais, um para-brisa mais inclinado e lanternas traseiras exclusivas, diferenciando-o claramente do Coupé.
Para celebrar o legado do Miura, a Lamborghini revelou o Miura Concept em 2006, marcando o 40º aniversário do modelo. Apresentado no Salão de Genebra, o conceito rendeu tributo a um dos supercarros mais influentes da história automotiva. Projetado por Walter De Silva, o Miura Concept reinterpretou a silhueta baixa do original, os ombros largos na traseira e os balanços curtos em uma linguagem contemporânea, evitando deliberadamente o estilo retrô. Concebido puramente como um estudo de design, permaneceu como um conceito técnico, sem proposta de produção.

Miura hoje
O Lamborghini Miura estabeleceu um DNA claro que a Lamborghini continua a seguir até hoje: modelos como Countach, Diablo, Murciélago, Aventador e Revuelto carregam seu legado, pois foi o Miura que transformou a Lamborghini em uma fabricante em série de verdade.
Hoje, o Miura continua sendo referência de design automotivo e relevância cultural. Sessenta anos após sua introdução, ele não envelhece; ele amadurece. Ao longo dos anos, exemplares do Miura conquistaram prêmios de prestígio nos principais Concours d’Elegance, incluindo Villa d’Este, Pebble Beach, Salon Privé e Hampton Court Palace, recebendo prêmios de “Best in Class” e prêmios especiais do júri que celebram excelência em design, autenticidade e significância histórica.
Muitos desses carros premiados foram restaurados ou certificados pelo Lamborghini Polo Storico, o departamento oficial responsável por preservar o patrimônio histórico da Lamborghini através de pesquisa em arquivos, certificação, restauração e participação em grandes eventos internacionais de veículos clássicos.

Fichas Técnicas
Lamborghini Miura P400 (1966–1969)
- Primeira aparição: Salão de Genebra, 1966
- Motor central: 3.9 litros V12, 350 cv a 7.000 rpm, 355 Nm a 5.000 rpm
- Transmissão: manual de 5 marchas, motor transversal
- Velocidade máxima: aprox. 280 km/h
- 0–100 km/h: aprox. 6,7 s
- Peso em ordem de marcha: 985 kg
- Destaques: primeiro carro de produção com conceito de motor central no setor de veículos de passeio. Chassi tubular de aço (spaceframe). Carroceria elegante e baixa por Marcello Gandini/Bertone. Faróis com “cílios” que dão ao Miura sua face característica. O P400 é o Miura original, intransigente e purista, extremamente raro hoje em dia.
- Preço: 7.700.000 liras
Lamborghini Miura P400 S (1968–1971)
- Motor central: 3.9 litros V12, 370 cv a 7.500 rpm, 390 Nm a 5.500 rpm
- Velocidade máxima: aprox. 280 km/h
- 0–100 km/h: 6,4 s
- Peso em ordem de marcha: 1.180 kg
- Melhorias: bitola mais larga, ajuste de chassi modernizado com amortecedores Koni, vidros elétricos, interior de maior qualidade (opções de luxo), mais confortável que o P400, freios a disco ventilados na dianteira e traseira a partir do veículo nº 501.
- Carroceria: pequenas mudanças nas entradas de ar, assentos e painel, molduras de janelas cromadas em vez de anodizadas pretas, ar-condicionado opcional.
- Destaques: ainda extremamente esportivo, mas mais adequado para o uso diário. O P400 S combina a força bruta do Miura original com um pouco mais de luxo.
- Preço: 7.850.000 liras + 350.000 liras pelo sistema de ar-condicionado.
Lamborghini Miura P400 SV (1971–1973)
- Motor central: 3.9 litros V12, 385 cv a 7.850 rpm, 388 Nm a 5.500 rpm
- Velocidade máxima: acima de 290 km/h
- 0–100 km/h: 5,5 s
- Peso em ordem de marcha: 1.245 kg
- Melhorias: lubrificação separada para motor e transmissão, eixo traseiro mais largo para melhor tração, suspensão traseira modificada, desempenho aumentado, mais rápido e controlável, alguns equipados com diferencial de deslizamento limitado (limited-slip differential).
- Destaques: versão final da série Miura, sem os “cílios” nos faróis, visual moderno, maior desempenho e melhor dirigibilidade da série.
- Preço: 8.600.000 liras
Especificações Técnicas

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